Por Coelho Neto (1898)
Que vades bem e que vos não seja infausta a expedição. Já me não é dado contar com o tempo para que diga que vos esperarei até que a anciedade seja tanta que a minha esperança se torne em desalento e eu volte para o céu os olhos tirando-os dos horizontes. Que vades bem! Se algum de vós houvesse andado em Tanger não haveria tanto prazer n'essa sortida mas, do que houve, apenas conheceis o que dizem que é bem pouco á vista do que foi; ereis todos bem meninos quando esse lucto envolveu o reino que se lavou em lagrimas. Que vades bem! A vossa cubiça é o piloto, nem outra bússola vos leva senão a sede de ouro. Ides para a conquista como nós outros fomos, Como se nos não bastasse a terra que temos onde ha tanta charneca e abrutella ahi vão gananciosamente as naus de conquista á busca de mais terreno e do ouro que faz maior a miseria. Que vades bem! Se o estomago tem o necessario para que haveis de querer empanturral-o ? contentai-vos com o que vos basta que o querer mais é de ambiciosos. Que vades bem ! Que vades bem ! »
Uma mulher que passava atirou-lhe uma brôa de milho e o velho, roendo-a, e dando um pedaço ao cão, deixou-se ficar em silencio dizendo apenas, de quando em quando, com um aceno de cabeça, como um propheta que augurasse: «Que vades bem! Que vades bem! »
N'esse ponto do dia os sinos da capella repicaram com mais alacridade e logo correu um murmurio entre os do povo e foram-se as alas alargando porque, á portaria santa, entre os veneraveis freires do convento de Thomar e entre os officiaes da frota, todos com cirios accesos e contrictos, appareceu o valoroso capitão mór da expedição.
Era homem de vulto e de aspecto magestoso, firme como uma torre; a barba farta descia-lhe ao peito que uma couraça luzida forrava e os olhos tinham tanto imperio que só de os ver humilhavam-se quantos os buscavam.
As vozes dos clerigos subiram no silencio, ao sol, entoando a ladainha que o povo acompanhava com devoto acatamento e a procissão lenta, grave, foi descendo á praia pelas hervas de cheiro com que haviam juncado o caminho.
O sino passara dos repiques alegres aos dobres compassados e tristes, e atravez do canto sacro e do farfalhar cadenciado dos passos vagarosos, ouvia-se o pungitivo lamento dos parentes que seguiam os seus naquella hora amarga e contristada do adeus.
Os mesmos homens que alli haviam chegado por simples curiosidade, tocados por tamanha lastima, sentiam-se commovidos. O Gama, emtanto, sem dar mostras de tristeza, antes, d'olhos ao longe, nas suas velas, parecia querer encurtar o espaço que d'ellas o separava para abril-as, quanto antes, e sair n'aquelle vento pondo-se de rumo ao mar.
Já os bateis balouçavam-se junto á lingueta com a guarnição a postos esperando os que deviam seguir para as naus fundeadas em mais agua, ao largo, quando o cortejo parou ajoelhando-se todos os mareantes e os do povo. Então os clerigos cantaram profundamente e o vigario da capella, estendendo as mãos brancas, com os olhos no céu puro, fez, em voz alta, uma confissão geral e aquelles homens de guerra que se iam abarbar com o desconhecido, intrepidos para as luctas a ferro e fogo, curvados, batendo nos peitos com verdadeira e intensissima fé, escutavam as palavras do ministro de Deus que os ia absolvendo para que os não tomasse a morte em culpa no caso de ella sair adiante da Fortuna com a qual todos, por verem o Gama, seguramente contavam.
Finda a ceremonia quizeram todos beijar a mão do sacerdote e, emquanto assim procediam, sempre prosternados, na turba multa mulheres desmaiavam e o pranto corria copioso dos olhos dos que ficavam. Só o velho, na pedra em que jazia, tinha calma de coração para aquelle espectaculo e, quando Vasco da Gama, com um derradeiro e
extremoso olhar á ermida, avançou para o batei que o devia conduzir, o velho acenou lentamente com a mão encarquilhada despedindo-se:— « Que vades bem! Que vades bem!» E os sinos repi-caram em festa como se já saudassem um triumpho.
Os remos afundaram n'agua e, um a um, foram-se todos os bateis em demanda das naus que arfavam, douradas pelos raios do sol. O povo, sem arredar se do Restello, queria ver a partida. Ao refrescar da tarde quando os rouxinóes saíam da espessura cedendo o lugar ás cotovias, foram-se os pannos abrindo.
As naus balouçavam-se brandamente, arfando; as proas, de manso, abriam as aguas lustrosas, depois, n'uma lufada, tufaram-se as velas mostrando os grandes cruzeiros que n'ellas iam estampados, desfraldaram-se as bandeiras arvoradas, soaram vibrantes charamellas mas, a um tempo, em todas, largaram-se cutellos e varredouras e, rio abaixo, com a brisa propicia, foram singrando as naus fugindo á Patria para engrandecel-a e honral-a. O povo se foi dispersando porque o rio ficou solitario e o velho, com o seu cão, deixou-se estar, d'olhos perdidos e, só então, em soledade e silencio, uma lagrima molhou a sua face rugosa. E a lua grande, subindo, estendeu um alvo clarão sobre a cidade quieta.
MONTANDO O CABO
III
Já a vista pouco e pouco se desterra
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.