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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Eu ainda ontem não pensava como agora. Começava a penetrar a verdade, ao passo que a desventura penetrava-me o peito. Ainda não chegara o período agudo da minha crise de sofrimento. Hoje tudo está passado.

O desabamento não esmagou-me, porque eu tinha vinhos em casa. Salvaram-me, acredita!

O ensaio da prática deu-me a convicção da teoria. Todo o convencido é um apóstolo. Dizendote o que penso, desabafo.

É por isso que vazo neste papel a minha alma e confio-ta.

A sorte provou-me que a parreira que dá-nos a folha para as vergonhas, dá-nos o cacho para as dores.

Foi há um mês. Não terminara ainda o período despótico em que se é obrigado a fazer espetáculo das próprias mágoas. A minha pobre Maria fechara os olhos havia menos de um ano...

Eu perdera completamente o gosto de passear, que tanto me divertia outrora. Vivia encerrado em casa, triste como tiveste ocasião de ver... Mas ainda tinha sorrisos. Eu possuía ainda a minha Ercínia. Restavam-me os seus afagos infantis e a deliciosa tarefa de valer-lhe de mãe. Distraía-me ocupando-me com ardor em prevenir e satisfazer-lhe os inocentes caprichos; vê-la brincar esquecida no jardim apertadinha num princesa branco com uma facha de crepe à cinta; recolher, no mais santo beijo, as lágrimas sentidas que ela misturava à impertinência com que perguntava-me quando mamãe chegaria da viagem... Até este abençoado engano, que tem iludido a tantos órfãos de quatro anos como Ercínia, chegava a se apoderar de mim...

Eu começava a crer no dolo, que inventara... Chorava com a minha Ercínia e iludia-me com ela.

Foi há um mês... por uma esplêndida manhã. Voavam insetos através dos arbustos e andorinhas através do sol. O meu jardim acordava num sossego paradisíaco. O arvoredo encobria a rua. Mal se ouvia o rodar crepitante longínquo de um carro de pão. A casa ficava mergulhada em um ninho verde e silencioso. Via-se tudo a gozar de uma bonança profunda.

Entretanto, eu sentia-me opresso. Chegava à janela e recuava. Era repulsiva a alegria daquela natureza.

Nessa manhã, Ercinia não quisera deixar o leito. Perguntei o que ela tinha. Disse-me que nada. Mas os olhos tinham-lhe uma ternura doentia. Ercínia costumava, ao acordar-se, abrir os olhos para o dia e um sorriso para mim. Nessa manhã, os olhos não se abriram nem o sorriso...

A pobre criança sofria. Por fim saiu da cama. Agasalhei-a. Levei-a ao jardim. Mostrei-lhe o sol, as andorinhas, as flores... Sempre triste.

Trouxe-a então para dentro. Ela pediu a cama...

Ah! meu amigo, chorei muito nesse dia.

Daí em diante a moléstia persistiu atroz. Até... Não posso, não quero falar-te desse mês que foime a página arrancada a algum calendário do inferno. Cada dia passou como um suplício de doze horas, e cada noite como uma tortura de um século. Eu ia perder a razão. Achei o vinho. Estava salvo!

E Ercínia morreu.

Fui um herói. O golpe falseou pela couraça sem derribar-me. Incrível. Quando há muito devera ter morrido, eu permanecia com forças! Ainda me sobrou ânimo para correr ao leito branco fantástico, onde jazia a lívida estatueta que fora a minha Ercínia; tive energia para sugar num beijo sôfrego, intenso, todo o amor de que nutrira aquela carne inocente. E só o resíduo deixei para o túmulo.

Pobre filhinha!...

Assim foi a minha catástrofe. Amor de esposo, amor de pai, tudo rolou como um desabamento.

As catástrofes são os maiores mestres. Não discutem: provam e impõem; têm argumentos de aço e de chumbo, cortam e esmagam. É a dialética dos assassinos. Não há quem se oponha.

A minha catástrofe ensinou-me o recurso que me ficava.

Sou agora um infeliz, porém um infeliz consolado.

Entretanto, meu bom amigo, não deixes de compadecer-te de mim. Ter de consolar-se é por si uma grande desgraça. O náufrago, agarrando-se aos mariscos afiados de um rochedo, não se acha tão bem como se estivesse a brincar sobre moles coxins do levante... A minha consolação toda é acremente dolorosa no íntimo.

Consigo entontecer-me, perturbar-me, fechar ouvidos aos gritos do meu próprio coração...

Consigo escrever estas linhas sacrílegas no dia de hoje...

Mas... sei que aí está na sala, entre velas e rosas, entre a hipocrisia dos homens e a indiferença das flores aquele corpo que é meu e aquelas poucas gotas coaguladas de sangue, que saíram do meu próprio peito!... Sei que vão fechar o caixão onde encerraram a minha Ercínia: sem o meu protesto!... Roubam-me tudo o que me restava de risonho na existência, e eu não reluto.

Despacham para o cemitério toda a minha ventura: conservo-me inerte...

Sinto no peito um vazio: percebo que extraíram-me o coração para sepultá-lo antes de mim.

Ah! ah! É porque estou bêbado! Não é porque seja feliz...

Deixo que o façam!

- Venha! venha a bebedeira! Vinho! vinho!... Ai!... Vinho!...

Levem-me a filha, mas não me deixem sem vinho...

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(continua...)

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