Por Lima Barreto (1911)
Tinha Bogoloff tenção de fazê-lo mas, ainda muito russo, não supunha que o ministro o atendesse sem mais recomendações. Respondeu com grande convicção que iria. Lucrécio explicou:
— Doutor, não é que o senhor me incomode; mas a época está de aproveitar. Vamos ter uns anos cheios... Uma coisa, Doutor?
— Que é?
— O senhor não entende de medicina?
— Não. Por quê?
— Por nada... É que tenho um serviço de medicina para umas eleições.
— Mas... Que tem as eleições com a medicina?
— É um caso.
— Conta lá.
— O fato é o seguinte: o coronel Liberato, lá do Cambuci, tem que vencer umas eleições, mas os “outros” têm mais votos. Ele precisa fazer um estouro e um doutor era bom para socorrer a gente dele. Ele paga.
— Quanto?
— Um conto de réis. Quer ir?
— Não. Não sou médico, mas se fosse, não iria. Não quero essas atrapalhações...
— Qual atrapalhações, Doutor! Nossa gente está de cima... Se houver morte, ferimento, o processo fica abafado...
A mulher, que ouvira, falou da cozinha:
— Lucrécio, você não toma juízo. Fala assim de morte, como se fosse Nosso Senhor... Agora piores do que vocês, são esses graúdos que dão costas quentes a vocês...
— Qual, mulher, isto é política, um ajuda o outro. Não acha, Doutor?
— É... é... deve ser mesmo política.
— Você vai mesmo atrás da política, que um dia eles te deixam lá na “chácara”... Já disse... Não quero que você meta o Lúcio nessas coisas.
— Você já viu — disse Lucrécio — eu dar mau conselho ao pequeno?
Doutor, na sua terra é assim?
— Bem, assim não é; mas...
— Qual! Todas as terras são iguais.
Seria difícil a Bogoloff explicar ao amigo as diferenças e as semelhanças existentes entre o mecanismo político da Rússia e o do Brasil; uma diferença, porém, logo notou naquela procura de um médico para pleitear eleições de vereadores. Só o mandonismo republicano com a sua concepção estupidamente cruel da política, é que podia lembrar-se de transformar comícios eleitorais em emboscadas de salteadores, com um médico entre eles. Curiosa piedade!
Absteve-se o russo de fazer qualquer consideração e, acompanhado de Lucrécio, encaminhou-se para o centro da cidade.
Inácio da Costa parecia não dormir. A toda hora do dia e da noite, era encontrado na rua, falando e gesticulando em grupos, discutindo nos bondes, lendo jornais, nos cafés, visitando redações. A todos, prometia um governo de Salento e ameaçava com excomunhão os prudentes duvidosos. Com o seu fraque abanando, o seu coco, fungando com força, pondo em relevo as rugas do rosto, o Inácio não se cansava de dizer que a sã política é filha da moral e da razão.
Lucrécio e Bogoloff logo o encontraram na primeira esquina, pouco depois de saltarem do bonde. Estava limpo, banhado e o seu olhar era jubiloso e esperançado.
— Viram! Viram! Não digo... Temos governo!... Xandu já mandou restabelecer o — Saúde e fraternidade... — Os conselheiros tinham banido esse santo dístico mas agora... Estamos na República... Implicaram também com — Ordem e Progresso. Por quê? Vocês não querem “ordem”? Vocês não querem “progresso”? A ordem é a condição do progresso. — Será verdade? — indagou Bogoloff — Como não! A história...
— A bem dizer, é o contrário: todo o progresso tem sido feito com desordens.
— Doutor, o senhor está me parecendo um metafísico. Chico — disse ele dirigindo-se a um passante — espera aí. Até logo! Até logo!
E saiu, abanando o fraque, fungando, gesticulando, ao encalço do amigo.
Não tinha Bogoloff grande esperança de ser atendido pelo ministro do
Fomento. A promessa que lhe fizera, por ocasião da manifestação a Cogominho, não parecia que obrigasse o ministro a nada. Temia que o despedisse polidamente e, quando fosse o momento azado, já tivesse estragado o pedido. Fez parte de suas dúvidas a Lucrécio e este as julgou de peso.
— O melhor — disse Barba-de-Bode — é irmos à casa do doutor Macieira.
— Não o conheço bem... Não tenho grande intimidade...
— Mas eu o conheço. Vamos lá... Ele me atende... Agora, se arranjar qualquer coisa, é preciso trabalhar pela política dele.
— Não como médico — disse Bogoloff, rindo-se. — Qual! Isto é com a política do Liberato.
A hora era propícia e tomaram o caminho de Santa Teresa. Depois de Bastos, chefe absoluto e respeitado da política nacional, Macieira era um dos grandes magnatas da República. Graças à população do seu Estado natal, a sua representação na Câmara era volumosa; e, em todos os conchavos, tinha que ser pesada a sua colaboração de chefe dirigente. Como grande chefe, não podia nunca declarar-se em franca oposição; e a veleidade que teve disso tinha-o enfraquecido um pouco. Entre os dirigentes da política, há um curioso equilíbrio que precisa de um mais audaz para se fazer; e surgindo esse audaz, nenhum outro pode tomar-lhe o lugar porque sempre o rebelde teme que os colegas não o sigam. O governo é sempre contado como elemento preponderante e o audaz nunca se separa do governo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.