Por Raul Pompéia (1888)
Encheu-se de bancos e cadeiras austríacas o vastíssimo salão. Ao centro, em frente, a mesa da diretoria; à esquerda, os convidados; à direita, os outros alunos, o resto, como se diz das maiorias, sem voz ativa.
Sobre o pano avinhado de ramagens, abria-se a pasta do secretário; sobre a tribuna cintilava cristalino o copo das urgências instantes.
Poucos oradores. Aristarco, presidente honorário, abriu a sessão com a chave do peregrino verbo, recomendando a nova associação como um tentame honroso e de muito fruto para os moços aplicados, que teriam ensejo de se dar ao cultivo da oratória e das belas-letras.
Subiu em seguida à tribuna o presidente efetivo.
Com a facilidade da sua elocução, fez o Dr. Cláudio a critica geral da literatura brasileira: a galhofa de Gregório de Matos e Antônio José, a epopéia de Durão, o idílio da escola mineira, a unção de Sousa Caldas e S. Carlos, a influência de Magalhães, os ensaios do romance nacional, a glória de Gonçalves Dias e José de Alencar.
E passou a estudar a atualidade.
O auditório que escutava, interessado, mas tranqüilo, começou a agitar-se.
O orador representava a nação como um charco de vinte províncias estagnadas na modorra peludosa da mais desgraçada indiferença. Os germes da vida perdem-se na vasa profunda; à superfície de coágulos de putrefação, borbulha, espaçadamente, o hálito mefítico do miasma, fermentado ao sol, subindo a denegrir o céu, com a vaporização da morte. Os pássaros calados fogem; as poucas árvores próximas no ar parado, debruçam-se uniformes sobre si mesmas num desanimo vegetativo, que parece crescer, descendo, — prosperidade melancólica de salgueiros. O horizonte limpo, remato, desfere golpes de luz oblíqua, reptil, que resvalam, espelhando faixas paralelas, imóveis, sobre o dormir da lama.
Por entre os raros caniços, emergem olhos de sapo, meditando a vantagem daquela paz sombria, indolência negra, em que chega a ser vigor de vontade estrebuchar quatro arrancos através da onda grossa em busca da fêmea. A arte significa a alegria do movimento, ou um grito de suprema dor nas sociedades que sofrem. Entre nós, a alegria é um cadáver. Ao menos se sofrêssemos... A condição da alma é a prostração comatosa de uma inércia mórbida. Quem nos dera a tonicidade letal de uma vasca. Trituramos a vida por igual como um osso; roemos o dia, pacientes, de rojo, sobre o ventre, como cães ao pasto. Fosse manjar o crânio de Rogério, ao menos teríamos a tragédia... Nada! A condição é o descanso ininterrupto do aniquilamento no plano infinito da monotonia. E não é o teto de brasa dos estios tropicais que nos oprime. Ah! como é profundo o céu do nosso clima material! Que irradiação de escapadas para o pensamento a direção dos nossos astros! O pântano das almas é a fábrica imensa de um grande empresário, organização de artifício, tão longamente elaborada, que dir-se-ia o empenho madrepórico de muitos séculos, dessorando em vez de construir. É a obra moralizadora de um reinado longo, é o transvasamento de um caráter, alargando a perder de vista a superfície moral de um império — o desmancho nauseabundo, esplanado, da tirania mole de um tirano de sebo!...
Calculem agora que estava entre os convidados o Dr. Zé Loto, pai de um aluno, devoto jurado e confirmado das instituições, irmão de não sei quantas ordens terceiras, primo de todos os conventos, advogado de causas religiosas, conservador em suma, enraivado e militante. O sebo da tirania caiu-lhe nos melindres como um pingo de vela benta.
“Protesto!” rugiu, rubro e rouquenho, dilacerando as barbas e erguendo o punho. Não podia admitir que viessem à sua vista ensebar as instituições! Por maior desgraça estava também presente o Senador Rubim, avó de outro aluno, senador de maus bofes, um pai da pátria padrasto, sem considerações nem papas na língua.
“Quem protesta contra o sebo da tirania é barro! “ redargüiu ao apartista com a pachorra temível dos velhos insolentes.
— Burro, não! clamou o outro, empalidecendo sob a vergasta da injúria, nervoso, perturbado pela atenção da sala inteira que o encarava. Burro, não! tais expressões são indignas de V. Ex.a, um senador e um velho!...
— Burro, sim!... repetia o outro vagarosamente, com um arreganho enfastiado de insulto. Burro, sim!...
Aristarco conservava-se a presidência, na pasmaceira de pau dos ídolos afrontados. O salão enorme, alunos e convidados, tumultuava em vagalhões, fragmentado em partidos opostos, uns pelo senador e pela anarquia, outros pelo advogado e pela ordem pública. Muitos gesticulavam de pé; havia estudantes gritando em cima dos bancos. Os insultos voavam como pelouros; os protestos rangiam como escudos feridos; havia mãos pelo ar que pediam espadas.
Aproveitando-se do escarcéu, o advogado ousara arremessar uns desaforos ao senador. O outro, sem ouvir bem, ia replicando com a impertinência do seu estribilho: “Burro, sim”, até que, impaciente, pôs remate à polêmica com as cinco letras da energia popular que Waterloo fez heróicas, Vítor Hugo fez épicas e Zola fez clássicas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.