Por Raul Pompéia (1881)
Já nem sei o que escrevo... nem sei o que escrevi. Sinto peso no crânio e peso nos braços. Vai desculpando, meu amigo, as idéias e a letra. Isto não é bem carta... Não sei como chame, senão sacrilégio; porém, já... não respondo por mim... Vejo um tremor estranho agitar os objetos que me cercam... Sou eu talvez que estremeço. Voa um nevoeiro escuro pelo meu quarto... Não posso continuar. É também impossível examinar o que escrevi.
E... para quê?... Estou incapaz de corrigir... Se houver por aí alguma blasfêmia, deita-a por conta do vinho...
Também começo a ouvir uns rumores horrendos... Vão levá-la...
Não posso continuar...Reina movimento na sala do esquife... Tenho a cabeça a arder, como se um incêndio me lavrasse os cabelos... Neste instante bateram levemente à porta do meu quarto! Não abro! Não abrirei!
Ainda há o que beber aqui...
Bateram de novo... Que tormento!... Não abrirei!...
Perdão meu generoso F, eu sou um perverso... mas não te incomodes. O gargalo de uma garrafa pode valer o cano de um revólver... A morte é um grande ponto final. Termina. Não me desgosta: criminoso estarei punido; desgraçado estarei livre.
E bem que se morre num tonel de Malvasia!...
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Conserva, meu precioso amigo, esta carta. Nunca mais escreverei. Adeus.
Teu F.
Niterói, 12 de outubro de 188... Raul Pompéia
DECOTES DE QUINZE ANOS
Curiosa coincidência, pensava Otília, debruçando-se à janela com a carta que lhe escrevera a prima, curiosa coincidência, aquela carta e aquela situação!
Do outro lado da rua em frente, erguia-se em grande prédio de dois andares. Na última janela do segundo andar, à direita, lá estava ele, o impertinente vizinho, que não lhe tirava os olhos de cima, uns vivos olhos vorazes de meter medo.
Com ela, com a sisuda Otília aquele rapaz perdia o seu tempo.
Mas era interessante a coincidência... Ela e aquele sujeitinho ali... e o assunto da carta, da terrível carta!...
Sob a fuzilada de olhares que lhe chegavam da última janela à direita do 2.o andar fronteiro, a mocinha tornou a ler.
"... Nada conheces, na tua idade de inexperiência e de surpresas.
Sou do número das trintonas de Balzac, um escritor que ainda não leste, entendido nos mistérios da alma feminina, sou do número das educadas do amor, mulheres de curso completo na ciência do coração.
Mas já tive a tua idade, os deliciosos quatorze ou quinze anos de criança, quando o sexo nos revela apenas pela prevenção desconfiada do pudor, essa tolice adorável do sangue.
Amanhã, muito breve, saberás o que valem as flores de fogo que às vezes te abrasam o lindo rosto. Então na hora do amor, compreenderás os vagos temores, indefinidos sustos que te assaltam, como um rebate, de extraordinárias cousas. O coração fugir-te-á do peito, a internarse como um herói de balada, pela floresta das fantasias. Sonharás o eleito dos teus afetos.
Instintivamente entregar-te-ás à impaciente urdidura de quantas armadilhas imaginares para a caçada do ideal.
A propósito, conto-te uma historieta dos meus quinze anos. Uma lição que te dou de experiência galante.
Eu morava na rua dos Arcos, naquela casa assobradada, de seis janelas, onde hoje habita a família da R . C.
Enclausurada na rede de solicitude, com que nos cercava, a mim e às manas, meu pai, avaro dos seus tesouros (tesouros éramos nós) arredada severamente do comércio da sociedade, ardia-me o desejo curioso de uma aventura, fora do círculo conhecido dos carinhos domésticos.
Diante da nossa casa morava um moço moreno, esbelto... circunstância propícia! Um belo companheiro para a minha escapula.
Ser amada por um rapaz como esse, eu não queria mais! Um só olhar de amor que ele me dirigisse, arrebatar-me-ia às sonhadas viagens azuis.
Dezoito anos parecia ter; sobre os lábios começava a acentuar-se-lhe o desenho volteado de um futuro par de bigodes; grandes olhos negros, exprimindo mansidão, pupilas que se moviam devagar, oleosamente no corte das pálpebras.
De manhã, cedo, aparecia à janela do sótão que lhe servia de quarto e, com um copo-d'água, regava amorosamente o vergel de madressilvas que diante dele se espraiavam pelo telhado até envolver as goteiras prolongadas sobre a rua em bocas de corneta.
Banhava as flores e as flores enviavam-me baforadas de doce perfume.
Mas só as madressilvas se apercebiam de mim. Cândido demais, ou demasiado altivo, o vizinho não me ligava importância.
Ora eu tinha veleidades de beleza; avalias o meu despeito.
Dizem que a melhor maneira de atrair o olhar é olhar. Eu olhava, olhava e perdia o esforço. Cheguei a supor que o inflexível moreno, já não era senhor do seu coração e caprichava em manter a lealdade dos seus compromissos.
Era para desesperar.
Felizmente, um dia, eu o surpreendi a observar-me.
Oh, júbilo! Mas era preciso cativar de uma vez aquele olhar que me podia fugir para sempre, esquivo como a ocasião. O demoninho dos quinze anos soprou-me um expediente. Devia ser aquele beija-flor que me passou pelo rosto zunindo.
O pudor é uma grande força.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.