Por Lima Barreto (1911)
Macieira temia muito que o sucesso presidencial não lhe fosse favorável e dar-se-ia isto se caísse em Xisto. Logo que ela assim se anunciou, ajudou a fazer cautelosas insinuações no ânimo de Bentes e viu com prazer tomar outro curso os acontecimentos. Por isso, tinha no interregno que se seguiu à resignação do presidente grande influência e preponderância.
Era um homem delicado, mas reservado e tinha sempre o aspecto da cogitação profunda Lucrécio entrou-lhe em casa, demorou-se um pouco e voltou logo dizendo que não lhe pudera falar, Voltasse ao dia seguinte, que seria atendido, recebera nesse sentido recado.
A impressão daqueles restos de floresta, a cidade confusa lá embaixo, a montanha roída trouxeram tristeza ao coração do russo, e recordações dolorosas do seu amargo passado. Em presença daquelas altas manifestações da natureza, o seu pensamento era triste. Diante do Atlântico, o mar tenebroso dos navegadores da renascença, quando veio, embora estivesse espelhante que nem um lago, a sua alma se confrangeu.
Ele — que mal conhecia a história daquelas águas e a das terras que banhavam — só se lembrou que estava ali o mar da escravidão moderna, o mar dos negreiros, que assistira durante três séculos o drama de sangue, de opressão e de morte, o sinistro drama do aproveitamento das terras da América pelas gentes da Europa.
Das dores de tantos milhões de seres, das suas agruras, dos seus padecimentos, da sua morte, só aquelas unidas e mudas águas guardavam memória, e só elas evocavam o drama de que foram palco.
Lucrécio, julgando o companheiro triste com o resultado da expedição tratou de consolá-lo.
— Ele dá o “pistolão”... Não há dúvida!... Não se incomode!...
Bogoloff pensava pouco no fim da visita, mas ficou enternecido com o interesse do rapaz:
— Estou certo... Não penso mais nisso.
Lucrécio falou-lhe ao ouvido:
— Ele não estava em casa, Doutor. Ele tem uma francesa... A mulher não disse, mas eu sei... Vou ao Senado logo e as coisas estão arranjadas. Fique certo.
Essa ligação do senador era bem conhecida da cidade e freqüentemente os jornais da oposição faziam claras alusões a ela.
Dizia-se mesmo que a tal francesa tinha um grande ascendente sobe o ânimo de Macieira e influía decisivamente no curso dos vastos negócios encaminhados nas repartições públicas. Os homens de concessão, os agentes de casas poderosas sabiam dessa influência da “francesa” e tratavam de obter as suas boas graças mediante porcentagens grandiosas. Fuas Bandeiras conhecia-a, fazialhe ofertas de valor e contava-se que Campelo sempre a interessava nos seus reconhecimentos mal sucedidos.
Murmuravam nas confeitarias uma curiosa história de que a “francesa” fora eixo. Já vivia em “collage” com Macieira, nesse tempo deputado, fraco de recursos, mal podendo sustentar as duas casas com o subsídio. O seu fraco era jogar pôquer e, nas rodas de pôquer, conhecera Fuas Bandeira, com quem travara amizade. Os dois aos poucos, firmaram relações solidamente e jogavam clandestinamente de parceirada. Um belo dia, o amigo dissera-lhe:
— Sabe de uma coisa? O Francisco tirou a sorte grande, quinhentos contos.
— Não o conheço.
— É um rapaz inteligente, mas pouco prático... Tem que cair...
— Vai perder tudo?
— Vai, e é pena que não aproveitemos algum... Se houvesse um meio...
— Isso é bom para as mulheres, que vão aproveitar.
— Para elas só, não vão. Os outros malandros entram... Há um meio...
— Qual é?
— Não vives com a Arlete? — perguntou Fuas.
— Que tem?
— Tira-a da pensão. Alugamos uma casa mobiliada e levamos o Francisco para jogar pôquer.
— Que pode ele perder?
— Tudo, se quisermos.
— Se ele quiser namorar a Arlete?
— Deixa, e mesmo isso entra no plano.
— Ele descobre.
— Qual! Não tem prática dessas coisas e confia em todos.
A coisa assim foi feita. Alugaram uma casa mobiliada luxuosamente. Arlete figurou como amante de um terceiro sócio e o ingênuo perdeu no jogo bem a metade da sorte grande, enquanto bebia o olhar da francesa. O lucro foi distribuído proporcionalmente com todo o rigor comercial.
Macieira prosperou e foi fazendo a sua carreira na política e nos arredores da política: gorjetas em concessões, advocacias duvidosas e o mais semelhante.
Essa pequena anedota poucos conhecem, mas a sua ligação era quase pública.
Arlete ficou na vida do senador como um amuleto de felicidade; e a família a teve do mesmo modo, conformando-se a mulher com a existência da francesa nos hábitos do marido.
Macieira era insinuante, jeitoso, tenaz e prestativo e, com a patrulha avançada de Arlete, conseguia tirar da política o que esta não devia dar.
O caso da venda da Estrada de Ferro interessava à francesa, mas Macieira que pedira votos não dava a transparecer nenhum interesse. De resto, havia tantos empenhados no caso que não valia a pena gastar energia. Arlete, porém, não pensava do mesmo modo e não cessava, com o auxílio de Fuas Bandeiras, de trabalhar para que o Brasil se educasse na iniciativa particular, como dizia o jornalista.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.