Por Coelho Neto (1897)
- Chega-te à sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarca. Ela obedeceu. Mas o sol zombava da misericórdia do amor e Maria continha as lágrimas, calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo que o esposo sofresse com o seu sofrimento.
O sol subia, aumentava o calor e o ânimo da Virgem desfalecia quando uma nuvem cresceu acima do monte Ebal. Era escura como os nimbos e apressava-se como impelida por um grande vento. Barulho surdo anunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as saraivadas de verão.
A terra entenebrecia à passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao caminho trilhado pelo casal. O ruído aumentava tornando-se como o escachôo das catadupas. Detiveram-se de dois pálidos, tolhidos de espanto. Súbito Maria sorriu:
- São pombas, disse. Eram, efetivamente, milhares de pombas azuis que, muito juntas, formavam as nuvem escura. Pairavam, ficavam adejando sobre eles, com rumoroso arrulho e o sol quebrava-se-lhes nas asas estendidas.
José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que ele, em êxtase, adorava-a.
Então prosseguiram à sombra do imenso pálio azul e fora da nuvem viva a terra, quente e rútila, ardia e faiscava ao sol.
AO PÔR DO SOL
No céu desbotavam, esbatiam-se as cores vivas, o ouro e a púrpura fundiam-se em violeta e, docemente, a melancolia vesperal envolvia a natureza e penetrava as almas. E Maria perguntou? - Por que é mais triste que a noite o breve instante do pôr-do-sol? - Porque é uma agonia, respondeu José. Não é a morte que impressiona, é o morrer.
A luz que vasqueja é como o corpo que estrebucha. A noite é serena , tem a imobilidade do cadáver.
Quantas sombras havia na terra? Tantas quantas são os seres e as coisas que existem. O sol, porque é a vida, discrimina, dá a cada um a sua autonomia para o bem ou para o mal.
O homem tem a sua sombra, como a formiga. A cordilheira escurece uma região e o grão de areia destaca a sua mancha. A noite condensa na mesma sombra todo o universo.
No instante da agonia a lama, como o saltador que recua para ganhar impulso na corrida e formar o pulo, regressa na reminiscência recordando a vida, desde os primevos até a hora suprema.
O crepúsculo que lembra o amanhecer, sem a alegria, é um recuo à madrugada para o salto dentro da noite.
- Aquele clarão que alveja nos montes é o luar. A lua é como uma lâmpada que o sol deixa acesa quando parte. Como a noite é linda! - E purificadora. O sono é um mergulho na eternidade.
- Quando eu era pequenina, mal anoitecia, punha-me a tremer de medo e só depois de rezar conseguia adormecer.
- Porque a fé é uma claridade que desfaz as sombras interiores. O que não crê é como o cego que anda tateando, sempre arriscado a perigos bastando resvalar num talude para precipitar-se no abismo. A fé é como uma lâmpada dos templos: sempre acesa e fulgurando.
O homem de fé anda mais seguro na escuridão do que o incrédulo ao sol. O horizonte do crente é Deus. - Por que bate com mais vigor o coração à noite?
- As águas murmuram mais alto no silêncio? Não, a voz é a mesma, a calma é que isola fazendo-a parecer mais forte. Quando trabalhas à sombra da vinha ouves balar o rebanho? Não, entretanto, à noite, soergues-te do leito à voz lamentosa duma ovelha perdida. O coração parece pulsar com mais ímpeto nas horas de recolhimento.
Nas cavernas profundas as vozes reboam, o estilicídio é uma gota que faz ruído. É essa uma das vantagens da noite – estabelecer o silêncio, a quietude na alma para que a consciência faça o seu ato de contrição. - E as estrelas? Quem as acende no céu? - Aquele mesmo que abre as flores na terra. - Ninguém o vê.
- E o pensamento, quem o vê? Enunciado é um relâmpago, realizado é um esplendor; a sua essência é um gênio, que gera a ordem. O mundo é a realização do pensamento de Deus. As obras efêmeras do mundo são a consubstanciação do pensamento humano. O homem constrói, é o artista. Deus creia, é o Verbo. - E eu? - Tu és Maria, disse o patriarca, afagando-a paternalmente. Iterativas, afinadas vozes murmuraram nos ares concluindo os dizeres do ancião:
... cheia de graça, o Senhor é contigo, Bendita és tu entre as mulheres.
Ela deteve-se assustada e interrogou o esposo, trêmula:
- Que dizes, meu senhor? José, que nada ouvira, respondeu: - Digo que és uma criatura de Deus, como a flor, como a estrela. Os chacais latiam no deserto ao doce clarão da lua.
A TENTAÇÃO
Numerosa estropeada de inúmeros corcéis atroou o silêncio; tubas clangoraram e, repentinamente, como passassem entre duas alcantiladas penhas, que o luar vestia d’alvo, viram altos pilonos de basalto, sarapintados de hieróglifos, ante os quais esfinges monstruosas, deitadas sobre estelas negras, leivadas de sanguíneo, com os bicos dos rijos peitos incrustados de rubis, cravaram no céu os olhos misteriosos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.