Por Raul Pompéia (1888)
Sob o peso da conclusão, Zé Loto cedeu.
Aristarco achou que era tempo de funcionar a presidência e sacudiu sobre o tumulto o badalo da ordem.
O orador na tribuna, ereto e calmo, promontório sobre a tormenta, esperava que o alvoroço chegasse a termo. Apenas viu arrefecer o furor dos impropérios: “Corramos um véu sobre o cenário desolador”, continuou; “venha em socorro a esperança de um renascimento”. E por ai habilidosamente conduzindo a oração, acabou por um quadro de futuro, armado em aurora sobre a tribuna, pórtico de luz, jorrando um deslumbramento que extasiou os ouvintes com o encanto dos vaticínios felizes, levando o sopro da viração matutina as nuvens do desanimo esfumadas antes sobre o panorama.
Tiveram a palavra, ainda, dois estudantes, que moeram uma quantidade profusa de frases comuns a propósito de letras e literatos. O filho do diretor, o republicanozinho que conhecem, tinha no bolso dez tiras, dez brulotes de eloqüência incendiária, que resolveu sufocar depois do escândalo colossal do sebo.
A segunda sessão solene do Grêmio, conquanto mais pacifica, não foi menos importante.
Realizou-se em princípios de outubro, pelas imediações das férias. A concorrência foi maior, compareceram senhoras em grande número, o que não sucedera na de instalação; houve mais capricho de ornatos nas salas; forrou-se a tribuna de verde e amarelo; inscreveram-se os mais aproveitados campeões da oratória do Amor ao Saber. O colégio compareceu fardado; a diretoria, de casaca.
A conferência do Dr. Cláudio foi subversiva, mas em sentido diverso da primeira. Versou não mais sobre a literatura no Brasil, porém sobre a arte em geral:
Arte, estética, estesia é a educação do instinto sexual.
A manutenção da existência indivíduo tem a razão de ser no instinto de vitalidade da espécie. O momento presente das gerações nada mais é que a ligação prolífica do passado com a posteridade. E a razão de ser das espécies? A indagação não perscruta.
Para que o indivíduo perdure, momento genésico da existência especifica no tempo, é indispensável adaptar-se as imposições do meio universal. O rio a correr não despreza o detalhe do mais insignificante remanso, nem pode sofismar o obstáculo do menor rochedo no alvéu. O critério inconsciente do instinto é o guia da adaptação.
O esforço da vida humana, desde o vagido do berço até o movimento do enfermo, no leito de agonia, buscando uma posição mais cômoda para morrer, é a seleção do agradável. Os sentidos são como as antenas salvadoras do inseto titubeante; vão ao encontro das impressões, avisadores oportunos e cautelosos.
A cada mundo de sensações notáveis corresponde um sentido. Os sentidos, teoricamente delimitados, são cinco, múltipla transformação de processo de um único — o tato, exatamente o sentido rudimentar das antenas.
Faz-se, tateando instintivamente à procura dos agradáveis: agradável visual, agradável gustativo, agradável tangível, em suma. O agradável é essencialmente vital; se é às vezes funesto, é porque o instinto pode ser atraiçoado pelas ilusões.
A perfectibilidade evolutiva dos organismos em função, manifestando. se prodigiosamente complexa, no tipo humano, corresponde à revelação, na ordem animal, do misterioso fenômeno personalidade, capaz de fazer a critica do instinto, como o instinto faz a critica da sensação.
A informação de reportagem de cada sentido não desperta, portanto, no homem a atividade cerebral dos impulsos de preferência, de repugnância, simplesmente, como nos outros animais; mas amplia, pela psicologia inteira dos fenômenos espirituais, a variedade infinita das comparações, permutadas de mil modos na unidade do espírito como as peças de um jogo maravilhoso sobre o mesmo pano.
Duas são as representações elementares do agradável realizado: nutrição e amor.
Os animais inferiores, não favorecidos por um razoável coeficiente de progresso, produzem secularmente a condição da inferioridade; olham, tocam, farejam, ouvem, não provam com demasiado escrúpulo e devoram grosseiramente para depois amar, como sempre fizeram.
O homem, por desejo de nutrição e de amor, produziu a evolução histórica da humanidade.
A nutrição reclamou a caçada fácil — inventaram-se as armas; o amor pediu um abrigo, ergueram-se as cabanas. A digestão tranqüila e a perfilhação sem sobressaltos precisaram de proteção contra os elementos, contra os monstros, contra os malfeitores, — os homens tacitamente se contrataram para o seguro mútuo, pela força maior da união: nasceu a sociedade, nasceu a linguagem, nasceu a primeira paz e a primeira contemplação. E os pastores viram pela vez primeira que havia no céu a estrela Vésper, expandida e pálida como o suspiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.