Por Coelho Neto (1890)
O teto era de madeira fosca, com entalhes preciosos. As paredes pintadas:
eram aves, enfiadas de peixes, lebres e pacas sangrando, pencas de frutas, racimos e açafates de flores sobre as quais pairavam borboletas.
O soalho era de mosaico de madeira e, encravado na parede, com uma carranca feroz de bochechas cheias como um Euro, havia um lavabo de mármore. O ar que bafejava a sala, cheirava suavemente a jasmim.
— Aqui pode a gente comer! — exclamou Anselmo. As próprias paredes encarregam-se de despertar o apetite. Que delícia e que aroma!
Crebillon avançou solene, mostrando com a bengala o grande braço do gás, com oito açucenas azuis.
— Isto é que não vai bem aqui; e ajuntou: A casa é boa, ainda assim precisa de certos retoques artísticos. Este gás, por exemplo, vai fora. Esta sala está a pedir um lustre para vinte ou trinta velas; vinte chegam, aqui ao centro. Agora vejam lá vocês se concordam: A mobília de canela ou de imbuía...
— Por que não há de ser de carvalho? — emendou Ruy Vaz.
— Aí vem você com o carvalho! Para que havemos de recorrer ao estrangeiro quando temos as mais belas madeiras do mundo? Que diabo! Vocês não são patriotas... É por estas e outras que nunca seremos autônomos, havemos de ser sempre um protetorado europeu. Carvalho... Não senhor: canela ou imbuía, estilo grego. Ou monta-se a casa com gosto ou então...
— Pois seja, concordou Ruy Vaz.
— Imbuía ou canela, continuou Crebillon. Aqui, o bufê... Ali, o guarda-prata...
Acolá, os trinchantes. Duas dúzias de cadeiras... Que acham?
— Sim, duas dúzias, concordou Anselmo.
— Nos cantos podem ficar uns cache— pots com palmeiras, dracenas. Eu detesto o encerado inglês, mas se vocês fazem questão...?
— Não, dispensa-se o encerado. Com um soalho como este é até profanação.
— Também acho. Então está pronta a sala de jantar. Ah! Sim, precisamos escolher uns panos claros para as janelas e portas. Isso vê-se depois. Vamos adiante.
Passaram à copa ladrilhada. Era vasta, com um armário e duas pias de mármore.
A cozinha lembrava a de um castelo feudal. No forno do fogão, novo e brunido, com os metais muito reluzentes, caberia um novilho inteiro. Era uma peça solene, digna de um comentário, com uma complicada rede de tubos amarelos e torneiras, bocas de todos os tamanhos, caldeiras, uma infinidade de minúcias que só poderiam ser entendidas por um mestre perito que, a ciência rara de queimar uma omelette au rhum, reunisse a sabedoria de mecânico.
João de Deus, depois de examinar detidamente o monstro, passeando em torno dele, abrindo e fechando torneiras, escancarando pesadíssimas portas que davam aos olhos a vertigem do abismo, confessou que não entendia "aquela geringonça". Mas Crebillon, sempre austero, avançou para mostrar ao negro como se operava. Olhou, deu volta e, de repente, lembrando-se de alguma coisa, saiu em passos ligeiros. Tornou, porém, logo depois e, abrindo, com muita convicção, uma torneira recuou encharcado e, certamente, a casa teria sido inundada se João de Deus, afrontando o esguicho, com risco de apanhar uma bronquite, não houvesse estancado o jorro.
De novo Crebillon investiu e foi distorcendo todos os registros que encontrou e, logo, um cheiro ativo de gás espalhou-se pela casa. Crebillon riscou um fósforo, atirou-o ao tubo, deu um pelo prudente e houve a explosão. O monstro ficou iluminado como um edifício público em dia de festa nacional. Os rapazes aplaudiram com entusiasmo e João de Deus, aterrado, recuou do fogão como de coisa satânica.
— Vêem vocês? Temos aqui o gás, que é a essência do coke. Não precisamos de carvão nem de lenha. Podemos cozinhar um boi com a maior brevidade e limpamente.
Deixaram o monstro, menos João de Deus que ficou encarregado de fechar os registros, e passaram a examinar a cozinha, também ladrilhada até meia parede. Duas grandes pias defrontavam-se.
— Aqui tem os seus domínios, mestre João de Deus, disse Crebillon. O negro ouvia comovido, de olhos baixos. Você tem boné e avental?
— Não, senhor.
— Pois é preciso mandar fazer.
— Certamente, concordaram unânimes os do segundo andar.
— Isto não é cozinha para mangas de camisa. E é preciso trazê-la sempre muito asseada, entendeu?
— Sim, senhor.
— Bem. Vamos agora ver o banheiro, meus amigos. Vocês vão ver! Eu acho perigoso...
— Perigoso!? — exclamou Anselmo.
— Sim, isto é: não para mim, porque sei nadar.
— Também eu, disse Anselmo. — E eu, ajuntou Toledo.
— Mas tu não sabes, Ruy Vaz?
— Eu? Não sei.
— Pois meu caro, aceita o meu conselho: não entres no banheiro sem salvavidas — é como a bacia do Prata, meu amigo, vais ver. Vamos.
Seguiram e João de Deus, já exausto, continuava a torcer os registros. do fogão monstruoso.
Impressionados pelas palavras de Crebillon, os rapazes atravessaram um estreito paço de mármore alguergado e pararam diante de uma porta branca.
— É aqui! — disse Crebillon, com profundo respeito e, lentamente, foi impelindo a porta como se quisesse dar, aos poucos, a impressão magnífica da maravilha. Os rapazes invadiram o recinto e houve um significativo silêncio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.