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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Chegando ao começo da rua de Santo Amaro, despediu-se; "tinha de ir à casa de um velho parente, na Gávea". Os futuros palacianos, sempre seguidos de João de Deus, desceram para a cidade, a pé, sem almoço, sob uma soalheira cáustica.

CAPÍTULO VIII

No dia seguinte, às quatro da manhã, todos de pé e alegres começaram a encaixotar os livros e, às nove, pararam à porta as duas andorinhas. Dona Ana, avisada pelo filho, quis embargar a mudança, mas os carregadores não atendiam e, placidamente, iam descendo os trastes que ficaram folgados nas duas imensas carroças.

João de Deus já se preparava para tomar um lugar à boléia, quando o Toledo apareceu com o esqueleto embrulhado num lençol, confiando-o ao negro para que o levasse cuidadosamente. O africano, que não via com bons olhos aquele despojo de finado, fez uma careta significativa, entendendo que era melhor escondêlo no bojo de um dos transportes, mesmo para que a polícia, alarmada, não fosse acompanhando a mudança na suspeita de um crime. O anatomista, porém, convenceu-o com palavras brandas:

— Não, João, tem paciência!... Não quero perder o esqueleto. Na carroça, com os solavancos, pode haver fratura de algum osso e lá se vai o meu precioso manequim. Tem paciência, leva-o contigo. Isto é a minha enxada, João. Isto é que me há de dar o pão para a boca. Toma cuidado, meu velho.

O negro submeteu-se e, enrolado o esqueleto, lá foi ele para a boléia muito rijo e, com a ossada sobre as pernas, parecia, mal comparando, o Anúbis egípcio com uma múmia ao colo.

Na sala deserta, por onde voavam esparsas folhas de papel garatujadas, reuniu-se o conselho para resolver se deviam despedir-se da viúva ou sair sobranceiramente sem palavra. Anselmo opinou pela retirada sobranceira. Ruy Vaz, porém, grato aos antigos acepipes, grato aos passados tempos de fartura e paz, quis levar à viúva os seus agradecimentos e, como o Toledo concordasse, houve maioria e os três desceram e foram bater à porta da sala de jantar, mas Dona Ana rugiu furente: "Que fossem para o diabo!", e ganiu uma praga cruel.

Seguiram, então, apartando-se daquela casa sem adeus. Da rua lançaram um saudoso olhar à sacada e viram Vidinha, com o rosto formoso encostado à vidraça, seguindo-os com um olhar de melancolia. De repente, porém, João irrompeu, de cigarro à boca, franziu a cara numa careta e sacudiu um gesto vil.

— Peralta! — disse baixinho o Toledo mas Anselmo, indignado, com os olhos relampejantes, pálido de fúria, estacou ameaçador:

— Eu vou quebrar a cara daquele patife!...

— Estás louco, homem? Vamo-nos embora! E o João dançava na sacada com acenos indecorosos e caretas horripilantes.

Antes de tomarem rumo foram ao café e Anselmo, para fazer lastro, engoliu três empadas e um copo de leite e, reconfortados, como na véspera havia caído do céu uma nota de vinte mil réis, foram os três repousadamente, a bonde, descendo na rua Santo Amaro. Quando chegaram, já as andorinhas despejavam os trastes com grande pasmo dos vizinhos que viam tanta velharia e tão desencontrados móveis entrando para aquele prédio nobre e de tão alto preço, de onde havia saído a família de um fidalgo, seguida de uma dezena de andorinhas que, ainda assim, foram poucas para levar os finos erables, os magníficos jacarandás, o precioso carvalho florejado, as raras perobas tigre, o pau rosa, o ébano, um retumbante Erard e cristais, bronzes, mármores, estofos, tapeçarias e a baixela e a faiança e os quadros, porque, depois de haverem desfilado lenta e longamente os transportes, que rangiam atestados, homens ainda desceram carregados e até a primeira hora da noite, tendo a mudança começado com os brilhos suaves da manhã, como de uma cidade que a peste ou a guerra houvesse ameaçado, foi um constante transitar de gente: negros com chocalhos e brancos e mulatos, homens de várias terras, falando várias línguas, arquejando, curvados sob pesos inauditos, ladeira abaixo, em passo rítmico e seguro.

Quando o tapete, que representava a voluptuosa cena do serralho, foi estendido no vastíssimo salão do pavimento superior, usa dos homens das andorinhas apresentou a Ruy Vaz o recibo. O romancista guardou-o, o homem, porém, não se moveu coçando a cabeça empastada, com os olhos muito abertos, um cigarro mole ao canto da boca.

— Que é? Está entregue, pode ir.

— É que... é que ainda não está pago o serviço, murmurou com um sorriso parvo.

— Como! Não está pago?

— Não, senhor.

— Pois volte com o recibo, porque a pessoa que tratou lá deve ir pagar.

— Não dá alguma coisa para matar o bicho? — murmurou o homem em tom pedinte.

— Não, respondeu Ruy Vaz sisudamente — sou da sociedade protetora dos animais.

O carroceiro lançou um olhar rancoroso ao romancista, tomou o papelucho, meteu-o no bolso profundo e, dando volta nos calcanhares, rosnou: "Às ordens..." e desceu. Ruy Vaz mandou João de Deus trancar as portas e começou a arranjar a casa.

(continua...)

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