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#Sermões#Retórica

Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

62. Chegou Esaú do campo, cansado e com fome de todo o dia, e chegou a desastrada hora, porque estava no mesmo tempo seu irmão Jacó cozinhando, diz o texto, umas lentilhas. Estes eram os grandes homens, e estes os grandes regalos daquele tempo. Pediu Esaú a seu irmão um pouco daquela vianda, mas ele, aproveitando-se da ocasião e da necessidade, respondeu que dar não, mas vender sim: que se Esaú lhe vendesse o seu morgado, começaria desde logo a lhe dar aqueles alimentos. Deus nos livre de se ajuntar no mesmo tempo a fome e a tentação. O sucesso foi que Esaú aceitou o contrato, deu o morgado. Pois valha-me Deus, o morgado de Isac, a herança de Abraão, a bênção dos patriarcas, que foi a maior coisa que desde Adão houve no mundo, por uma escudela de lentilhas? Este homem era cego? Era louco? Era vil? Nada disto era, mas era um homem – diz a Escritura – que vendeu, e não pesou o que vendia: Abiit parvi pendens, quod primo genita vendidisset.10 E homem que vende sem pesar o que vende, não é muito que por uma escudela de grosserias desse o maior morgado do mundo. Se Esaú, antes de vender; tomara a balança na mão, e pusera de uma parte o morgado e da outra a escudela, parece-vos que venderia? Pois eis aí porque há tantas almas venais. Esta história de Esaú e Jacó aconteceu uma só vez antigamente, mas cada dia se representa no mundo: o papel de Jacó fá-lo o demônio, o de Esaú fazemo-lo nós. O demônio oferece-nos um gosto, ou um interesse vil, e pede-nos o morgado que nos ganhou Cristo; e nós, porque contratamos sem a balança na mão, e não pesamos a vileza do que recebemos com a grandeza do que damos, consentimos no contrato, e ficamos sem bênção. Quando Esaú vendeu o morgado, não o sentiu, nem fez caso disso; mas depois, quando viu que Jacó levava a bênção, e ele ficava sem ela, diz o texto que irrugit clamore magno, et consternatus est: (Gên. 27, 34): que tudo era encher o céu de clamores e gemidos, e despedaçar-se a si mesmo e desfazer-se com dor. – Ah! mal-aconselhados Esaús! Agora vendemos a alma e o morgado do céu pela vileza de um gosto, pelo engano de um apetite, pela grosseria de um manjar de brutos, e disto não fazemos caso. Mas quando vier aquele dia em que Cristo dê a bênção aos que estiverem à sua mão direita, e nós virmos que ficamos sem ela por umas coisas tão vis: Oh! que dor! oh! que desesperação! Oh! que circunstância de inferno será esta tão grande para nós!

63. Pois que havemos de fazer, para não cometer um erro tão grande e tão sem remédio? Fazer remédio da mesma tentação. Tomar na mão a balança que faltou a Esaú, e pesar o que o demônio nas promete e o que nos pede. O que nos promete não é todo o mundo; o que nos pede, e o que lhe havemos de dar, é a alma. Ponhamos de uma parte da balança o mundo todo, e da outra parte uma alma, e vejamos qual pesa mais. Oh! se Deus me ajudasse a vos mostrar com evidência a diferença destes dois pesos! Vamos ponderando uma por uma as mesmas palavras da tentação.

§III

O mundo fantástico que o demônio mostrou a Cristo era nada mais que uma vaidade composta de muitas vaidades, como diz Salomão. As balanças do juízo humano segundo Davi. O peso das coisas não estão nas coisas, senão no coração com que as amamos. A brevidade momentânea das tentações. As riquezas e glórias do mundo: um trabalho para antes, um cuidado para logo, um sentimento para depois. Andou muito néscio o demônio em mostrar o mundo a quem queria tentar.

(continua...)

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