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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Nearco arranjou a coisa a olho e distinguiu-se com a esperada galhardia. Falou durante hora e meia com uma fluência que lhe angariava para sempre o epíteto de facundo. Justapôs com o primor de um varejista de fazendas — César sobre Alexandre. César protestou contra a maneira, de barriga para o ar, que nada tinha de artística; além disso espetava-o a armadura de Alexandre. Aquilo faria rir a Pompeu no armário das legendas e a maledicência do senado, comprometendo-se a seriedade secular do homem que foi, viu e venceu... Nearco manteve-o inexoravelmente durante o percurso do paralelo critico. César não podia contar com os legionários do bom tempo; ali esteve a fazer caretas na sujeição inerme, anima vilis dos documentos. Alexandre, que afora o capacete, via-se ainda maiorzinho que o outro, teve mais paciência, deixando-se medir até à peroração, com a boa vontade de um defunto. Venceu com efeito. Nearco proclamou-o magno dos magnos, diversas polegadas maior que o temerário do Rubicon.

O Grêmio esclarecido rejubilou. A discussão encerrou-se, não havendo mais quem falasse. Também havia cinco sessões que eram os pobres guerreiros tratados a metro.

Por este memorável dia arvorou-se Nearco em notabilidade firmada. Esqueceram todos que ele fora matriculado sob o quase compromisso de não dar um passo que não fosse um salto-mortal, não descansar senão de pernas para cima em cadeiras equilibradas sobre garrafas, não ter outro recreio que não fosse a corda bamba, por não destoar da percorrida fama. Ficou em olvido a estréia acrobática. O Grêmio Amor ao Saber tomou-o a si, em posse exclusiva, como um orgulho.

Não faltavam, entretanto, poetas, jornalistas, polemistas, romancistas, críticos, folhetinistas. A sociedade tinha o seu órgão, O Grêmio, impresso no Lombaerts, de que podiam ser canudos à vontade os sócios quites e ainda, por maior riqueza de harmonias, os honorários.

Entre os honorários figurava Aristarco, presidente, colaborando sempre no periódico com a transcrição em avulso das máximas de parede, e mandando sempre para a quarta página um anúncio garrafal do Ateneu, que pagava para auxiliar à empresa. Na interessante publicação apareciam quadrinhas místicas do Ribas e sonetos lúbricos do Sanches. Barreto publicava meditações, espécie de harpa do crente em prosa arrebentada.

O rodapé-romance era uma imitação d’O Guarani, emplumada de vocábulos indígenas e assinada — Aimbiré.

Nearco atirou-se à especialidade dos paralelos. Começou logo por dois de pancada: Cila e Mário, Tito e Nero. No expediente prometia-se um terceiro curiosíssimo: Plutarco e os beócios.

Esta queda para as linhas eqüidistantes, talento aliás de carril urbano e anexos muares, foi mais uma razão de prestigio para o extraordinário rapaz.

A eloqüência representava-se no Grêmio por uma porção de categorias. Cícero tragédia — voz cavernosa, gestos de punhal, que parece clamar de dentro do túmulo, que arrepia os cabelos ao auditório, franzindo com fereza o sobrolho, que, se a retórica fosse suscetível de assinatura, acrescentaria ao fim de cada discurso pesadamente: a mão do finado; Cícero modéstia — formulando excelentes coisas, atrapalhadamente, no embaraço de um perpétuo début, desculpando-se muito em todos os exórdios e ainda mais em todas as confirmações, lágrimas na voz, dificuldade no modo, seleto e engasgado; Cícero circunspecção — enunciando-se por frases cortadas como quem encarreira tijolos, homem da regra e da legalidade, calcando os que e os CUJO, longo, demorado, caprichoso em mostrar-se mais raso do que o muito que realmente é, amigo dos períodos quadrados e vazios como caixões, atenuando mais em cada conceito a atenuante do conceito anterior, conservador e ultramontano, porque as coisas estabelecidas dispensam de pensar, apologista ferrenho de Quintiliano, retardando com intervalos o discurso impossível para provar que divide bem a sua elocução, com todos os requisitos da oratória, pureza, clareza, correção, precisão, menos uma coisa — a idéia; Cícero tempestade — verborrágico, por paus e por pedras, precipitando-se pela fluência como escadas abaixo, acumulando avalanches como uma liquidação boreal do inverno, anulando o efeito de assombroso destampatório pelo assombro do destampatório seguinte, eloqüência suada, ofegante, desgrenhada, ensurdecedora, pontuada a murros como uma cena de pugilato; Cícero franqueza — positivo, indispensável para o encerramento das discussões, dizendo a coisa em duas palavras, em geral grosseiro e malfalante, pronto para oferecer ao adversário o encontro em qualquer terreno, espécie perigosa nas assembléias; Cícero sacerdócio — sacerdotal, solene, orando em trêmulo, alçando a testa como uma mitra, pedindo uma catedral para cada proposição, calçando aos pés dois púlpitos em vez de sapatos, espécie venerada e acatada.

(continua...)

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