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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Temendo perturbar a marcha dos pensamentos daquele guia de povos, após os cumprimentos, Bogoloff sentou-se e encolheu-se em respeitosa reserva. Certamente, Macieira imaginava coisas poderosíssimas para a grandeza do Brasil; certamente pensava em algum problema nacional, atinente à agricultura, à indústria, ou mesmo às relações internacionais do país; certamente, naquele instante, passavam no seu pensamento as condições de felicidade de toda uma população; e o russo calara-se para que suas parvas palavras não fossem de qualquer forma estragar a maravilhosa solução que o senador iria encontrar. Ficou arrependido de tê-lo procurado. Olhou durante alguns minutos os dois quadros que havia na sala. Eram duas oleogravuras baratas em molduras caras, representando o “Nascente” e o “Poente” no mar alto.

O senador tirou uma larga fumaça do charuto e a sua fisionomia fechada perdeu ao r de concentração. Disse então:

— Ah! Doutor! Esta política!

Repetiu depois de algum tempo, com uma lamentável expressão de desânimo, senão de desgosto, abanando a cabeça.

— Esta política! Esta política!

O antigo anarquista que Bogoloff era, sentiu no momento uma certa admiração pelos homens de Estado. Com a visão que lhe veio ali das suas responsabilidades, das suas dificuldades, da necessidade do emprego, de inteligência e imaginação que necessitavam as medidas que punham em prática, veio também por eles um respeito que nunca se tinha aninhado no russo libertário. Sinceramente, disse-lhe este:

— O senador tem razão em estar preocupado, mas um homem dos seus recursos não pode desanimar. As questões mais difíceis se resolvem à custa de muito pensar nelas. Se não for hoje, será amanhã ou depois e o povo brasileiro não perde por esperar uns dias.

Macieira não lhe respondeu logo. Levantou-se da cadeira e respirou com força como se desde muito a preocupação não o deixasse respirar. Era alto e pesado de corpo, tendo uma cabeça redonda e os cabelos embranqueciam devagar. Foi até a janela, atirou fora a ponta do charuto e respondeu:

— Ah! Bogoloff! Se fosse só o povo, não me preocupava tanto. Ele está habituado a esperar; mas se trata do Chiquinho e as eleições estão na porta.

Sentou-se, calou-se um pouco e o russo não encontrou nada que lhe dizer. Após instantes, continuou, com voz lastimosa:

— Pobre Chiquinho! Tão amigo, tão dedicado, tão leal!

Quer ser deputado e eu lhe prometi que o faria; mas não sei por onde! Pelo meu Estado não é possível, o Chico diz que a vaga que vai haver é para o Nunes. O Chico é muito caprichoso e eu não gosto de contrariá-lo. Já falei ao Machado, mas mostrou-me a impossibilidade de servir-me. A vaga do Castrioto, eleito governador, vai para o irmão do Bentes. O Nogueira disse-me que ia ver... Ah! Bogoloff! Esta política é uma burla. Sirvo todos e, quando quero que me sirvam, não me atendem.

E estendeu os braços para o crucifixo.

Bogoloff esteve muito tempo sem nada dizer, apesar de saber que não é conveniente calar-se diante dos poderosos. O silêncio é sempre interpretado mal. Ele conhecia muito pouco o Chiquinho, ou, antes: o Dr. Francisco Cotiassu, bacharel em Direito, com um emprego qualquer, e mais nada. Assim mesmo e sabendo o motivo da pressa em fazê-lo deputado, adiantou:

— Talvez ele pudesse esperar...

O senador acudiu quase irritado:

— Esperar! Como? Pois se vai casar-se brevemente, como pode esperar? A fortuna dele é insignificante e o emprego que tem rende a ninharia de novecentos mil réis. Preciso fazê-lo deputado quanto antes... Havemos de ver.

A confiança trouxe-lhe o desejo de atender ao estrangeiro.

— Você quer um lugar, onde?

— No Fomento.

— Entende de alguma coisa?

— Entendo. Tenho até idéias especiais sobre a pecuária.

— Quais?

— Penso em criar porcos do tamanho de bois e bois que cheguem a elefantes.

— É maravilhoso! Como você procede?

— É uma questão de alimentação. As plastidas... Enfim: processos bioquímicos, já experimentados em outras partes, que aperfeiçoei.

— Bem, Doutor. Vou recomendar você ao Xandu e lá você expõe as suas idéias.

Redigiu a carta com grande desembaraço e segurança; e Bogoloff saiu com uma recomendação eloqüente e persuasiva. No mesmo dia não procurou Costale, o Xandu; Bogoloff quis degustar a maravilhosa impressão que recebera da meditação política. Se fosse ao ministério talvez ela se obliterasse. procurou-o ao dia seguinte na sua catita Secretaria de Estado.

Esperou um pouco na ante-sala com pretensões a luxo e majestade. Havia um busto de Floriano e pelas paredes, em telas médias, um prematuro retrato de Bentes e o de uma senhora, D. Anita Garibaldi, certamente uma glória italiana. Uma coleção de litografias ocupava grande parte de uma parede; eram os retratos dos ministros passados.

Pelas cadeiras, havia aquela fisionomias tristes das ante-salas dos ministérios. Pobres e remediados, pretos e brancos, mulheres e crianças, moços e velhos, todos compungidos, incertos, esperavam a graça do Estado quase divina. Uma atmosfera de angústia.

(continua...)

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