Por Raul Pompéia (1888)
Nearco introduziu o tipo ausente do Cícero penetração — incisivo, fanhoso e implicante, gesticulando com a mãozinha à altura da cara e o indicador em croque, marcando precisamente no ar, no soalho, na palma da outra mão o lugar de cada coisa que diz, mesmo que se não perceba, pasmando de não ser entendido, impacientando-se até ao desejo de vazar os olhos ao público com as pontas da sua clareza, ou derreando-se em frouxos de compaixão pela desgraça de nos não compreendermos, porcos e pérolas.
O gesto incisivo, mais a facúndia desimpedida, mais o talento histórico dos paralelos, consagrou a primazia do gremista.
O presidente efetivo da sociedade era o Dr. Cláudio, professor da casa, homem de capacidade, benévolo para os desgarros de tolice da juventude, que teria desgosto para uma semana, se imaginassem que faltara a uma sessão por menosprezo. Esta constância do chefe era o grande elemento de prosperidade do Amor ao Saber. O Dr. Cláudio conduzia os trabalhos com verdadeira perícia de automedonte, esclarecia os imbróglios, forjava adjetivos de encômio que ia dando a cada um por sua vez e a todos os estimáveis consócios, propunha algumas teses e achava graça em outras. Nas sessões solenes pronunciava o discurso oficial.
A maior utilidade do Grêmio para mim era a biblioteca. Uma coleção de quinhentos a seiscentos volumes de variado texto, zelados pela vigilância cerberesca do Bento Alves, bibliotecário, eleito de voto unânime.
Alves era da associação como quase todos os alunos do curso superior. Filiava-se ao grupo simpático dos silenciosos, usufruindo os lucros da circunstância de não ser do regimento a taramela obrigatória. Fora da biblioteca, os seus serviços aos intuitos do Grêmio resumiam-se no apoiado! consciencioso e firme, à disposição sempre da melhor idéia em questões elevadas, e do mais sábio alvitre em questões de ordem.
Alguns rapazes, não do Grêmio, e que não houvessem, nas letras, manifestado gramaticalmente notável jeito para a conjugação sub-reptícia do verbo adquirir, podiam obter do presidente o direito de ingresso na sala dos livros. Eu, como amigo que era das bonitas páginas impressas, apresentei candidatura. E como não divertia bastante o jogo da barra ao sol, nem o rapa-tira-deixa-põe das penas de aço e das carrapetas, nem o correr à panelinha das bolas de vidro espiraladas de cores, fez-se-me a biblioteca a recreação habitual.
Esta freqüência angariou-me dois amigos, dois saudosos amigos — Bento Alves e Júlio Verne.
Ao famoso contador do Tour du Monde devo uma multidão numerosa dos amáveis fantasmas da primeira imaginação, excêntricos como Fogg, Paganel, Thomas Black, alegres como Joe, Passepartout, o negro Nab, nobres como Glenarvan Letourneur, Paulina Barnett, atraentes como Aouda, Mary Grant. Sobre todos, grande como um semideus, barba nitente, luminosa como a neblina dos sonhos, o lendário Nemo da Ilha Misteriosa, taciturno da lembrança das justiças de vingador, esperando que um cataclismo lhe cavasse um jazigo no seio do Oceano, seu vassalo, seu cúmplice, seu domínio, pátria sombria do expatriado.
Possuía minha literatura completa de tesouros de meninos, contos de Schmidt; visitara uma por uma no meu burrinho as feiras da sabedoria de Simão de Nântua; estudara profundamente pelas aventuras de Gulliver as vacilações da vida, onde, mal acabamos de zombar da pequenez extrema, vem sobre nós o ludibrio da extrema grandeza, espécie de Pascal de mamadeira entre Liliput e Brobdingnak; chegara à perfeição de duvidar das empresas de Münchhausen. Isto tudo sem falar nos Lusíadas do Sanches, no reverendo Bernardes, na refinada pilhéria do Bertoldo e no Testamento do Galo, símbolo aliás muito filosófico da odiosidade das sucessões, que por ventura do herdeiro autoriza o destripamento do galináceo como a tortura skakespeariana de Lear.
Júlio Verne foi festejado como uma migração de novidade. Onde quer que me levasse o Forward ou o Duncan, o Nautilus ou o balão Vitória, a columbíada da Florida ou criptograma de Saknussen, lá ia eu, esfaimado de desenlaces, prazenteiro, ávido como os três dias de Colombo antes da América, respirando no cheiro das encadernações as variantes climatéricas da leitura, desde as areias africanas ate aos campos de cristal do Ártico, desde os grandes frios siderais até à aventura do Stromboli.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.