Por Coelho Neto (1890)
— Se tenho alguma queixa?! Da terra, não: dos homens, muitas. Depôs o cachimbo e, miudamente, em narração sentida, recapitulou a sua história de sofrimento e heroísmo. Primeiro no comércio, vida acabrunhadora e rude, toda material. De manhã, à hora dormente d'alva, quando ainda, com a luz dourada que nasce, brilha a pálida estrela, de pé, os olhos mal abertos, lá ia varrer os cantos da casa, espanar o balcão, os móveis e arrumar à porta as amostras. Depois todo um longo dia a servir, entre o tédio dos fregueses e a grosseria dos patrões, ganhando apenas o alimento escasso que parecia ser dado como esmola. À noite, num quarto abafado sobre uma enxerga, com uma candeia lúgubre, enquanto os companheiros, extenuados, roncavam trovejantemente abalando o tabique, entregava-se à furtiva leitura. Lia, lia sem ouvir os sinos da Sé que, no silêncio adormecido, gravemente anunciavam as horas. Lia, mas com que receio, estremecendo ao menor ruído, preparando-se para soprar a candeia a fim de que o não apanhassem em flagrante de tão nefando crime. E os galos cantavam, rompia a manhã. Cerravam-se-lhe, então, as pálpebras. Mas um dos companheiros, que dormira balordamente a noite toda, ia arrancá-lo ao leito impelindo-o para a vassoura com o pulso acostumado às arrobas dos fardos.
— Eh! Molenga! Quem sabe se temos aqui um filho de morgado!
Só aos domingos dava um pulo à casa e, com o rosto no colo maternal, soluçava, sentindo uns dedos brandos e carinhosos andarem-lhe pelos cabelos e, de vez em quando, um beijo na fronte. Mas quando os lábios fugiam, no ponto em que soara o beijo, lágrimas ficavam.
Mas quis Deus que o livrassem do tormento — lá foi aos estudos e, à medida que no Liceu escutava a palavra lenta de Sotero, o mestre amigo que sabia de cor Horácio, Ovídio e Virgílio, no atelier de um artista passava as horas de folga familiarizando-se com o desenho: estirando as primeiras linhas, contornando imagens, debuxando academias, entre esboços de telas, estudos, manchas, até que, um dia o mestre, dando-lhe tintas, uma tela nova e liberdade, escancarou a porta larga do atelier que abria para um terreno amplo, mostrou-lhe a Natureza, a esplêndida e viva Natureza na sua agitação alegre, num esplendor de cores, numa harmonia de sons e disse-lhe: trabalha! Foi nesse dia de deslumbramento que ele sentiu no coração o surto artístico. Era a vida. Trabalha!
E, maravilhado, dilatando os olhos e lançando-os livremente pelas aveludadas relvas, pelas frondosas copas do arvoredo, pelas águas claras que fugiam e pelo céu alto, magnífico, de um azul forte, sem mancha de nuvem, tomou dos pincéis e, febrilmente, com enlevo, foi transportando a Natureza, tal qual a via ao ar livre, sem sentir o ardor cáustico do sol que lhe dourava a cabeça ardente. De quando em quando ouvia a voz animadora e simpática do velho mestre: "Trabalha!"
Ele não precisava que lhe dissessem — era com ânsia que ali estava, possuído, num delírio, como se receasse que a tarde viesse rápida e apagasse aquelas cores admiráveis que eram as galas da terra e as maravilhas do espaço. Ainda uma vez, porém, a sorte foi-lhe ingrata e adversa. Uma manhã, desolada manhã!
Os sinos dobraram de espaço a espaço, lúgubres, e, rápida, correu a notícia da morte do pintor.
Tinha em tão alta consideração o mestre que não se contentou com os ofícios fúnebres que celebraram em duas ou três igrejas, com órgão, mas, culturalmente, porque lhe faltava quem, com resignação, se prestasse a ser vitimado com um golpe de faca, à maneira gaulesa, sobre a laje branca e fria do túmulo do artista, tomou dum metro de tela e, rebuscando na história do mundo um episódio que lhe fornecesse farta mortalha, achou a revolução francesa que, prodigamente, lhe cedeu a hóstia desejada.
Pôs-se então a pintar com abundância de vermelhão da China. Escolheu uma rua da velha Paris, apertada e sombria. As casas, altas, de quatro e cinco andares, desaparecem sob o acúmulo de mortos, porque há cadáveres até ao alto das goteiras. Aqui, os pés de um patriota; ali, a cabeça de uma criança; além o ventre estripado de uma mulher; e, saindo da hecatombe, hirto como um fueiro, o braço de uma das vítimas ameaçando a tirania. O fundo do quadro ablativo, de perspectiva trágica, é um coágulo de sangue, expressão, em rubro, do anunciado jour de gloire.
O quadro tem gênio, o que o mata é o zarcão hemorrágico. É um necrotério. O autor tinha vinte anos e, nessa idade, quem faz questão de mais ou de menos mortos? Ele queria o grandioso e atirou à tela toda a população da França espatifada, a população da França e gente das colônias, porque há lá um pé, certamente da Martinica, muito em destaque no sarapatel heróico.
Exposto o quadro foi tão grande o espanto que a cidade ficou deserta como um cemitério e os mortos foram transferidos para o gabinete do artista, onde esperam o juízo final.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.