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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Também de mármore enxadrezado era todo o piso e o vasto aquário, largo e profundo, com uma calha à altura de dois metros, duas torneiras de cobre e a rosácea imensa, no teto de ripas embrechadas. Duas maçanetas de louça matizada giravam na parede marmórea para a distribuição das águas altas. Três janelas, com persianas, coavam uma luz serena e o frescor das lajes e das águas ocultas espalhavam-se no ambiente, dando uma sensação regalada de inverno.

Tudo era branco e o asseio casava-se com o conforto. A beleza era geral, não havia que criticar. Os cabides, de nítido metal, reluziam e, a um canto, fechada, uma caixa lustrosa de quando em quando interrompia o silêncio com um burburinho.

Crebillon quis mostrar a perfeição daquela utilíssima dependência, mas para que não lhe sucedesse sair, como da cozinha, com as roupas encharcadas, bradou pelo africano que acudiu à pressa parando à porta, fascinado pelo fulgor dos muros alvos.

— João de Deus, distorce-me uma daquelas bolas... Mas toma cuidado com a água que vem por ai abaixo.

O negro, alongando o braço com grande medo, pôs-se a torcer a maçaneta. Houve um ronco estupendo, um ronco de tromba em mares largos e logo, da altíssima calha, um gorgolão de água despenhou-se impetuosamente, espalhando uma névoa sutil. Crebillon, apesar da voz formidável que o distinguia, valendo-lhe a antonomásia de Stentor, teve de bradar para que fosse ouvido, tão fragoroso era o rolar das águas soltas pela beiçorra da calha, caindo estrondosamente nas lajes.

— Vêem vocês? Parece Paulo Afonso. E os três concordaram assombrados. Agora a outra, João.

O negro, aterrado, deu volta à outra maçaneta e foi um desabar de chuva como no dilúvio.

A mania das águas alucinava o abolicionista que entrou a urrar, sapateando, brandindo a bengala:

— Abre agora as torneiras, João!... As torneiras!

Mas o negro não ouvia, via apenas a boca imensa, o ar furibundo e os gestos desabalados de Crebillon. Aproximou-se curvado e o abolicionista bramiu:

— Abre as torneiras, com todos os diabos!

E quando, por todos os vazadouros, a água volumosa, correu inundando o aquário, Crebillon pôs-se a afagar a pêra e parecia o próprio Deus olhando satisfeito e vingado a queda dos golfões tremendos que alhanaram o mundo, com remissão apenas da família do patriarca e das espécies recolhidas na arca.

O aquário transbordava quando Crebillon avançou muito grave e deu um safanão à corrente do escoadouro enquanto João, de olhos apertados, ia fechando as torneiras e torcendo as maçanetas. Ficaram apenas gotas lentejando e as águas, como depois de aplacada a cólera do Altíssimo no cataclismo universal, começaram a baixar afunilando-se à altura da válvula. Houve um sorvo por fim e o banheiro ficou, de novo, vazio e resplandecente, extasiando o grupo.

— Então!? — indagou o presidente encarando os rapazes.

— É uma delicia! Sim, senhor!

— Não há melhor no Rio, afirmo! E todos menearam a cabeça, concordando. Vamos agora ao jardim.

Desceram por uma escada de granito e, chegando ao ar livre, à claridade límpida do sol, que luzia quente, lançaram os olhos pelos canteiros relvados, de graciosas formas geométricas sobre o saibro branco e rútilo das aléias.

Eram inúmeras as roseiras encostadas a espeques, filas de caladios diversos, begônias, cravos, magnólias, gardênias, dálias, uma araucária esguia, várias palmeiras ornamentais e quatro figuras de louça, sobre pilastras, figurando as estações. A Primavera era uma graciosa e linda rapariga que sorria toucada de flores, pisando flores; o Outono era um ceifeiro moço com uma paveia de trigo aos pés, a foice ao ombro, os olhos no céu, satisfeito e feliz; o Estio era outra donzela, formosa e jocunda, que festejava uma borboleta pousada no seu ombro nu e o Inverno, metido entre árvores, era um velho tristonho, barbado e ferrenho, curvado sobre um cajado, com o gabão muito enrolado em volta do corpo magro e transido.

Sobre as figuras simbólicas as opiniões divergiram: Crebillon gabou-as com entusiasmo, Ruy Vaz achou-as "pulhas". Ao fundo, formando um bosque aceitoso, velhas árvores frondosas faziam sombra a uma barra fixa e a um trapézio.

— Temos aqui a ginástica, a educação física. Ao sair do banho uma flexão, uma sereia, depois o almoço, o trabalho... uma delícia, heim? Isto é sempre melhor do que o pardieiro da rua Formosa, confessem.

— Ora! — exclamaram os três. Contra o muro era o galinheiro, parte coberto, parte ao tempo, cercado de arame, com os poleiros caiados e um tanque para os palmípedes; ao lado a casa do cão coberta de zinco e, bem ao centro do jardim, o aviário de arame em forma graciosa de chalé com o seu repuxo que era, ao mesmo tempo, bebedouro. Crebillon, colhendo uma rosa e fincando-a na botoeira, disse, passeando um olhar pelo jardim:

— Isto não dispensa um jardineiro, o João de Deus não pode cuidar ao mesmo tempo do fogão e das flores...

— Naturalmente.

(continua...)

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