Por Coelho Neto (1906)
Logo o crioulo apresentou-lhe uma folha de papel implorando alguma coisa para o irmão Norberto, "que continuava enfermo, cercado e filhos". Ela deu-lhe uma nota, limitando-se a escrever na lista: Uma cristã. Felícia adiantou-se.
— Vamos, minh'ama. — Dona Júlia dirigia-se para a frente da sala quando a negra a deteve: É por aqui. Lá é para os homens.
Renques de cadeiras ocupavam todo o recinto abrindo uma estreita passagem central. As primeiras filas eram exclusivamente destinadas às mulheres. Dona Júlia sentou-se junto duma negra magra, de trunfa, que cabeceava com uma garrafa ao colo. Da sombra triste e calada rompia, de quando em quando, uma tosse rouca.
A sala não tinha outro ornamento senão as estrelas de ouro no papel azul que a forrava, dando-lhe aspecto celestial. Ao meio do teto havia um embrechado de madeira como um imenso ralo, braços de gás pendiam de ponto em ponto. Duas portas ao fundo — a da esquerda fechada, a da direita aberta sobre escuro corredor. Estantes carregadas de livros ladeavam a grande mesa pousada sobre um estrado. Acima duma das estantes inclinava-se um quadro preto com a imagem de Cristo agonizante e, justamente por trás da mesa, na parede constelada, brilhava, em caixilho d'ouro, a legenda:
Fora da caridade não há salvação.
Mais adiante, em moldura esguia, o aviso: "É proibido fumar." Felícia, vendo que Dona Júlia andava atentamente com os olhos de um para outro lado, disse-lhe baixinho:
— Então? Vosmecê estava com tanto medo... e agora? Não é uma casa séria? Eu sei que muitos falam daqui, mas é de inveja, minh'ama. Vosmecê não imagina como a gente sai consolada desta casa.
A velha conservava-se calada, olhando sempre, examinando todos cantos. Passos soavam na escada, depois um toc-toc como de muletas que viessem batendo pelos degraus. Duas negras entraram, falando com intimidade ao crioulo da porta. Uma trazia uma criança pela mão e outra ao colo, tossindo, com a cabeça deitada sobre o seu ombro, em prostração doentia. Depois apareceu uma cabrocha magrinha, enfezada, com a pele toda em rugas, os olhos miúdos como vidrilhos, brilhando sinistramente no fundo das órbitas, muito corcovada, abordoando-se a uma bengala. E, pouco a pouco, a sala se foi enchendo — as mulheres tomavam os lugares reservados, iam os homens para as últimas cadeiras ou para as janelas.
Dona Júlia começava a impacientar-se, quando surgiu do corredor escuro, em mangas de camisa, arrastando chinelas, um mulato arremangado. Logo ao entrar na sala, reconhecendo uma das negras, estendeu-lhe a mão, muito alegre, detendo-se a conversar, mas passou adiante, afagando uma criancinha que choramigava. Por fim, levantando a cabeça, bradou com autoridade:
— Estamos na hora!
Os que entravam caminhavam em pontas de pés, sentando-se cautelosamente. Três marinheiros apareceram ao alto da escada, olharam, e já se dirigiam para as primeiras filas, quando o mulato falou: "Não, lá pra baixo, patrícios. Aqui é das senhoras." O mulato olhava insistentemente para Dona Júlia. Felícia chamou-o: ele adiantou-se risonho.
— Esta é minh'ama que vem fazer uma consulta.
Dona Júlia baixou os olhos, vexada, temendo que a negra falasse do seu tormento, contando a um estranho as angústias que lhe alanceavam o coração. Mas a um psiu, vindo do fundo corredor, o mulato voltou-se.
Na moldura de trevas, como essas figuras ebúrneas da arte bizarra dos japões, coladas sobre cetim negro, apareceu uma mocinha pálida, magrinha, de cabelos ruivos despenteados. O mulato acudiu-lhe ao chamado, cochicharam e, logo em seguida, ele subiu ao estrado e acendeu os dois bicos de gás que iluminaram a mesa. Houve um sussurro na sala abafada — cadeiras arrastadas, pigarros; uma criança pôs-se a chorar.
Da rua entraram na sala taciturna as rajadas alegres de um dobrado. Um dos marinheiros foi à janela, outro seguiu-o, mas a música perdia-se, morria na distância, como levada pelo vento, e o silêncio recaiu. Dona Júlia, vendo o movimento dos assistentes, compreendeu que se iam passar coisas estranhas, e chegou-se muito à Felícia, numa necessidade de proteção. Cortava apenas o silêncio uma tosse intermitente que vinha de um canto.
Súbito, rompendo da treva do corredor, um homem apareceu, ligeiro, irrequieto, com o lenço em volta do pescoço. Subiu logo para o estrado, sentou-se à mesa e disse: "Deus esteja convosco". Um murmúrio correu pela sala, como a passagem do vento nas árvores. Uma mocinha, que ocupava uma das primeiras cadeiras, a cabeça pendida sobre o colo magro, estremeceu violentamente, com um suspiro entrecortado, e a cabrocha, persignando-se, deixou cair o cajado, com estrépito; todos voltaram-se, como assombrados.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.