Por Raul Pompéia (1888)
A juventude, entretanto, é a eterna esperança; nós esperamos por uma exibição comprovante.
Abalou-se a tribo dos acrobatas, dos atletas; toda a rapaziada de brio, o Luís à frente, que localizava na protuberância nodosa do bíceps o pundonor supremo da criatura, preparou na mais vasta admiração um aposento considerável para acolher o confrade.
Formados trezentos, à tarde, diante dos aparelhos, foi em movimento de avidez que ouvimos Bataillard, com o cavalheirismo que o distinguia, convidar a exibir-se o grande Nearco.
Estava presente o diretor; estava presente o respeitável progenitor de Blondin. O Ateneu olhava. Nearco deixou a forma, rompendo a marcha com o pé esquerdo, a regra, mãos à ilharga, sério como um bispo, e encaminhou-se para o trapézio com o passo medido das emas, imperturbável como quem sabe profundamente a técnica do marchar. Perto do aparelho, sempre de mãos à cinta, volta a volver! virou-se para o colégio, teso, e quebrou para nós um duro salamaleque, conservando por segundos a efracção angular das figurinhas delineadas, representando a lavoura, na cantaria histórica do Egito.
Assuntávamos ansiosos.
Depois do cumprimento, Nearco empunhou a barra do trapézio, polegar para baixo, segundo a pragmática das posições. E fez uma flexão. Ah! não sabeis, profanos que sois, quanto vale a flexão dos membros superiores! A fórmula no mundo ideal da mecânica é a alavanca de Arquimedes; da aplicação prática e contundente é o marro britânico. Consiste nisto: encolher as munhecas.
Nearco fez uma, duas, fez cinco! seguiu-se uma viravolta, e Nearco ao trapézio, de cócoras, pôde perambular sobre o pasmo circunstante o pausado beque... Não era tudo, porém! Nearco arranjou mais umas fantasias de cambalhotas, capazes de transformar radicalmente os princípios fumados da arte dos trambolhões, e beneficiou-nos, suando, com um sorriso triunfal.
Faltava a sorte do fim. Nearco espichou quanto pôde a lamentável ausência de músculos e deu-nos... uma sereia! A sereia é tudo que há de mais elementar, de mais pulha, de mais tolamente ostentoso em matéria de aparelhos. O sujeito segurase às cordas, levanta os pés da barra, mete os pés pelas mãos e de cabeça para a terra empurra o ventre. O pobre Nearco, desbarrigado, não tinha ventre para empurrar.
Não empurrou coisa nenhuma; quando muito uns ossinhos que lhe saíam à altura do umbigo como cabos de faca. Pulou ao chão.
Estava exibido o acrobata! Nós olhávamos uns para os outros, bestificados, em compostura abatida de caras-de-asnos. Aristarco percebeu e repreendeu-nos com o sobrecenho. Nós compreendemos delicadamente: estava ali o respeitável pai de um colega...
Uma roda de palmas, claras, estrepitantes, inacabáveis, percorreu as fileiras com a eletricidade comunicativa das aclamações.
Nearco, altivo, agradeceu com o nariz.
CAPÍTULO VI
O futuro tinha reservado para Nearco um feixe de melhores palmas, uma galhada de louros mais legítimos como tempero de vitória.
O Grêmio Literário Amor ao Saber, instituição recente, seria o verdadeiro teatro dos seus soberbos alcances.
Duas vezes ao mês congregavam-se os amigos das letras, numa das salas de cima; a mesma das lições astronômicas de Aristarco. Havia ainda para iluminar as sessões pedaços de matéria cósmica pelos cantos, esfrangalhada pela análise do mestre. Não quer dizer que merecesse as eternas luminárias da ironia a benemérita associação.
Às suas reuniões comparecia eu timidamente, para nada mais que simplesmente abusar, por excessivo consumo, de um direito dos estatutos: podiam os alunos, todos do Ateneu, em silêncio humilde, mariscar o que fossem deixando os segadores do trigal das literaturas.
Assistente infalível, saia cheio com a retórica espigada, que ia espalmar, prensando no dicionário, conservas de espírito, relíquia inapreciável do Belo.
A dificuldade que encontrava um estudante para forrar-se ao privilégio de gremista, fazia-me mais a fundo venerá-lo.
Nearco não teve o menor embaraço. Entrara para o estabelecimento muito adiantado. Foi imediatamente proposto, aceito e empossado. À primeira sessão, depois do triunfo ao trapézio, tive ocasião de apreciá-lo à ginástica do verbo.
Debatia-se este problema, dos inesgotáveis das agremiações congêneres. Quem foi maior, Alexandre ou César? indagação histórica difícil evidentemente de levar a cabo sem o auxilio da trena.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.