Por Padre Antônio Vieira (1644)
37. Mas por que neste exemplo não nos fique o escrúpulo de ser adulação poética, posto que tão conforme ao afeto natural, confirmemo-lo com testemunho histórico e verdadeiro, em nada menor que o passado, e porventura mais notável. Celebra Plutarco, tão insigne historiador como filósofo, o grande extremo com que Filipe, rei de Macedônia, amava a seu filho Alexandre, já digno do nome de Grande em seus primeiros anos, pela índole e generosidade real que em todos seus pensamentos, ditos e ações resplandecia.4 E para prova deste extremado afeto, refere uma experiência, que nos vassalos pudera ser tão arriscada, como do rei mal recebida, se o amor de pai a filho a não interpretara doutra sorte. Foi o caso que os macedônios, sem embargo da fé que deviam a Filipe, publicamente chamavam a Alexandre o rei, e Filipe o capitão. Mas como castigaria Filipe este agravo? Não há ciúmes mais impacientes, mais precipitados e mais vingativos que os que tocam no cetro e na coroa. Apenas tem havido púrpura antiga, nem moderna, que por leves suspeitas neste gênero, se não tingisse em sangue. E que sofre Filipe, aquele que tanto tinha dilatado o império de Macedônia, que seus próprios vassalos em sua vida e em sua presença, lhe tirem o nome de rei, e o dêem a Alexandre? Muito fora que o sofresse, mas muito mais foi que não só o sofria, senão que o estimava e se gloriava muito disso. Ouvi a Plutarco: Hunc filium non immerito Philippus dilexit, ut etiam gauderet, cum Alexandrum Macedones regem, Philippum appellarent ducem. Era Filipe pai, e Alexandre filho, e tão fora estava o pai de sentir que lhe antepusessem o filho, que antes o tinha por lisonja e glória, e esse era o seu maior gosto: Ut etiam gauderet. Quando lhe tiravam a coroa para a darem a seu filho, então se tinha Filipe por mais coroado; quando já faziam Alexandre herdeiro do reino, antes de lhe esperarem pela morte, então se tinha por imortal; quando o apelidavam com menor nome, então se tinha por maior; e quando lhe diziam que ele só era capitão, então aceitava esta gloriosa injúria, como os vivas e aplausos da mais ilustre vitória, porque a maior glória de um pai é ser vencido de seu filho: Et vinci gaudet ab illo.
38. A razão e filosofia natural deste afeto é porque ao maior desejo, quando se consegue, segue-se naturalmente o maior gosto, e o maior desejo que tem, e devem ter os pais, é serem tais seus filhos, que não só os igualem, mas os vençam e excedam a eles.
Assim o disse ou cantou ao Imperador Teodósio, Claudiano, tão insigne na filosofia, como na poética. Descreve copiosamente as virtudes imperiais, militares e políticas, com que seu filho Honório se adiantava admiravelmente aos anos, e não só igualava, mas excedia a seu pai, e fazendo uma apóstrofe a Teodósio, lhe diz confiadamente assim: Aspice nunc quacumque micas, seu circulus Austri, magne parens, gelidi seu te meruere Triones, aspice, completur votum, jam natus adaequat te meritis, et quod magis est optabile, vincit: De lá, onde como estrela de Marte, ilustrais o mundo com vossas vitórias, ou seja no círculo do Austro, ou no frio Setentrião, olhai, felicíssimo César, para Honório, vosso filho, e se como imperador tendes conseguido o nome de Grande, chamandovos a voz pública Teodósio, o Magno, a minha, diz Claudiano, não vos invoca com o nome de grande imperador, senão com o de grande pai: Magne parens, e o que celebro mais entre todas as glórias de vossa felicidade, e o que tenho por mais digno do emprego de vossa vista, é que vejais e torneis a ver: Aspice, aspice, que chegastes a ter um filho, o qual não só vos iguala, que é o que desejam os pais, mas que já vos excede e vence, que é o que mais devem desejar: Et quod magis est optabile, vincit. Notai muito as palavras: Quod magis est optabile, e aplicai-as ao nosso caso. O que mais se deve desejar, é o melhor que se pode escolher. E como o que mais devem desejar os pais é que os filhos os vençam e os excedam, bem se conclui, que, se entre a glória de Deus e a da sua Mãe, fora a escolha da mesma Mãe, o que a Senhora havia de escolher para si, é que seu Filho a excedesse e vencesse na mesma glória, como verdadeiramente a excede e vence: Et quod magis est optabile, vincit. Vence Deus incomparavelmente a sua Mãe na glória infinita que goza, mas como este mesmo excesso é o mais que Maria podia desejar, e o melhor que podia escolher como Mãe, por isso se diz com razão que Maria escolheu a melhor parte: Mariam optimam partem elegit.
§IV
Opinião dos Santos Padres: São Sidônio Apolinar. Epístolas de S. Gregório Nazianzeno a Nicóbulo e a seu filho. Carta de Santo Agostinho a Juliana, mãe da virgem Demetríade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.