Por Raul Pompéia (1881)
- Oh lá! diabo, despedaça-me aqui em mil fragmentos o coração, rasga-me em tiras afelicidade!...
Ai! caro F, isto vale bem mais que um suicídio... Deixa-me beber!...
E reflitamos. Um ébrio pode refletir... reflitamos.
Deus fez a desgraça e Noé fez o vinho. Os infelizes como eu conhecem terrivelmente quanto foi bem achada a invenção do patriarca. Também só assim o famoso velho conseguiria remir a sua memória do crime de haver construído a arca.
Não imagino como o grito da humanidade se levantaria formidável do meio do inferno, dos sofrimentos da vida, para maldizer o nome daquele que continuou-lhe a existência e a dor, se o construtor da arca não fosse o tanoeiro da primeira pipa...
Ah! meu amigo, tenho para mim que Deus bem sabia que, ao lado da embarcação que transportou aos nossos séculos o sangue adamita, flutuava um tonel. A arca seria talvez da salvação; o tonel era das consolações.
Nem se me diga o contrário.
Sem isso, o que seria a Providência divina... Para cegos, já bastam os homens...
Noé é benemérito pelo vinho.
O seu nome é abençoado na taverna, essa imundície sagrada, onde se vazam as dores e as garrafas. Aí vive Diógenes com a sua filosofia e a sua pipa; mas a pipa está cheia, e Diógenes parece um Cristo de doçura e suavidade.
Desgraçados, à taverna!
Talvez não me compreendas, meu feliz amigo; a desgraça não te bateu ainda familiarmente aos caixilhos. Espera um pouco...
A embriaguez é o esquecimento, e não há consolação que não seja um simples fato da memória. Afianço-te que o coração não tem parte no negócio.
O coração não se consola; a memória é que se esquece; e, quando quiseres esquecer, bebe!
O princípio não é novo.
Quem se vir um dia nas minhas condições, ensaie-o.
Dizem que os bêbados são desprezíveis... Isto é asneira e blasfêmia. Há duas espécies de bêbados: os bêbados por prazer e os bêbados por desesperação.
Uns são simplesmente tolos, os outros são dignos de respeito.
Confundir tolice e desespero com infâmia, não sei como se qualifique...
Mas isto se explica. Os senhores moralistas olham de cima para baixo. Este é o erro das filosofias. Ninguém define o fundo dos abismos.
Quereis saber o que é? Ide vê-lo.
Eis o que não querem fazer os filósofos de sorriso nos lábios e no coração.
Para vingança dos que sofrem, o Judeu errante do infortúnio tarde ou cedo toca com o bastão a todas as portas. Há muito valente que sonha fantasmas à meia-noite.
Deixa que eles falem, meu amigo. Peço-te apenas que não cuspas sobre o sono avinhado das esquinas.
É o caso de dizer-se: esse cuspo cairá sobre vós e vossos filhos.
Quando a sorte nos crava sete punhais no peito, vai-se estendendo a mão para a torneira do batoque. Impedir movimento instintivo é uma crueldade desarrazoada. as dores fez-se o calmante.
Eu entendo que o remédio é uma conseqüência do mal. São dous fatos correlativos e complementares. Mal e remédio, isto é que é a vida. Lutar não é outra cousa senão remediar.
Toda a atividade humana cifra-se nisso. O mal e o remédio existem necessariamente, subordinados um ao outro, impossíveis de haver independentes. Estão ligados como a ação à reação. Combatem-se. Mas combater-se é uma palavra contraditória: é chamar e repelir, é a união na desunião.
A força centrífuga e a centrípeta combatem-se, e ambas se fundem no equilíbrio. Assim a vida.
O mal e o remédio arcando um com o outro, imóveis na igualdade do esforço, a peleja eterna: a confusão épica sublime oferecida em espetáculo aos deuses dos homéridas.
Como querer uma só vez impedir o recontro? Quando a desgraça chegar, deixe-se que o adversário apareça.
E o adversário da desventura é o consolo, e o consolo é o vinho.
Ah! que amarga suavidade existe no sono dormido sobre a tempestade!...
Os trovões ecoam como os pandeiros de dançarinas, rodopiando ao longe. O relâmpago tem cambiantes azuis que afagam a vista, derramando reflexos de apoteose. As ventanias passam como pânicos acordes através da verdura brincalhona de mimosos bosquetes...
Se um madeiro desmorona-se da sua arrogância secular, não se ouve mais que uma delicada harmonia, ou o rumor de flores que caem. Se ruge o mar, abalando o promontório e fazendo chorar a penedia a golpe de açoute, sente-se apenas um marulhar mitológico, coroado de espumas, lançando à praia, entre beijos, mil sombras de Afrodite, que fogem nuas por meio de dunas de cândidas areias.
Tu me dirás, meu F, que és o meu verdadeiro amigo, e que desgraçadamente estás tão longe de mim, qual a consolação que isto valha? Que lenitivo estúpido é esse dos amigos diplomatas, que nos vêm cá mentir, todos contritos: agora é resignar-se... E outras ironias. Alando-as ao diabo, as mentiras!... Vejo a consolação.
Dizem que o maior amigo do homem é o livro. Admito, porém exijo que se reconheça que, se o livro é o amigo do homem, o vinho é o amigo do desgraçado. E parece-me preferível aquele que nos visita na hora da adversidade ao outro, que, nessa hora, pudera ser-nos importuno.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.