Por Coelho Neto (1890)
Olhava, mas não via aquela torrente que desabava do céu, não via os córregos que rolavam precipitados e imundos pelas sarjetas, não via os homens que, de calças arregaçadas, com as pernas atafulhadas na água lodosa, iam e vinham sob o aguaceiro violento.
Pensava nos tempos felizes em que vivera acariciado entre a mãe e o pai, velhos ambos: ela, cantarolando baixinho modinhas sertanejas, à luz do lampião, enquanto cerzia a roupa branca, lavada e cheirando a ervas da campina; o velho, estirado no canapé, enrolando a barba, a pensar nos afazeres do dia seguinte. A um canto, sobre uma cadeira, o gato doméstico, um gordo maltês, dormindo tranqüilamente e ele, com os livros abertos, a tomar notas, mas já perseguido pela imaginação, já arrebatado por essa sedutora, que, numa página de história antiga, como se animasse as letras dos livros, fazia saltarem exércitos de bárbaros, mostrava cidades em chamas, dava uma vida de sonho a todas as passagens descritas concisamente pelos historiadores.
— Ah! Tempos idos! Então não conhecia a fome nem julgava que pudesse um dia conhecê-la. Nada lhe faltava: tinha a cama Sempre feita, os seus livros sempre em ordem, o melhor prato à mesa e, se lhe achavam o pulso um pouco agitado, se lhe sentiam a fronte mais quente, quantos cuidados, e que sobressaltos: a mãe aflita, o pai indo ver o médico, e tudo quanto queria, até aquela caixa de música que lá estava calada, sobre a sua mesa, que lhe fora dada, para distraí-lo, quando uma febre o prostrou na cama.
Ah! Tempos... E via-se ali sozinho, com fome, com febre e sem esperança de poder sair, porque o mesmo Deus parecia querer martirizá-lo com aquela tormentosa noite de aguaceiro e raios.
Quando se retirou da janela tinha os olhos úmidos. Borrifos da chuva, talvez...
VII
Uma manhã, inesperadamente, Crebillon surgiu com a chave da casa que encontrara e, como os rapazes ainda rolavam na cama, pensando no carinho desigual com que o bom Deus distingue os seus filhos na terra, dando a uns milheiros de apólices e a outros esquecendo em miséria, o futuro presidente, já com os ares despóticos de um Rosas, manifestou-se em palavras duras contra a preguiça, mãe de todos os vícios.
Os rapazes ouviram calados. Desceram ao Cranium e, depois de rápida fricção, galgaram os degraus, vestiram-se à pressa e saíram levando, como lacaio, o resignado João de Deus, que os não deixava senão à hora das refeições, porque não se podia habituar com os apertados jejuns, embora soubesse que eram garantia de bem-aventurança.
Crebillon, caminhando para o bonde, falava das suas constantes idas e vindas pelo Catete à procura de um prédio que reunisse as condições indispensáveis a uma república modelo, como a de Platão, até que lhe indicaram essa esplêndida vivenda principesca de onde havia saído, dias antes, um barão, homem de gosto e fortuna.
Toledo, curioso, pediu informações sobre a casa que iam habitar, mas o intrépido abolicionista rosnou ufano, torcendo a pêra flamínia, com sorriso vaidoso:
— Só te digo que é um palácio!
Era na rua de Santa Cristina. Quando Crebillon parou diante da casa de aspecto nobre — seis janelas de frente em cada pavimento, abrindo, as do superior, para uma sacada corrida de complicado gradil dourado, os rapazes, boquiabertos, pasmados, tiveram a mesma significativa exclamação surdamente murmurada e João de Deus sorriu, afagando o ventre sumido.
A porta, que parecia de bronze e pesada como o glorioso metal das imortalizações, girou docemente e o vestíbulo apareceu deslumbrante. Era de pequenos ladrilhos de mármore, em estrelas. As paredes, alvas, tinham enrediças de ramos, corimbos florentes finamente pintados e dois medalhões nos quais, sem demora, Ruy Vaz percebeu uma entrada da barra do Rio de Janeiro e uma vista do Reno romântico, castelos e vinhas e um rebanho com o seu pastor à sombra de ruínas negras. E soltos, voando na alvura lisa e luzida, pássaros de cores variegadas.
Acima da padieira da porta envidraçada dois velhos de imensas barbas derramadas, nus, as pernas estiradas, encostados a ânforas que jorravam para um lado e outro golfões de água espumante. Eram dois rios mitológicos. Ruy Vaz apenas achou defeito no ventre de um dos patriarcas fluviais. Realmente era desmedido, e se não fossem as barbas copiosas da figura, bastava aquela monstruosa pança para designar-lhe o sexo. Mas Anselmo achou natural:
— Um rio deve ter barriga d'água.
Crebillon achou o "rio" indecoroso. O pintor, ao menos por decência, devia ter espalhado juncais que ocultassem aquela deformidade. Passaram adiante ganhando o corredor, onde a luz era escassa, e só viam portas abrindo para gabinetes e alcovas, mas, alcançando a sala de jantar, ficaram deslumbrados. Era imensa! Quatro janelas olhavam para o jardim, folhagens balouçavam-se, inclinando-se indiscretamente como se quisessem penetrar aquela basílica de regalo, aquele santuário do ventre, onde podia, à vontade, ser servido um banquete a cem pessoas em mesa extensa, florida e rútila de baixelas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.