Por Raul Pompéia (1888)
Mas era preciso que fossem leitos de amor as crinas de ouro e fogo dos leões, e que houvesse marfim, metais luzentes, pedraria, sobre a alvura láctea da carne amada, que não bastavam beijos para vestir; era preciso deliciar a gustação, como requinte das estranhezas. E os homens levaram a conquista aos reis da floresta, ao ventre do solo; foram colher aos ares os íncolas mais raros, emplumados de luz como criações canoras do sol; e foram buscar às ondas os mais esquivos viajores do abismo, singrando céleres, fantásticos, na sombra azul, em cauda um reflexo vago de escamas, — para morder-lhes a vida.
Urgiu ainda a fome, urgiu mais o amor e veio a guerra, a violência, a invasão. Curvaram-se os cativos ao látego vencedor e foram abatidas as escravas sob a garra da lascívia sanguinária, faminta de membros avulsos, olhos sem alma, lábios sem palavra, formas sem vontade, pretexto miserável de espasmos. Formaram-se os ódios de raça, as opressões de classe, as corrupções vingadoras e demolidoras. Mas a cisma evoluiu também, aquela cisma poética da pastoral primeva que buscara os astros no céu para adereço dos idílios. O fundo tranqüilo e obscuro das almas, aonde não chega o tumultuar de vagas da superfície inflamou-se de fosforescências; geraram-se as auréolas dos deuses, coalharam-se os discos das glórias olímpicas: as religiões nasceram.
Mas era preciso que fosse palpável o espectro da divindade; as rochas descascaram-se em estátuas, os metais se fizeram carne e houve cultos, houve leis, vieram profetas e pontífices ambiciosos. E esta evolução da cisma que fora amante, feita instrumento da tirania, deu lagar às práticas do terror, aos apostolados do morticínio.
Mas uma lira ficara da geração primeira de cismadores, e as cordas cantavam ainda e os sons falaram no ar as epopéias do Oriente e da Grécia. Roubou-se aos sacerdotes tiranos o monopólio dos deuses para jungi-los à atrelagem do metro; que levassem através dos séculos, o carro triunfal da estrofe, onda sonora de vibrações imortais.
E os esculpidores dos ídolos legaram o segredo da fábrica revelando que vinham de um molde de barro aquelas arrogâncias de bronze, que se fazem deuses como as ânforas. E os artistas modernos recomeçaram, chamando a religião ao atelier, como um modelo de hora paga; e gravaram em tinta, pelos muros, as visões místicas da crença.
A nitidez artística das formas fizera crer aos homens que morava realmente um espírito sagrado na porosidade do mármore, e que realmente havia em proporções infinitas uma tela de olimpos e paraísos, onde as cores do antropoformismo artístico viviam soberanas, olhando o mundo lá embaixo, vazando a urna providencial das penas e das alegrias.
Decaídas as fantasias sentimentais, reformou-se o aspecto do mundo. Os deuses foram banidos como efeitos importunos do sonho. Depois da ordem em nome do Alto proclamou-se a ordem positivamente em nome do Ventre. A fatalidade nutrição foi erigida em principio: chamou-se indústria, chamou-se economia política, chamou-se militarismo. Morte aos fracos! Alcançando a bandeira negra do darwinismo espartano, a civilização marcha para o futuro, impávida, temerária, calcando aos pés o preconceito artístico da religião e da moralidade.
Sobrevive, porém, o poema consolador e supremo, a eterna lira...
Reinou primeiro o mármore e a forma; reinaram as cores e o contorno, reinam agora os sons, — a música e a palavra. Humanizou-se o ideal. O hino dos poetas do mármore, do colorido, que remontava ao firmamento, fala agora aos homens, advogado enérgico do sentimento.
Sonho, sentimento artístico ou contemplação, é o prazer atento da harmonia, da simetria, do ritmo, do acordo das impressões, com a vibração da sensibilidade nervosa. É a sensação transformada.
A história do desenvolvimento humano nada mais é do que uma disciplina longa de sensações. A obra de arte é a manifestação do sentimento.
Dividindo-se as sensações em cinco espécies de sentidos, devem os sentimentos corresponder a cinco espécies e igualmente as obras de arte.
Da sensação acústica vem a estesia acústica: sentimento nos sons, nas palavras — eloqüência e música; da sensação da vista, a estesia visual, o sentimento na forma, no traço e no colorido, — escultura, arquitetura, pintura; da sensação palatal e olfativa nasce o sentimento do gosto e do perfume, — artes menos consideradas pela relativa inferioridade dos seus efeitos. A sensação do tato, secundada por todas as outras, dá lugar ao sentimento complexo do amor, arte das artes, arte matriz, razão de ser de todas as espécies de estesia.
O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da estética, no gozo visual das linhas da formosura, na delicie auditiva de uma expressão inarticulada, que fosse emitida com expressão, na comoção de um contato, na aspiração inebriante do aroma indefinido da carne. A obra d’arte do amor é a prole; o instrumento é o desejo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.