Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Os Abranhos são originários de Amarante e aliados, pelas mulheres, à ilustre casa de Noronha. Em 1758, D. Jacinta Ana de Sobral Vieira Alcoforado e Noronha, viúva do capitãomor Teles Azurara, senhora já avançada em anos, mas ainda de aspecto imponente, casara com Manuel Abranhos, que, pelas suas formas atléticas e beleza viril, era chamado o Apolo de Amarante. Manuel Abranhos não era decerto um fidalgo, mas é inteiramente inexacto o dizerse, como se imprimiu na Revolução de Setembro, então na oposição, que era um carniceiro: estas insinuações pérfidas desonram as grandes lutas intelectuais da política!

D. Jacinta Ana concebera por ele uma dessas paixões, como aquelas que a poesia Alípio Severo Abranhos nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal. A Providência, por um símbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que nasceu Jesus de Nazaré, aquele que em Portugal devia ser o mais forte pilar e o procurador mais eloquente da Igreja, dos seus interesses e do seu reino..6 tem celebrado, e, apesar da renitência dos parentes – que faz lembrar a dos Capuletos, pai e irmão da doce Julieta (tanto as famílias históricas se assemelham nos grandes sentimentos que as agitam) – D. Jacinta apoderou-se do belo Abranhos, e o casamento foi celebrado (recordo-o a título de curiosidade histórica) pelo padre Vicente Tardinho, reitor de Varzelhe, que depois tanto se celebrizou num processo retumbante. Já então, digamo-lo de passagem, sob a influência dessa vaga aragem revolucionária que soprava de França, tinha principiado esta longa perseguição ao clero, que um dia devia tomar proporções que de certo modo lembram as perseguições de Diocleciano.

O casamento, escrevo-o com dor, não foi feliz. Não possuo os documentos necessários para decidir a quem pertence a responsabilidade das desinteligências crescentes, mas é certo que o belo Apolo que, como dizia com um chiste adorável o Conde, «frequentava muito o seu colega Baco», espancava tão imprevistamente D. Jacinta, que obrigou muita vez esta dama a refugiar-se em casa dos seus parentes, levando apenas sob as suas formas, que tinham conservado uma grande majestade aristocrática, um saiote de flanela! Apesar, porém, destas violências, a paixão de D. Jacinta, que eu respeitosamente comparo à mulher de Putifar ou às Fedras da lenda antiga, trazia-a de novo, submissa e amorosa, à casa comum e ao leito conjugal, até que um dia, (e aqui textualmente copio uma carta, existente no arquivo da família e escrita por Segismundo de Noronha, irmão da dama espancada): «...a sova foi tão forte, que vimos a mana Jacinta entrar-nos pelo portão da casa em camisa e tendo nos ombros nódoas tão roxas e dilatadas, que o padre Simões, o nosso bom capelão, as comparou, com o devido respeito, às nódoas roxas nos ombros do Redentor depois de 12 horas de Via Dolorosa».

A família Noronha exigiu uma reparação. D. Jacinta veio viver com seus irmãos, e cinco meses depois deu à luz um menino que, por se julgar que não sobreviveria, foi à pressa baptizado pelo capelão Simões, com o nome poético de Florido. Sobreviveu, porém, felizmente. E aqui encontro um facto que, por respeito às duas famílias Abranhos e Noronhas, não cerco de comentários; é ele igualmente justificável e condenável. Biógrafos irreverentes e temerários poderiam talvez emitir uma opinião nítida, cortante, definitiva: eu abstenho-me, e assim deve fazer todo o historiador honesto, sempre que se trate de factos em que duas famílias, ambas ilustres, ambas históricas, tenham um conflito de interesses: a ordem social repousa nestas respeitosas reticências.

O facto é este na sua nudez histórica: o menino Floridozinho foi lançado à roda.

Um irmão, porém – e aqui dou amplamente saída ao meu desejo de glorificar os Abranhos – um irmão, porém, de Apolo (que Apolo a esse tempo desaparecera de Amarante) reclamou Florido, adoptou-o, educou-o, e foi recompensado desta nobre dedicação, porque Florido Abranhos foi um espelho de virtudes e uma flor de honradez. É talvez aqui a ocasião de destruir outro erro que tende a introduzir-se na História: o irmão de Apolo, tio de Florido, sem estar decerto numa alta situação social, não era todavia, como perfidamente insinuou em tempos a Gazeta de Portugal, um padeiro. Como dizia o Conde com grande elevação moral, estas pesquisas miúdas, mesquinhas, na intimidade familiar de um homem de Estado, são singularmente odiosas.

Florido, que pelo lado materno era um Noronha, casou em Penafiel, e a sua vida teve a tranquilidade límpida de um belo rio de águas claras que corre entre margens de serenidade idílica. Viveu, amou, trabalhou...

Et sa vieillesse fut comme le soir d'un beau jour...

Teve dois filhos – uma menina que herdou a beleza de seu avô Apoio, e um rapaz.7 que foi António Abranhos, o pai feliz que na noite de Natal de 1826, diante da pompa do Menino Jesus no seu presépio iluminado, apertou nos braços o seu filho único – Alípio Severo de Noronha Abranhos, futuro Conde d'Abranhos.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...23456...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →