Por Lima Barreto (1909)
E o monstruoso redator desandou dizendo asneiras. Eu estava ali de colarinho sujo, esfomeado, mas tive ímpeto de discutir e de quebrar a cara dos idiotas que o ouviam. Entre eles, havia alguns a quem cabia bem a carapuça, mas que se calaram cobardemente. Queria perguntar-lhe se aqueles seus artigos acacianos, cheirando ainda muito à brochura francesa de dois mil e quinhentos se podiam pôr a par dos trabalhos do Tito Lívio, do Tobias Barreto; eu queria perguntar-lhe se a sua genialidade no artiguete seria capaz de aparecer se tivesse nascido nas condições desfavoráveis do Caldas Barbosa, do José Maurício, do Silva Alvarenga e outros!
E não sei que movimento fiz na cadeira, sopitando a vontade de falar, que o Megatherium notou e perguntou-me:
— Que é que o senhor deseja?
— Falar ao doutor Gregoróvitch.
— Oliveira, o Gregoróvitch quando vem?
— Às oito horas.
— Você, meu filho, tem muito que esperar, disse ele com doçura. São sete e um quarto ainda.
— Esperarei, disse eu.
E eles recomeçaram a conversar sobre outro assunto e vieram a cessar instantaneamente quando se ouviram passos na escada. Esperava-se o doutor Loberant, mas entrou o fino, o elegante, o diplomático, o macio Frederico Lourenço do Couto, com a sua linda barba perfumada e o seu grande queixo erguido e atirado para adiante como um aríete de couraçado. Vinha todo perfumado, de olhar lustroso, desprendendo essências, com o peitinho da camisa a brilhar imaculadamente e um grande botão de coral ao centro, rodeado de brilhantes. Trazia o sobretudo debaixo do braço e entrou pisando forte, dando amáveis boas-noites. Vim a conhecê-lo melhor e a minha antipatia não diminuiu; entretanto, hoje, ao recordar-me com que sombria energia ele pôs fim ao seu desespero, ao ver diante de meus olhos a imagem do seu cadáver com aquela fraca cabecinha estourada por uma bala, tenho uma grande e imensa pena e lastimo que a minha total ignorância das coisas da Igreja não me permita rezar uma oração em favor de sua alma. Era o Floc, pseudônimo com que assinava os seus artigos, os artigos de três tiras, ligeiros e originais, em que, na máxima parte, ele contava uma linda anedota literária donde concluía as suas substanciosas opiniões.
Na redação, era conhecido e respeitado como entendido em literatura e coisas internacionais. Ele e o Lobo, o consultor gramatical, eram os dois mais altos ápices da intelectualidade do O Globo. Eram os intelectuais, os desinteressados, ficavam fora da ação ordinária daquele exército. Nunca se metiam nas polêmicas, não procuravam escândalos, não escreviam alusões. Eram os estandartes; as águias... Gregoróvitch era a artilharia. Com o seu estilo desconjuntado e a sua violência injuriosa, abria brecha nas linhas adversárias e dizimava-as de longe. Estrangeiro, nada sabendo da nossa história, nem pelo estudo nem a sentindo pelo sangue, a sua critica e o seu ataque tinham uma violência desmedida. Não poupava, não desculpava, não sentia até que ponto o homem era culpado, até que ponto a marcha das coisas fazia o homem culpado. Ligeiramente enfronhado nas causas da política do momento, ele só via diante de si um aspecto do fato, não sentia inconscientemente os outros que se ligavam com o passado que ele não conhecia, nem os outros que o futuro pressentido condicionava. Um brasileiro, educado e criado no meio das tradições, dos usos, dos hábitos, das qualidades, dos defeitos do seu meio, não teria a violência de sua linguagem, a sua força de critica, a brutalidade de seu ataque.
Acharia na sua educação e nos seus costumes desculpa para as faltas dos outros que ele sentia também ser suas. Gregoróvitch que, além de estrangeiro, não tinha pátria ao certo, era incapaz de apanhar relações, explicações, só via faltas, erros, onde havia simplesmente efeitos, resultados, e atirava-se com toda a violência de seu temperamento de aventureiro e condottiere da pena contra aquele reino de incas, de astecas que ele não compreendia. Além dele, havia o Losque e o Lara, homens de espirito, humoristas, espécie de cavalaria, parte viva no ataque e capaz ainda de deitar frechas mortais na retirada. O resto era a infantaria, o grosso do exército, do qual fazia parte o Oliveira, admirando o diretor como um deus e supondo-se extraordinário no seu ofício de repórter; o resignado Meneses, indulgente criatura que naquele ambiente de fatuidade e ignorância era o único simples e o único que estudava; o Rolim, o elegante Rolim, vigorosamente analfabeto, mas lindo como Narciso; o Costa, o Barros, o agente de anúncios que, não contente em auferir vultosas comissões pela publicação deles, ainda lhe pedia a vaidade a ilusão de passar por “homem de pena” nas “partidas” de clubes dançantes e em outras festividades, onde ia sempre representar o jornal e exercer a eloqüência, respondendo aos brindes feitos à folha, assessorado pelo Orador Popular; e, além destes, quantos mais!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.