Por Padre Antônio Vieira (1674)
11 Perdoai-me, Rainha Santa, este discurso, mas não mo perdoeis, porque todo ele foi ordenado a avaliar o preço, a encarecer a singularidade, e a sublimar a grandeza de vossas glórias. Menos santa fora Isabel, se a sua santidade não assentara sobre mulher e coroa. Destes dois metais, um tão frágil, outro tão precioso, deste vidro e deste ouro se formou, se fabricou a peanha que levantou a estátua de Isabel até as estrelas. Mas antes que mais nos empenhemos na ponderação desta verdade, acudamos às vozes do Evangelho, que parece estão bradando contra ela. O modo de negociar o reino do céu, e a forma ou contrato desta negociação, diz Cristo que há de ser dando, deixando e renunciando o negociante tudo quanto tiver: Dedit omnia sua, et emit eam.16 Se Isabel renunciara à coroa, e deixara de ser rainha, então disséramos justamente que com a coroa da terra comprou e negociou a coroa do céu; mas ela viveu rainha e morreu rainha, e não renunciou à coroa. Eu bem sei que renunciar uma coroa, assim como é a maior coisa do mundo, assim é também a mais dificultosa, mas não por isso impossível. Exemplo temos no nosso século, posto que o não vissem os passados. Roma o viu, e Roma o vê: Uma das maiores coroas da Europa, renunciada com tanto valor, e deixada com tanta glória, só por seguir a fé do Evangelho, e segurar debaixo das chaves de Pedro aquele reino que só elas podem abrir. Pois, por que não deixou Isabel este tudo, que verdadeiramente é o tudo do mundo: Omnia quae habuit? Por que não renunciou e demitiu de si a coroa, para se conformar com o Evangelho?
12. Primeiramente digo que sim: deixou Isabel a coroa, mas deixou-a sem a deixar, demitiu-a sem a demitir, e renunciou-a sem a renunciar. Era Isabel rainha; mas que rainha? Uma rainha que debaixo da púrpura trazia perpetuamente o cilício; uma rainha, que assentada à mesa real, jejuava quase todo o ano a pão e água; uma rainha, que quando se representavam as comédias, os saraus, os festins, ela estava arrebatada no céu, orando e contemplando uma rainha, que por dentro da sua coroa lhe estavam atravessando a cabeça e o coração os espinhos da coroa de Cristo; uma rainha, que adorada e servida dos grandes de seu reino, ela servia de joelhos aos pobres, e lhes lavava os pés com suas mãos, e lhes curava e beijava as chagas. Desta maneira usava Isabel da coroa, ajuntando e unindo, na pessoa da rainha, dois extreinos tão distantes e dois exercícios tão contrários, e isto digo que foi deixar a coroa sem a deixar. Tenho para prova um texto de S. Paulo, muito vulgar e sabido, mas de tão dificultosa inteligência, que tendo-se empregado variamente nele todos os expositores sagrados, ainda se lhe deseja mais própria e adequada exposição.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.