Por Coelho Neto (1890)
Toda a mobília não dava para encher um dos quartos e a casa imensa ficava desoladamente vazia, apesar de haverem os rapazes espalhado, com sabedoria, as cadeiras e as estantes.
— Não se sacia este monstro! — rosnou Ruy Vaz desesperado. Estão aqui os móveis de três homens e nem parece. E um abismo!
O tapete no salão era como uma pequenina ilha na imensidade do oceano. João de Deus tomou conta de um dos quartos do primeiro pavimento, pousou a rodilha no chão liso e, como estava esfalfado, estirou-se e dormiu. Os rapazes desceram e como queriam provar todas as delicias da casa, foi Anselmo para a barra fixa, Toledo pendurou-se no trapézio, enquanto Ruy Vaz estudava o estilo das pinturas da sala de jantar.
Já a tarde roxa caía quando, sem esperança de que aparecessem os preciosos móveis de Crebillon e a louça e o trem da cozinha, resolveram mandar à venda buscar ovos e pão para que João de Deus arranjasse uma omelete rápida, mas o negro lembrou ponderosamente que não havia frigideiras nem pratos, propondo umas sardinhas de Nantes.
As razões do negro foram julgadas procedentes: optaram pelas sardinhas e, quando as latas apareceram abertas, cada lata acompanhada de um pão louro e trepidante, houve alegria no grupo. E porque não chegara a mesa de imbuía, a grande mesa dos futuros banquetes, foi sobre o fogão monstruoso e de pé, como os israelitas comiam o cordeiro da Páscoa, molhando o pão no azeite, que os quatro devoraram silenciosamente, enquanto uma cigarra cantava na araucária e as magnólias abriam-se com suave aroma.
Quatro longos, ansiosos dias passaram sem notícia de Crebillon. Aflitos, os rapazes dispersavam-se todas as manhãs indo aos pontos que o abolicionista costumava freqüentar mas ninguém informava; o próprio charuteiro nada adiantou sobre o mistério. E a casa, imensa e nua, à noite iluminada profusamente, parecia um palácio maldito, despovoado e silente onde, a horas altas, com tinidos de ferros e uivos, espectros vinham purgar crimes sobre tesouros escondidos nas muralhas grossas ou sob o soalho forte.
Mas João de Deus encarregou-se de afugentar os duendes, não com hissopes e rezas, mas com um gato, magro e gafento, que entrou num saco, miando, e foi despejado no salão, desaparecendo em seguida. Mas como não cessava de miar ora debaixo fogão, ora no banheiro, ora no corredor, calaram-se os rumores e o assombramento desapareceu.
Uma tarde, já cintilavam estrelas, os rapazes digeriam no jardim uma gorda feijoada que haviam saboreado no hotel do G. Lobo, à rua do General Câmara, casa de modesta aparência e módica, onde um homem podia empanturrar-se com quinhentos e oitenta, sobremesa inclusive, quando João de Deus, sobressaltado, anunciou a mudança de Crebillon.
Posto que achassem a hora imprópria para a entrada de tão preciosos móveis, abalaram à pressa chegando ao corredor justamente quando o abolicionista, com o seu vozeirão atroante, recomendava a um homenzinho "que tivesse cuidado com os trastes", encarregando João de Deus de ir ao pavimento superior mostrar o quarto ascético que se reservara. Dando com os rapazes respirou esbaforido, limpando o suor da fronte.
— Ó homem, onde te meteste? — perguntou Ruy Vaz.
— Ah! Meu amigo: sou um ressuscitado. Vamos lá para o jardim enquanto arranjam o seu quarto.
— E os outros móveis? — perguntou Anselmo.
— Vêm depois. Se estou a dizer que sou um ressuscitado. — Mas que houve? — indagou com interesse o Toledo.
— Que houve, heim?! Quase me vou desta para a melhor.
— Como?
— Vamos lá para o jardim; preciso de ar.
Caminharam. Na sala de jantar Crebillon reconheceu que aquilo não podia continuar como estava e perguntou como se haviam arranjado. Imagina! Sem nada em casa.
— Sim, mas vamos pôr isto em ordem amanhã mesmo. Amanhã...?! elevou os olhos, alisou a pêra e disse com desgosto:
— Amanhã não é possível, tenho um negócio de madeiras. Depois de amanhã.
— É domingo.
Na segunda-feira então.
— Mas o teu caso... lembrou Ruy Vaz.
— O meu caso... Ah! Meu amigo, se eu não fumasse charuto era hoje cadáver. Estava frito! Devo a vida a um charuto.
— A um charuto...?
— A um charuto, é verdade! Os rapazes encararam-no esgazeados. Vamos para o jardim. Isto aqui é uma estufa. A um charuto... E há imbecis que combatem o fumo. Se eu não fumasse, ah!
Desceram ao jardim e, à falta de bancos, sentaram-se na relva tépida. Só Crebillon, de pé, ia e vinha, narrando:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.