Por Raul Pompéia (1881)
Esbarrei de encontro a um obstáculo insuperável!
Era uma porta envidraçada, com umas cortinas sobre o vidro. Tentei abrir o trinco. O trinco abriu mas a porta não se moveu: estava fechada à chave!...
Entretanto, ressoavam dentro da casa os passos dos meus perseguidores. Distingui mesmo certa claridade de vela.
Não perdi esperanças.
Parecia-me estar em uma alcova. Acariciavam-se o olfato umas sensações agradáveis de perfumes de toilette.
Um relâmpago mal definido varou-me o cérebro.
- Parece que ele entrou aqui... dizia uma pessoa que julguei ser o meu vizinho Campos.
Iam entrar no aposento, onde eu me achava... Já não era possível fugir! Restava-me, porém, o recurso de me ocultar em qualquer parte. Dei dois passos e achei uma cama de amplos cortinados. Agachei-me rapidamente e entrei para baixo da cama. Pela hora presente, julgueime salvo.
Acima de minha cabeça estalitavam, de vez em quando, as tábuas do leito, como se aí houvesse alguém a mexer-se. Ouvia-se ainda a respiração calma e ciciante de um ressonar tranqüilo.
Não tive grande tempo para perguntar-me quem ressonava ali sobre mim, naquela alcova de perfumes...
Uma voz de mulher, que devia ser a esposa do Sr. Campos, gritou de repente:
- Meu Deus do céu! o ladrão entrou ao quarto de Inez! Vejam que a porta não estava assim!...
E eu do meu esconderijo vi todos se precipitarem no quarto, onde eu viera parar.
Era chegado o momento de desesperar. Resolvi fazer rendição.
Antes que me puxassem para fora eu abandonei o esconderijo.
Não te posso, amigo X, dar uma idéia da cena que seguiu-se. Houve primeiro um desapontamento acabrunhador.
- Sr. Dr. Z! exclamaram em coro o meu vizinho Campos, sua mulher e um escravo.
Foi um grito estranho, impossível, que me apunhalou de vergonha.
Depois, aproximou-se de mim, com um ar solene e um robusto cacete na mão direita, o respeitável dono da casa.
- Como ousou o senhor penetrar na alcova de minha filha? disse com a voz trêmula e o gestoameaçador.
Achei um pouco teatral a atitude do homem, mas afinal de contas ele tinha razão.
- O senhor que não tem vergonha de se apresentar aqui nesses trajos, acaba de comprometergravemente a honra daquela pobre criança...
Olhei para o leito, debaixo do qual me havia escondido.
Através do cortinado entreaberto, via-se, em meio de brancos lençóis, a elevação de umas formas e um lindo busto de carne, meio afundado numa almofada macia.
Era a minha Inez.
Juro-te que nunca me pareceu mais sedutora.
- Pois bem, continuava, com ares de juiz, o pai da menina, se o senhor não se apressar em livrála da suspeita que vai deixar sobre a sua pureza, o senhor não passa de um miserável...
Ora, bem sabes, prezado X, que eu não sou um miserável. Além disso já me estava aborrecendo a duração da aventura.
- Faço o que quiser, disse.
- Case-se com a minha filha.
- Caso-me.
E me casei, isto é, aposentei-me, acorrentei-me. E o meu digno sogro não me falou em dotes.
Adeus. E põe de molho as tuas barbas que estão a arder as do teu sincero amigo.
Raul Pompéia
CORRESPONDÊNCIAS ÍNTIMAS
II
Bom Amigo F.
Vai causar-te uma impressão estranha esta minha carta. Cheira a vinho e a sepulcro. Perdoa, caro amigo. Tenho diante de mim algumas garrafas, e aí na sala o cadáver de minha Ercínia...
Tu vias aquela criança viva, inteligente, engraçada, a brincar-me nos joelhos, linda como uma nuvem de aurora, puxando-me as barbas e beijando-me as pálpebras, fitando os meus sorrisos com os grandes olhos ingênuos e negros, sempre acariciadora, sempre boazinha...
Era a lembrança da minha chorada Maria, e o meu consolo...
Pois agora a fatalidade, o diabo, não sei quem... assassina-me cruelmente esse derradeiro vestígio da minha breve felicidade!
Calcula, meu amigo, que desespero!...
E deixa-me beber!...
O vinho é um grande lenitivo. Afoga as dores no esquecimento. Pode-se ver um cancã no cemitério, olhando através de um campo. Com certeza não conheces esta verdade.
É que não precisas... És um homem feliz; mas eu não sou mais que um miserável escolhido pela má fortuna para seu joguete... Deixa-me beber!...
Olha, esta carta, escrevo-a no meu gabinete, trancado num isolamento absoluto; não vejo os fúnebres preparos que vão levar à lama o anjinho rosado que ainda ontem me chamava papai... Endoudeceria se o visse... Não quero ouvir os pêsames gaguejados pelos amigos de ocasião, que não têm remorso de representar hipocrisia ante uma criança morta e as dores de um pai!
Escondo-me, recalco-me no fundo da minha mágoa e no escuro do meu quartinho esquecido. Deixe-se o cadáver aos coveiros!...
Estás vendo?... É para o que serve o vinho...
Beba-se, e já não nos faltarão as forças para trancar um filho num esquife. Beba-se, e pelas cinzas dos meus pais! como qualquer covarde terá coragem bastante para soltar uma gargalhada às portas do inferno ou às barbas de S. Pedro!
- O que dizes?... Não terias esta força, aposto: - Deixe-se aos coveiros o cadáver da filha!...
Bate-se ao ombro de um daqueles bandidos de camisolão azul e grita-se:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.