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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Não pode, repetiu pensativo. Vou ver um homem que entenda de plantas, até porque pretendo ter as minhas orquídeas e os meus tinhorões de escolha. Não podemos dispensar o jardineiro Vou ver também se arranjo um cão das ilhas, são os melhores para os quintais: não há ladrão que lhes escape. Tive um que, certa noite, tendo um patife penetrado em minha casa, quando foi para saltar o muro, o animal atirou-se-lhe às pernas.

— E matou-o!? — perguntou Anselmo.

— Não, mas pregou-lhe um susto que o desgraçado esteve muito tempo entre a vida e a morte.

— Quem te disse?

— Ninguém, eu imagino. Era um cão! Vou ver se encontro um igual para aqui. Para o galinheiro uma meia dúzia de galinhas de raça, uns gansos de Tolosa ou de Emdben, uns patos mandarins, uns perus. Para o aviário mando vir aves do Norte: mutuns, guarás, garças, jacamins; não, jacamins para o galinheiro. À tarde vem a gente aqui para fora no seu paletó branco saborear o café, ouvindo os gaturamos e as patativas, os gansos, os galos e gozando o perfume das flores. Que tal?

— É magnífico!

— E podem vocês trabalhar à vontade. Aqui nada falta: têm, de um lado Santa Teresa e do outro lado o esplêndido panorama da cidade. Não é aquela rua acanhada e sórdida, com aquele silvar constante de locomotivas e com aquela mulher sempre a rezingar e aqueles quintais imundos e aquela gente tresandando a suor e a cachaça, nada disso. Aqui a vizinhança é nobre, gente da élite. Vocês podem julgar pelas casas — e ajuntou com mistério: Já que toquei neste ponto, devo dizer que a moralidade aqui deve ser escrupulosamente observada: nada de escândalos, isto é um bairro de respeito.

— Vê-se logo.

— Bem, vamos agora lá acima.

Tornaram pelo mesmo caminho e, atravessando a sala de jantar e o corredor, subiram por uma larga escada iluminada por uma clarabóia, alcançando o pavimento superior. Não eram quartos, eram salões e todos com janelas. O da frente, que tinha o teto de estuque e dourado, abria para a sacada as suas quatro janelas. O soalho encerado, reluzia. Eram oito quartos, oito imensidades admiráveis e dois salões. Ruy Vaz chegou a aventurar que não seria mau estabelecer-se ali dentro uma linha de bondes para facilidade da comunicação entre os aposentos, um elevador para a ascensão e um telefone para uso interno. Era o infinito. Crebillon, modesto, escolheu o menor quarto, ao fundo, com duas janelas para o jardim e larga vista da montanha e de grande parte da cidade e do mar, muito azul coalhado de barcos, sem falar nos fundos das casas vizinhas: jardins, terraços e janelas que deixavam entrever interiores faustosos — câmaras, gabinetes, salas de jantar. Foi nesse aposento que se decidiu fazer a mudança no dia seguinte, mas logo surgiu uma dificuldade: não havia dinheiro para as carroças.

— Eu mando as andorinhas, disse o generoso Crebillon. Quantas?

— Uma e meia.

— Uma e meia? Duas, homem; duas andorinhas. Que mais?

— Mais nada.

— E vocês já escolheram os aposentos?

— Já. Anselmo e Ruy Vaz haviam tomado, para trabalhar, a sala da frente do pavimento superior e dois quartos incomensuráveis. Toledo ficou com a sala central e um quarto contíguo.

— Mas, com o que temos, esta casa vai ficar como um deserto com pequeninos oásis, disse Ruy Vaz.

— Ó senhores! — exclamou Crebillon, não se incomodem com a casa. Pois eu não disse que vou escolher a mobília? Então! Até não sei se seria melhor que vocês vendessem os cacarecos. Em todo caso eu trato primeiro lá de baixo: sala de visitas, sala de jantar, vestíbulo, os dois quartos, depois subo. Vão ver como isto fica um brinco. Que é do João de Deus? Ó João de Deus!

O discreto africano estava no corredor e tanto que ouviu o berro do abolicionista correu com a toalha inseparável, que era o travesseiro em que repousava a cabeça, a rodilha com que saía ao ganho e o lenço com que enxugava o suor abundante do seu carão de azeviche.

— João, veja hoje mesmo o boné e o avental, porque amanhã começa o seu trabalho. Vou mandar vir a bateria da cozinha e a louça. E olhe lá! Nada de assobios aqui, ouviu?

— Sim, senhor, murmurou o negro, de olhos baixos.

— Estamos então combinados; amanhã, não é verdade?

— Sim, amanhã!

— Mandas as andorinhas? — perguntou Ruy Vaz.

— Está visto: duas?

— Duas.

— E quanto ao senhor João de Deus fica conosco por... Pensou, alisando a pêra, com os olhos nos bicos dos sapatos, erguendo altivamente a cabeça fulva, ajustou: sessenta mil réis, que dizes?

O negro encolheu os ombros e Ruy Vaz, afagando-o, disse:

— É um achado, meu amigo. Nos tempos que correm, sessenta mil réis, casa e comida... uh!

— E podes escolher um quarto lá em baixo, João. Tens um magnífico, perto da sala de jantar. Queres?

O negro sorriu enlevado.

— Bem, estamos tratados. Vamos.

Desceram. Crebillon trancou as portas e ganharam a rua. Havia gente pelas janelas das casas vizinhas e Crebillon, ufano, repetiu, acendendo um charuto:

— Vai ficar um brinco, garanto.

(continua...)

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