Por Raul Pompéia (1881)
Esse tesouro de graça saibam-no despender as mulheres.
Loucas as que distribuem, cegamente, o seu patrimônio de rosas. Tolas as que o soterram no segredo desnaturado da inteira reserva, revelando-o quando muito às frias confidências de cristal do espelho.
Toda esta teoria endiabrada do decote ocorreu-me num segundo.
Na tua idade, eu adivinhava os homens!
Resolvi afrouxar o laço de vexame com que me estrangulava, nos vestidos afogados, prescritos por minha mãe.
Fingi que desdenhava o olhar do vizinho, voltando o rosto para outro lado. E atrevidamente soltei um... dous... três... botões da gola do meu princesa!
Ora, minha bela Otília, dai a pouco, eu guardava no seio submisso, rendido o olhar rebelde do meu moreno; acolhia-o no tépido decote dos meus quinze anos, como um pombo no vinho, friorento, trêmulo.
Assim, no dia seguinte, e no outro e no outro...
E começaram a secar de ciúmes as madressilvas..."
Neste ponto, sem saber como, viu Otília que um... dous... três botões do paletó branco, tal qual na história da prima, se lhe haviam desprendido.
Que horror!
E, sob a fuzilada de olhares da última janela do 2.o andar fronteiro, as abas de fustão, como grandes pétalas, abertas num desabrochar audacioso de magnólia, entremostravam colorações de carne virgem e fugitivas sombras, rendilhadas, ao fundo, por encantadora desordem de crivos claríssimos de camisa.
Raul Pompéia
DE MADRUGADA
I
Top, um lindo perdigueiro malhado, era o cão de um meu vizinho; e o meu vizinho um esquisito, desses homens que fazem não se sabe o que, e vivem não se sabe como, isto é, cosendo o manto das aparências ricas, com as misérias íntimas. Via-se-lhe a família a rir nas soirées, enfaixadas nas sedas, e não se via se chorava, quando a chitinha doméstica substituía os tecidos faustosos. O meu vizinho Ricardo, por seu lado, era alegre, de uma alegria frenética, nervosa; isto em sociedade. Concentrado em seu gabinete, era um abstrato meditador e um meditador triste.
II
Top não o abandonava nessas horas de melancolia; o generoso cão entrava no quarto do dono e, pé ante pé, ia enrodilhar-se junto da poltrona de Ricardo. Punha-se a fitá-lo, imóvel e interrogador. A melancolia do dono parecia influir na existência do pobre animal.
Top ia perdendo visivelmente o curvilineado elegante das formas e começavam a emergir-lhe na pele umas saliências ósseas de mau desenho.
Era uma pena ver-se aquele homem e aquele cão, cruzando às vezes um olhar morno e cheio de tristeza, isolados na meia sombra do quarto. Felizmente ninguém surpreendia tais cenas.
III
Esta noite, um rumor despertou-me. Era a minha pêndula que dava horas. Não me foi possível contar as pancadas. Saltei do leito e com um fósforo iluminei o mostrador do relógio. Eram quatro horas. Boa hora de levantar-se para quem gosta de o fazer bem cedo. Contrariei com esforço a preguiça da madrugada, que me entorpecia, e preparei-me para um passeio. Devia ser agradável. Ao menos divertido. À hora em que o Rio de Janeiro salta n'água da Guanabara, para os seus mergulhos higiênicos, sempre se tem o que ver...
IV
Saí.
V
Uma hora mais tarde, a minha curiosidade de passeante foi atraída por uma coisa extraordinária.
Eu costeava o cais da praia d... Num ponto em que o pequeno muro de cimento faz uma entrada, recolhendo o mar num remanso onde as algas apodrecem e dormem as ondas, vi uma sombra saltar do chão para o muro e do muro para o chão, de um modo aflitivo, soltando como que gemidos, espiando para o mar, tentando pular e com medo. A luz do dia que chegava e as estrelas que fugiam deixaram-me ver. A sombra era um cão: o perdigueiro malhado do meu vizinho. Uma pancada forte senti no peito.
VI
Encaminhei-me com pressa para o lugar. Antes de lá chegar, vi o cão atirar-se para o lado do mar e sumir-se.
Corri. No ponto em que estivera Top eu inclinei-me. Descansei os antebraços no cimento do cais e examinei o mar. Fazê-lo e recuar foi coisa de um segundo. Lá embaixo boiava um cadáver de costa para cima, com os braços abertos. Perto dele, o perdigueiro debatia-se tentando puxá-lo.
VII
Entretanto, brilhava a aurora vermelha como uma chaga, derramando nas ondas as cores da tragédia.
Eu vi sobre o parapeito do cais um objeto branco. Era um envelope.
Fugi.
Raul Pompéia
DIA DE GALA
Era duplamente dotada de fibra e de imaginação; com este aparelho arma-se uma criatura terrível; terrível ou deliciosa: pontos de vista. Para completar, moça e viúva.
A viuvinha sofria, assim, de uma viuvez carnal, saudade orgânica do esposo (esposo aqui em gênero, não em caso) como deve padecer a roda dentada, da ausência absurda da engrenagem conjugante.
Era religiosa. No êxtase da crença, oferecia aos numes do oratório o sacrifício difícil dos seus desgostos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.