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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1670)

95. Pediu Filipe, rei de Macedônia, à República de Atenas o deixasse passar com o exército pelas suas terras, o que o senado lhe não quis conceder. E porque o estilo dos atenienses – que ainda hoje se chama estilo lacônico – era resumir tudo o que se havia de dizer às palavras mais breves, tomaram um grande pergaminho – que era o papel daquele tempo – e escreveram nele um não com tamanhas letras, que o enchia todo, e cerrado, e selado, esta foi a resposta que deram aos embaixadores de Filipe. É mui célebre nas histórias gregas este breve e grandíssimo não, mas na nossa Atenas ainda os há maiores. Tantas petições, tantas remissões, tantas provisões, tantas patentes, tantas certidões, tantas justificações, tantas folhas corridas, tantas vistas, tantas informações, podidas muitas vezes à Ásia, e à América, tantas consultas, tantas interlocutórias, tantas réplicas e tantas outras cerimônias e mistérios por escrito, a que não se sabe o número nem o nome; e ao cabo de quatro, de seis e de dez anos, ou o despacho, ou o que significa o despacho em meia resma de papel, é um não. Não fora melhor este desengano ao princípio? E as despesas deste injusto entretenimento, que se devem restituir nesta vida, ou se hão de pagar na outra, por cuja conta correm? Já que não haveis de fazer ao pretendente a mercê que pede, por que não lha fareis, ao menos, do que há de gastar inutilmente na pretensão? Ao outro que presentava o seu memorial, disse el-rei D. João Segundo, na primeira audiência, que não tinha lugar no que pedia, e ele beijou-lhe a mão. Entendestes-me? – replicou el-rei. – Senhor, sim, – Por que me beijais, logo, a mão? – Porque me fez Vossa Alteza mercê do dinheiro que trazia para gastar na corte, e agora o torno a levar para minha casa. – Estas são as mercês do desengano, e os despachos do não dito a seu tempo. Não o dizer será maior política, maior autoridade e decência; mas dizê-lo, em muitos casos é obrigação e consciência.

§III

Como evitar as ocasiões de dizer não? Primeiro meio: não conceder aos validos as suas petições, como o fez Deus quando castigou o povo de Israel. O não do Senhor à pretensão dos apóstolos. A petição de S. Paulo. Os dois gêneros de negações: as puras negações, e as privações.

96. Disputada assim problematicamente a nossa questão, de umas e outras razões de duvidar, se conclui com certeza que o não, sem ser coisa alguma, é como as outras coisas deste mundo, que todas têm seus bens e seus males, suas utilidades e seus inconvenientes. Para não cair, ou tropeçar nestes, que a cada passo se oferecem ou atravessam em tanta multidão de requerimentos, o primeiro cuidado ou cautela do prudente príncipe deve ser evitar, quanto for possível, as ocasiões de dizer não. Mas como se podem evitar ou atalhar estas ocasiões, sendo os pretendentes e as pretensões, os requerentes e os requerimentos tantos? Digo que fazendo com destreza e constância que sejam menos, e muito menos, e usando para isso dos meios que agora apontarei, e nos ensina o nosso Evangelho.

97. O primeiro meio é que os validos, ou privados, por mais juntos que estejam à pessoa real, e por mais dentro que estejam na graça, sejamos primeiros a que se não conceda o que pretenderem. A razão, ou conseqüência, é manifesta. Porque se os que estão de fora virem que os que estão de dentro, e tão de dentro, não alcançam o que pretendem, como se atreverão eles a pretender, nem pedir? Tinha Deus determinado castigar o povo de Israel com quatro pragas ou açoites, de fome, de guerra, de peste e de bestas-feras, e para que entendessem que por nenhuns rogos ou intercessões, se suspenderia a execução destes castigos, acrescenta que, ainda que lho pedisse Noé, Jó e Daniel, não lho havia de conceder. O modo desta cominação pelo profeta Ezequiel é muito singular, por que diz assim: Se mandar fome, ainda que interceda Noé, Jó e Daniel, hãose de secar os campos e as searas; se mandar guerra, ainda que interceda Noé, Jó e Daniel, tudo há de levar a espada; se mandar peste, ainda que interceda Noé, Jó e Daniel, tudo há de consumir a morte; se mandar bestas-feras, ainda que interceda Noé, Jó e Daniel, tudo hão de destruir e devastar as feras. Com razão chamei a este modo de cominação singular, porque se não lê outro semelhante em toda a Escritura. Pois porque o faz Ezequiel, e o manda fazer Deus com tão expressa e tão multiplicada repetição, de que não hão de valer ao povo as orações de Noé, de Jó e de Daniel? Porque estes três, em diferentes séculos, foram os maiores validos de Deus, e para persuadir e desenganar a todos de que se lhes não há de conceder o que pedirem, o meio e exemplo mais eficaz é negar e não conceder aos validos as suas petições. Se a Noé, se a Jó, se a Daniel se nega o que pedirem, como se me há de conceder a mim? Não quero pedir. No nosso texto o temos.

(continua...)

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