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#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

Estavam Ricardo, o Doutor Florêncio, o exato empregado como engenheiro das Águas, aqueles dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginárias daqueles três militares, um honorário, talvez o menos pacífico dos três, o único que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira - quando Dona Maricota chegou sempre diligente, ativa, dando movimento e vida à festa. Era mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente pretos os cabelos na sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo enorme. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao marido:

- Então, Chico, que é isso? Ficou aí e eu que faça sala, que anime as moças... Pra sala todos!

- Já vamos, Dona Maricota, disse alguém.

- Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, “seu” Caldas, “seu” Ricardo, os senhores!

E foi empurrando um a um pelo ombro.

- Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor... Está ouvindo, “seu” Ricardo!

- Pois não, minha senhora. É uma ordem...

E foram. No caminho o general parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou: - Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?

- Vai bem.

- Tem-lhe escrito?

- Às vezes. Eu queria, general...

O general suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que começava a cair, e perguntou:

- O quê?

Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma ligeira hesitação, respondeu de um jacto, com medo de perder as palavras:

- Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vê-lo.

O general esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabelo e disse:

- Isso é difícil, mas você apareça lá, na repartição, amanhã.

E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros acrescentou:

- Estou com saudades dele, depois tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem nome...

- Vá lá amanhã.

Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada:

- Vocês não vêm!

- Já vamos, fez o general.

E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:

- Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros... É isto! Eu, há bem quarenta anos, que não pego em livro...

Chegaram à sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas, furiosos retratos a óleo de Albernaz e da mulher; um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da mobília não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço aos dançantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janela, Ricardo pôde ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; só de lá os curiosos, os “serenos”, podiam ver alguma cousa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O general contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...

A moça, a famosa filha do Lemos, dispôs-se a cantar. Foi ao piano, colocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ela cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bemeducada. Acabou. Palmas gerais, mas frias, soaram.

O Doutor Florêncio que ficara atrás do general, comentou:

- Tem uma bela voz esta moça. Quem é?

- É a filha do Lemos, o Doutor Lemos da Higiene, respondeu o general.

- Canta muito bem.

- Está no último ano do Conservatório, observou ainda Albernaz.

Chegou a vez de Ricardo. Ele ocupou um canto da sala, agarrou o vilão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar trágico de quem vai representar o Édipo-Rei e falou com voz grossa: “Senhoritas, senhores e senhoras.” Parou. Concertou a voz e continuou: “Vou cantar ‘Os teus braços’. Modinha de minha composição, música e versos. É uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada.” Seus olhos, por aí, quase saíam das órbitas. Emendou: “Espero que nenhum ruído se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão instrumento muito... mui... to ‘dê-licá-do’. Bem.”

A atenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebundo, macio e longo, como soluço de onda; depois, houve uma parte rápida, saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro, a modinha acabou.

Aquilo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens.

As palmas foram ininterruptas. O general abraçou-o, Genelício levantou-se e deu-lhe a mão.

Quinota, no seu imaculado vestido de noiva, também.

Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu à sala de jantar. No corredor chamavam-no: “Senhor Ricardo, Senhor Ricardo!” Voltou-se. “Que ordena minha senhora?” Era uma moça que lhe pedia uma cópia da modinha.

- Não se esqueça, dizia ela com meiguice, não se esqueça. Gosto tanto das suas modinhas... São tão ternas, tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismênia para me entregar.

A noiva de Cavalcanti aproximava-se e, ouvindo falar em seu nome perguntou:

- Que é Dulce?

A outra explicou-se. Ela aceitou a incumbência e, por sua vez, perguntou a Ricardo com a sua voz dolente:

(continua...)

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