Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Isso é que eu não quero saber enquanto sua senhora se não queixar de que foi lograda fraudulantamente – emendou o administrador do bairro. – Já disse a vossa senhoria que esta repartição judiciária não é confessionário, nem entende com a moralidade dos atos domésticos, entre casados, enquanto eles se não queixam competentemente. Da minha competência é saber como hei de enviar esta mulher ao juízo criminal. Ela teima que roubou os brilhantes; a esposa de vossa senhoria declara que os mandou vender. O meu juízo está feito; mas...
― Então qual é o juízo do Sr. Administrador? – interrompeu o queixoso. ― É o juízo do Sr. Fialho.
― O meu?!
― Sim: o senhor diz que foi sua esposa quem mandou esta ou outra mulher vender as pedras; eu digo o mesmo.
― Mas quem me há de a mim dizer o caminho que levou o dinheiro? Um conto seiscentos e...
― Sua senhora, se quiser.
― Mas esta mulher sabe-o.
― Vossemecê sabe-o, mulher? - perguntou a autoridade sorrindo.
― O quê, meu senhor?
― Sabe o que aquele senhor deseja saber?
― Sabes a quem tua ama dava o dinheiro dos brilhantes? – perguntou o amo com estrondosos berros.
― Que brilhantes?
― Os brilhantes que ela te mandava vender.
― Não me mandou vender nada.
― Então roubaste-los tu?
― Sim, senhor.
Hermenegildo sobrepôs os braços um no outro, transversalmente apoiados no estômago, e começou a dar com eles de modo que tiravam um som de timpanites das cavernas subjacentes.
― Já viram pouca vergonha deste feitio? – gritava ele. – Veja vossa senhora se isto não é para endoudecer um homem!
E, levantando-se com prodigiosa rapidez, exclamou:
― Vou consultar, os meus amigos sobre o que devo fazer; vossa senhoria faça a sua obrigação. O negócio é muito sério. Hei de sair com honra desta tramóia. Sou um homem de bem. Quem quiser saber quem é Hermenegildo Fialho Barrosas, pergunte-o aí na praça do comércio do Porto.
― Sei que é honrado capitalista, Sr. Fialho! Quem lhe nega as suas excelentes qualidades?
― Vossa senhoria parece que está disposto a favor dos criminosos! – retorquiu o ricaço, esbofeteando uma mosca na testa.
― Quem são aqui os criminosos?
― Não sei! Não entendo esta balbúrdia!
Sua senhora diz que mandara vender os brilhantes. Quer que ela seja enviada ao juízo criminal com o labéu de ladra? – volveu o administrador agastado.
― Não quero isso! Quero saber quem recebeu o dinheiro.
― Não posso esclarecê-lo.
― O dinheiro gastei-o eu – repetiu Vitorina.
― É o que vamos ver.
Disse, e tangeu de novo a campainha o funcionário, mandando o oficial que intimasse a Sr.ª D. Ângela a comparecer na administração.
― que vem ela cá fazer?! – exclamou Vitorina com aflição. – Minha ama não tem que fazer nesta casa! ― Cá se avenham! – disse o brasileiro, e saiu em cata dos seus amigos.
III RETRATOS DO NATURAL
Os amigos do Sr. Fialho, àquela hora, estavam em grupo na calçada dos Clérigos, à porta do imaculado capitalista.
Hermenegildo chamou-os à sala do primeiro andar daquele prestante amigo dos brasileiros, e falou deste teor:
― Meus amigos velhos! Srs. Atanásio José da Silva, Pantaleão Mendes Guimarães e Joaquim Antônio Bernardo!...
Interrompa-se a apóstrofe, e desenhemos as proeminências morais características destes sujeitos invocados a conferir e alvidrar num pleito de honra.
O Sr. Atanásio tem quarenta e oito anos, é capitalista, casado, sócio que foi de molhados com o Sr. Fialho, bom vizinho, cidadão pacífico, e aos costumes disse nada. Porém, o povo reza que ele, apanhando em flagrante a esposa numa excursão filarmônica às esferas sonorosas com um caixeiro, tão duro e miúdo tocara o compasso no caixeiro com a batuta de uma tranca, que o rapaz expulso a coices chegou à terra natal e expirou oito dias depois, contando o segredo a sua família.
A esposa de Atanásio, depois de encerrar-se quinze dias no seu quarto, viu abrir-se a porta à força, fez o ato de contrição para morrer cristãmente, e ia expirar de pavor, quando o marido lhe abriu os braços e disse: “Estás perdoada; mas, se fazes outra, escavaco-te”. Desde então o porte desta senhora reduz as Fúlvias e Marcelas a condições indignas dos gabos históricos. Pecadora que passe por ela é visão que a enjoa e adoenta. As filhas, quando a escutam discretar em virtudes, cuidam que sua mãe é uma mulher da Bíblia.
Quanto a probidade mercantil, Atanásio José da Silva é contrabandista, e, algum tempo, ia mensalmente à estalagem da Ponta-da-Pedra, em três carruagens de recreio, com sua família e as famílias dos dois amigos presentes, receber cortes de seda, cambraias, rendas e pelames ingleses. Conforme à justiça e às manhas do Porto, a firma de Atanásio é das mais acreditadas na praça, e as gazetas, quando escrevem Atanásio José da Silva, antepõem-lhe ao nome os adjetivos honrado e probo; e, se acontece ir para Caldas ou praias com a mulher, vai sempre o “honrado capitalista com sua virtuosa esposa”.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.