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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Xandu era rico e tinha, como todos, a sua vaidade. A dele era julgar-se com o estofo de grande ministro e o seu erro vinha em supor que o seria fecundo em obras, por espalhar decretos a mancheias. Pretendia fazer isto e aquilo; apanhava inspiração na boca de parentes, de amigos e punha toda a sua esperança na legislação. Não há dúvida que ela pode influir; ele exagerava, porém, o seu alcance e os seus resultados. Feito ministro, o seu primeiro trabalho foi instalar luxuosamente a sua secretaria e gabinete; cortinados, sanefas, mobílias, bustos, quadros — tudo ele colocou do maior luxo. Em seguida, espalhou o seu retrato e biografia pelos jornais e revistas, especialmente por essas pequenas revistas pouco conhecidas e lidas.

Há de parecer que são sem valor as publicações feitas nelas; entretanto, assim não se dá. Oferecidas gratuitamente, elas correm maior área e chegam aonde as grandes publicações não chegam. O que perdem em intensidade, ganham em extensão; e os propagandistas políticos sabem bem disso porque não as desprezam. A fisionomia de Xandu, lavada, simpática, parada, com o seu olhar crédulo por detrás do monóculo, correu mundo em “clichés” de todos os tamanhos, com biografias auxiliares em todas as línguas. S. Exa. fomentava.

Bogoloff soube da nomeação de Xandu por intermédio do seu hospedeiro. Lucrécio ainda não estava colocado, mas tinha, sob o título de agente de polícia extranumerário, uma gratificação mensal que lhe dava para ter em dia o aluguel da casa. Parecia que devesse ter obtido colocação melhor; os seus protetores, porém, não julgaram a ocasião propícia e fizeram-no “encostado”.

Aí, ele podia com mais liberdade prestar-lhes os seus serviços de popular e, sendo lugar provisório, não lhe viria uma frouxidão inqualificável no seus entusiasmo pelas altas qualidades administrativas deles. Contudo, esperava firmar-se e não havia esquecido de sua promessa a Bogoloff.

Moravam ainda na mesma casa da Cidade Nova e era hábito almoçarem juntos antes que as outras pessoas da família o fizessem. Tendo de onde tirar o dinheiro, o primeiro cuidado de Lucrécio foi por o filho na escola e o pequeno raramente o via nos dias úteis da semana. O serviço do pai não era marcado. Aparecia na polícia e demorava-se por lá, à espera que houvesse um “meeting”, um discurso subversivo na Câmara, para perturbar as aclamações espontâneas e desinteressadas. A mulher e a irmã continuavam a temer semelhante espécie de emprego; Lucrécio, porém, as sossegava dizendo:

— Minhas filhas, é assim que a gente se arranja. Tudo está nas mãos dos políticos e, sem política, ninguém vai lá. O Candinho não está agente da Prefeitura? Como começou? O Totonho, não foi feito jardineiro-chefe? Ele há de me arranjar.

A fortuna de Totonho seguiu-se a do seu protetor Campelo, o Dr. Campelo. Não tendo sido possível dar a este um lugar de deputado, foi feito professor de meteorologia da Escola de Agricultura e diretor das Fundições da Ponta da Areia.

Era bacharel em Direito, advogado sem renome, mas dispunha do bando de Totonho, que influía nas eleições da Lapa. Esse bando tinha uma existências duradoura e aliava-se a este ou àquele candidato, por mais ou menos tempo, às vezes desinteressadamente, conforme a fé que tinha na lealdade deles. Nem todos mereciam-lhe essa consideração de candidato. Uma das condições era ser bacharel, advogado, relacionado na política e fora dela, garantindo proteção para casas de jogo, para delegados e para absolvições.

Nas mais das vezes, como acontecia com Campelo, o candidato não podia garantir coisa alguma, sobretudo quanto ao júri. É verdade que muitos são ali prisioneiros políticos deste ou daquele, mas não é tão difícil juntá-los em conselho que essa proteção é mais uma burla com que os candidatos incitam os seus apaniguados a desordens e assassinatos, esperançados com a impunidade.

Totonho era encarregado de várias casas de cômodos e estalagens; e, na pobreza dos seus inquilinos e nas suas necessidades, arrepanhava eleitores, “fósforos” e desordeiros úteis.

Campelo juntara-se-lhe desde muito e Totonho punha muita esperança na estrela do doutor. De resto, este era delicado, acessível, apertava a mão de toda a gente, vestia-se bem, supondo-se até bonito; e com tantas qualidades não podia deixar de ir longe.

Foi logo um dos primeiros admiradores de Bentes, organizou banquetes a todos os seus parentes e não houve metáfora mais ou menos de “haras” que ele não empregasse para demonstrar de que modo a hereditariedade pesava na família.

Fora Totonho, por intermédio Campelo, quem pusera Lucrécio na polícia; e a Bogoloff, com quem almoçava naquela manhã, o novo policial lembrou:

— Doutor, por que não procura o Xandu?

Lucrécio não sentia absolutamente pesada a hospedagem do russo; queria, porém, que a sua educação e instrução tivessem outro âmbito. Respeitava o saber do moscovita e sentia a sua alvura e os seus cabelos louros deslocados ali.

(continua...)

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