Por Lima Barreto (1911)
O Dr. Chaveco continuava a dormir serenamente recostado à almofada do carro. As suas longas barbas tinham um doçura patriarcal. A sua pele estava queimada do sol e o seu ar era doce, bom e feliz. Era um pastor bíblico em que o luar punha a pátina da eternidade; e esse pastor bíblico tinha nas mãos a segurança, a ordem, a liberdade de uma vasta aglomeração humana de um milhão de almas.
Lembrou-se ainda Bogoloff das dificuldades do seu desembarque... A lembrança se esbatia no tempo; as suas linhas tinham perdido a nitidez... Como estava longe! Olhou o céu. A lua se mostrava por entre os flocos de nuvens que corriam doidas. A cidade dormia tranqüila, serena, satisfeita e a vontade dele era de que ela continuasse a dormir assim pelos séculos em fora...
CAPÍTULO VI
— Sim... sim... como?... como votar?... entendi... bem... o líder como vota?...
questão aberta?... bem... já?... daqui a meia hora... entendi... vou ver... não demoro... respondo já... não me esqueço... sim... sei... bem... já disse... eu sei. Numa! sei... Até já...
E descansou o fone no gancho durante alguns instantes. Esperou que a ligação se desfizesse e pediu nova:
— Minha senhora... alo... meia dúzia zero quatro leste... sim! Leste...
Aguardou um momento e continuou:
— Alo! Alo! Quem fala! ... Ah! É você, Benta?... Benevenuto está?... vai chamá-lo ao aparelho... de que casa?... da minha casa... sim... espero.... vai...
Não houve grande demora e Edgarda com o fone ao ouvido, o lado esquerdo voltado para o aparelho, a cabeça meio inclinada, perguntou ternamente:
— É você, Benevenuto?... bem... é você?... já sei... não é para já... hoje?...
não posso... não se perde por esperar... não tenho podido... quem está aí?... bem... uma coisa... Numa pergunta como deve votar no projeto de acumulação... diziam que queria... sim, o governo!... agora?... não faz questão... sim... que acha você?... entendi... bem... como? contra?... não... sim... ele quer vetar?... ficar simpático... compreendo... faz passar por portas travessas... sou inteligente... no telefone, só, não, seu “trouxa”!... entendi... faz passar e veta... entendi... fica com a simpatia dos interessados... então? como?... sim... se for nominal, contra; se não for, a favor... magnífico... vou... precisa cuidado... sei... creio... não se cansa... sei...adeus!
Orientada, pediu de novo ligação para a Câmara e pode Edgarda resolver a dificuldade política em que se achava seu marido. A necessidade de provar dedicação ao general Bentes obrigava todos os seus adeptos e admiradores a meditarem muito no levar a efeito o mínimo ato. Disputavam-se no agradecimento do estadista inesperado os políticos de todos os matizes. Os que estavam em cima e não queriam de forma alguma dar o mínimo sinal de que o seu apoio era simulado ou a contragosto; e os que estavam em baixo, apressados em ficar por cima, corriam parelhas com os adversários, dando sempre mais do que eles tinham dado.
Se uns chamavam-no de inteligente, os outros diziam-no gênio; se Numa qualificava-o de grande estadista, Salustiano arengava em algum lugar e aclamavao o primeiro estadista do mundo. Não quer dizer que não houvesse quem visse nítido em tudo isso. Além da opinião, havia mesmo na política gente com alguma vergonha que não se entregava a tais excessos de bajulação; porém, os prudentes que estavam o poder e os republicanos puros que sonhavam realizar integralmente o regime, entregavam-se a essa luta para divertimento das arquibancadas e fortificar a convicção de Bentes.
Todas as qualidades que até ali tinham indicado o valor dos homens de Estado foram negadas; e as doutrinas mais absurdas foram espalhadas sobre o governo dos povos. Omar invadia o Egito e mandava queimar a biblioteca de Alexandria; e os escribas que dormiam nas tumbas, puseram a cabeça fora delas e olharam com o seu olhar de esmalte, a desmoralização da arte que tinha feito os eu encanto e os progresso dos homens. Choraram mais ainda, quando lhes afirmaram que eram o demótico e mais caracteres da escrita que fizeram a infelicidade dos povos.
Abaladas as noções mais estáveis, nesse pugilato de bajulação, não sabiam como se conduzir os adeptos do futuro presidente. Ainda não o era efetivamente, mas já todos o consideravam assim e foi graças a seu esforço que Xandu, Raimundo Costale, foi afinal empossado no Ministério do Fomento Nacional.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.