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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

À entrada do beco estreito, de que temos falado ao leitor, o nosso personagem parou. Espiou. A porta dos velhos estava fechada. Naquela ocasião, ninguém havia pelo sítio; o beco estava escuríssimo. A luz das janelas iluminadas não descia até o chão. Pavia meteu-se no beco e foi cautelosamente colocar-se à porta da morada dos velhos.

Escutou à fechadura. Na casa, não havia rumor notável. Percebia-se apenas um sussuro afastado de vozes e certo barulho de talheres.

— Estão ceando ainda — disse Pavia a meia-voz.

Algum tempo passou. Fez-se então no interior da casa o ruído de cadeiras arrastadas e de pessoas caminhando.

— Levantaram-se da mesa — murmurou Pavia.

Ao ruído, seguiu-se o mais completo silêncio. Uma claridade brilhou no buraco da fechadura, denunciando que alguém acendera luz na sala.

— O homem não se esqueceu... Não deve tardar em abrir a porta.

Enquanto assim pensava o nosso Pavia, sentiu-se como que um mover de ferrolhos pela parte inferior da porta. E a porta abriu-se.

CAPÍTULO III

Entre os portais desenhou-se a figura encarquilhada do velho que o leitor conhece, arrimado ao seu bastão, como uma ruína à sua escora.

— Já está por aqui? — exclamou ele.

— Já aqui estou, sr. Januário... Não sou sujeito de faltar às horas, nem aos compromissos...

— Entre, entre, sr. Pavia...

Pavia entrou e, amparando o velho, foi com ele tomar lugar num sofá decrépito, que espreguiçava a sua idade e as suas palhas arrebentadas ao longo de uma das paredes da sala.

Pavia rompeu a conversa:

— Estamos bem aqui?...

O velho compreendeu.

— Estamos - disse. — A família toda está-se acomodando lá fora para os fundos... Foram deitar-se... Eu, que durmo aí nessa alcova próxima, posso ficar na sala sem causar-lhes estranheza... Podemos conversar... Um pouco baixinho... por prudência...

— Diga-me... o que conseguiu?

— Tudo.

— Então ela vai?

— Está morta por ir...

— Bem lhe disse eu que, quando você falasse na amizade de Claudina e em passar alguns dias com a minha mulher, ela não se recusaria...

— Ah! os planos do sr. Pavia são sempre bem feitos... — A Conceição di-lo-á daqui a dias...

O vento da noite barafustava pela porta e lambia as paredes da sala, fazendo estalitar alegremente as flâmulas de papel pendentes. O fogo da vela que clareava o lugar, agitava-se impaciente ao redor do pavio, dando uma luz incerta...

— A menina — continuava Pavia — vai ser recebida na palma das mãos; vai dormir num gabinete azul, todo cheio de cortinas transparentes, no meio de perfumes que provocam sonhos... Ao amanhecer, será visitada por minha mulher ou minha filha... Será vestida como uma boneca, penteada como uma rainha... Sairá a passeio e tal... E o fim há de chegar insensivelmente...

— Uma pergunta... se não é ousadia... — disse receosamente Januário — mas o senhor desculpará... Sabe que eu quero bem à minha afilhada...

— O que deseja saber?...

— O sr. duque...

— Que tem o sr. duque?

— É... é...

— É o quê?...

— ... muito violento...

— Pelo contrário, é macio como pelica... É um pouco ardente talvez, mas isso é quando já não há necessidade do contrário... O homem sabe insinuar-se.

— Olha que a Conceição é viva como cobra... e ele...

— Não se arreceie... ninguém resiste facilmente ao sr. duque... Ele tem um olhar que penetra e imobiliza... Não fala muito... Fitando, ele faz mais do que falando... As crianças são tímidas em geral... E a Conceiçãozinha é um pouco criança ainda...

— Bem... eu faço o negócio com o senhor... não sei se é coisa limpa... mas desde que à menina não resulte mal...

— Deixa de partes, meu velho... vamos concluindo a coisa... Aqui tem o cobre...

O vento continuava a penetrar na sala, e as flâmulas de papel riam com risadinhas de Mefistófeles.

Januário estendeu a mão magra, comprida, branca, trêmula, e recebeu um embrulho de papel que Pavia apresentou-lhe. Não disse palavra. Misturou apenas aos sulcos que os anos lhe haviam aberto na face as contrações de um sorriso baixo.

— Veja se amanhã mesmo faz a Conceição aparecer por lá...

— Já estava convencionado com ela... Há de ir...

— Apesar de tudo?...

— Apesar de coisa nenhuma... Quando conversamos, outro dia, sobre este negócio, eu disse ao senhor que não havia obstáculo...

— Talvez haja...

— Que obstáculo?... Não vejo...

— A sua nora...

— Ah! ah! Aquela idiota?!

— Idiota?!... Você é muito velho, não é muito vivo... Não sabe quem é aquela santinha de cara chupada e olhos de irmã de caridade.

— Eu sei que ela tem seu gênio; mas não usa dele... No tempo do marido, ela às vezes tinha seus arrebatamentos... Depois, tornou-se completamente mansa. Aquele ar tristonho, que cobre-lhe a fisionomia desde o casamento de meu filho, isto é, desde que eu a conheço, não se modifica mais com as iras que lhe conheci há tempos... Atualmente está branda, branda como uma idiota...

— Mau sinal...

— Por quê?...

— Tenho medo das mulheres tristes...

— Qual! a minha nora é mais idiota do que triste...

— Portanto a menina não falta...

— Não falta. O sr. duque não terá o desgosto de ver perdida uma esperança do seu coração...

— Seria a primeira...

(continua...)

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