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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

A amizade do Bento Alves por mim, e a que nutri por ele, me faz pensar que, mesmo sem o caráter de abatimento que tanto indignava ao Rebelo, certa efeminação pode existir como um período de constituição moral. Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse animo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse dele os meus olhos. A primeira vez que me deu um presente, gracioso livro de educação, retirou-se corado, como quem foge. Aquela timidez, em vez de alertar, enternecia-me, a mim que aliás devia estar prevenido contra escaldos de água fria. interessante é que vago elemento de materialidade havia nesta afeição de criança, tal qual se nota em amor, prazer do contato fortuito, de um aperto de mãos, da emanação da roupa, como se absorvêssemos um pouco do objeto simpático.

Na biblioteca, Bento Alves escolhia-me as obras: imaginava as que me podiam interessar; e propunha a compra, ou as comprava e oferecia ao Grêmio, para dispensar-se de mas dar diretamente. No recreio não andávamos juntos; mas eu via de longe o amigo, atento, seguindo-me o seu olhar como um cão de guarda.

Soube depois que ameaçava torcer o pescoço a quem pensasse apenas em me ofender; seu irmão adotivo! confirmava.

Eu, que desde muito assumira entre os colegas um belo ar de impávida altania, modificava-me com o amigo, e me sentia bem na submissão voluntária, como se fosse artificial a bravura, à maneira da conhecida petulância feminina.

A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo de represália do Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicência, digna deles.

Às vezes na biblioteca, enquanto eu lia, Alves olhava-me do outro lado da mesa central de pano verde, com a mão à fronte e os dedos mergulhados nos cabelos. Olhava-me e eu o sentia sem levantar a vista, compreendendo no mais fino refolho de ninada vaidade que aquela contemplação traduzia o horror do ridículo, proverbial em Bento Alves, manietando-lhe rijamente uma demonstração efusiva. Não fosse a critica uma criatura do tempo, eu poderia achar cômica a situação dos personagens desta cena de platonismo. Não havendo a critica para falsear a psicologia por desdobramento, limitava-me a ser sincero, como o pobre amigo. Às vezes vinha-lhe a pálpebra uma lágrima sem origem.

No movimento geral da existência do internato, desvelava-se caprichosamente; sabia ser, de modo inexprimível, fraternal, paternal, quase digo amante, tanta era a minudência dos seus cuidados. Não havia regalo, dessas mesquinhas coisas de preço enorme na carestia perpétua da prisão escolar, de que se não privasse o Alves, em meu proveito, desesperando-se, a fazer pena, se eu tentava recusar. À conversa, falava da família no Rio Grande do Sul; tinha duas irmãs; falava delas, do tempo passado que não as via, muito claras, de belos olhos, uma de quinze anos, outra de doze; ele tinha dezoito. Falava de cuidados higiênicos meus, mudar de cama no salão azul, que estava muito perto das janelas, e isto havia de ser nocivo... Outras ninharias, em tom de sentida brandura, como se desejasse decrescer das proporções sólidas de sua conformação para reduzir-se à exigüidade balbuciante de uma carcaçazinha de avó, minguada de velhice, animada, ainda e apenas, pela febre do último alento, pela necessidade de carregar ainda alguns dias um coração, um afeto.

Os estatutos do Grêmio marcavam duas ocasiões de solenidades: as festas anuais de abertura e do encerramento dos trabalhos. Além destas, as sessões comemorativas que a casa resolvesse.

Para as festas literárias, levava-se ao pavilhão do recreio um grande estrado, três mesas que se alinhavam para a diretoria, sob um rico pano cor de vinho, de ramagens negras que lembravam tinteiros entornados de mau agouro, e uma tribuna familiarmente apelidada caranguejola.

Esta caranguejola, enorme e pesada, que parecia protestar, a cada solavanco, contra o caráter de móvel que lhe queriam à força impingir, fazia figura em todas as salas do Ateneu, conforme as exigências da retórica. Localizada a conferência, a preleção, a prática solene, abalava-se a mísera e punha-se em caminho, aos encontrões, seguindo o fadário de mostrador ambulante de eloqüência. Nestas circunstâncias não era uma simples tribuna, era um verdadeiro prognóstico. Em se movendo a caranguejola, discurseira iminente. Teve um dia de razoável orgulho: dela serviu-se no Ateneu o Professor Hartt, para uma conferência de antropologia.

Quando a vimos andar um dia e soubemos que aquilo significava a instalação do Amor ao Saber, congregou-se o Ateneu, unificado no mesmo impulso de entusiasmo, e pela primeira vez a tribuna marchou sem o cerimonial das topadas.

Despedimos os criados. tomamo-la nós aos ombros: levamo-la em ovação.

A festa inaugural esteve animada. Mais do que se esperava, infelizmente.

(continua...)

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