Por Lima Barreto (1909)
Muitos. Mas há dois colaboradores que, em todo o jornal, devem merecer observações especiais e estudo à parte. São eles: o charadista e o cronista esportivo.
Destes dois auxiliares das gazetas não sei qual o mais interessante e curioso, embora dessemelhantes. O charadista vive sempre pobre e mal vestido; o entendido em cousas de cavalos, apurado no vestuário, sempre com dinheiro, jóias, anéis, apesar dos exíguos vencimentos que tem.
Os repórteres e redatores têm por este último um desprezo mal sopitado e não o consideram jornalista. Admitem-no como um amador, um curioso, um ornamento inútil, assim como uma filigrana em vaso destinado a misteres úteis ou um remate caprichoso em um móvel indispensável.
Eles mesmos assim se consideram e admitem tacitamente a opinião dos jornalistas, pois formam sociedades à parte e preferem ao convívio dos colegas das folhas, o comércio de proprietários de animais de corridas, de tratadores, de jóqueis, de sujeitos de book-maker, enfim desses homens de coudelarias e adjacências que, com um pouco mais de ferocidade e sangue, lembram, pela sua insignificância e inutilidade e, ao mesmo tempo, pela importância a que se arrogam e a estima em que são tidos, os retiários, os mirmillons, os bestiários e outras espécies de gladiadores antigos e o seu cortejo necessário.
Não há nada mais enfadonho que uma crônica de corridas. Quem lê uma, lê todas. Excetuando os dados de momento, são escritas com os mesmos verbos, os mesmos adjetivos, os mesmos advérbios.
Até o tom homérico em que são escritas, concorre para essa monotonia.
No seu sopro épico, há sempre o apelo para os “apostos” que se repetem, desde que se fala em tal ou qual animal.
Têm-nos, os cronistas, sempre prontos na memória e não se esquecem de colocá-los logo que venham a referir-se a dado e certo cavalo.
Se tratam de “Rayon d'Or”, por exemplo, imediatamente o analista dos prados deixa pingar da pena e encaixa, entre virgulas, bem ao lado do nome do cavalo: “o valente filho de ‘Bayard’ e ‘Ninive’”; se vai dizer qualquer coisa da égua “Maracanã”, não se esquece nunca de escrever como reforço ao nome da alimária: “a vitoriosa pensionista do stud São Francisco”.
A ênfase lhes é indispensável para vazar a emoção que trazem dos prados e cantar as pugnas cavalares.
Para eles, não são potros e éguas que se batem; são heróis de Homero. É Agamenon, é Priamo, é Heitor, é Aquiles que estão a pelejar diante dos muros de Tróia e com os Deuses e Deusas nas arquibancadas.
Menos considerado do que o cronista de coisas eqüinas, nos jornais, só o charadista.
Ele não tem uma classificação justa e certa; e todos os homens de imprensa têm escrúpulos em qualificá-lo de colaborador.
Em geral é um rapazola, empregado aqui ou ali, que não vence ordenado algum na folha, melancólico, curvado, afigurando-se-nos sempre que vive debruçado sobre dicionários e, não sabemos por quê, com uma forte lente como se fosse um gravador de miniaturas.
Vem ao jornal, procura a correspondência, entrega com timidez a “seção” ao secretário e ninguém lhe nota a presença resignada e paciente de tenaz fabricante de quebra-cabeças.
O do meu jornal, embora fosse pouco assíduo à redação, como os seus semelhantes, pude conhecer mais de perto.
Era ele um velho de cerca de sessenta anos, empregado do Ministério da Marinha, no Arsenal ou em uma fábrica de pólvora.
Usava costeletas sempre bem aparadas a tesoura, tinha uma cor terrosa, baça, pince-nez, não largava a piteira de coco com um cigarro modesto e pisava como se quisesse dar pequenos saltos. Tinha um ar de saracura.
Além de charadista, julgava-se poeta, pelo simples fato de compor uns monólogos desenxabidos e recitá-los nas salas.
Dei-me muito com ele e posso garantir que não conheci nunca pessoa tão cheia de cândido orgulho como esse maníaco de charadas.
Imaginava-se uma grande coisa, um intelectual, um escritor e era rara a vez que, conversando comigo, não se queixasse da sua situação no funcionalismo público, da pouca importância que davam aos seus talentos.
— Veja você só: estou há quase quarenta anos no Ministério e não fazem nada por mim. Tenho tido várias comissões importantes. Organizei o catálogo da Biblioteca da Escola de Aprendizes e, ainda há dias, recitei um monólogo meu — “Os Barbados” — na casa do Contra-Almirante Esteves. As moças gostaram muito e a filha do almirante até me disse: “Vou falar a papai, para aproveitar a inteligência do senhor”.
Soube mais tarde que, de fato, não havia festa em casa de qualquer magnata da Marinha, para que ele não fosse convidado. Orgulhava-se muito com isso e, ao dia seguinte, contava aos colegas as atenções que tinha recebido, como para provocar a inveja deles.
A verdade, porém, é que lá figurava como um músico de banda, um cantador de modinhas ou um pelotiqueiro que lá fossem para distrair as moças, sem ficar no mesmo pé de igualdade que os outros convidados. Mesmo assim, a sua vaidade de poeta doméstico ficava satisfeita.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.