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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

A fim de tornar menos cínica a existência acadêmica, é costume, aqui, em São Paulo, entre a rapaziada fogosa levar a efeito certas empresas que não são verdadeiramente perigosas, é certo, mas erriçadas de pequenas dificuldades, em porção bastante para dar-lhes toda a graça.

São, por exemplo, as correrias noturnas pelos quintais da vizinhança, à cata de galinhas.

Isto é uma pândega que faz rir a perder. O furto, geralmente coroado pelo mais brilhante êxito, é reservado para banquetes, que lembram a decadência de Roma. Às vezes, convida-se a vítima, e ela comparece a tomar parte, a fartar-se num regalório que corre todo por sua conta.

Sou amigo declarado destas gatunagens que valem tão saborosas gargalhadas e tão belos serões de república.

Por isso, há coisa de um mês, estávamos, eu e mais três rapagões sacudidos, por uma noite de garoa espessa, saltando o muro que separa o quintal da república de um dos meus companheiros e o quintal de um vizinho. Este vizinho é um velho gordo e baixote que usa óculos e não usa barbas, vivendo dos interesses possíveis de uma loja de fazendas da rua de São Bento. Vai todas as manhãs para a cidade e volta à noite para sua residência da Consolação. O Sr. Campos mora numa boa casa e trata a família com largueza. Tem uma linda filha e excelentes galinhas. A filha é uma menina de dezesseis anos, róseas cores de paulista, dentes um tanto estragados de paulista também. Veste-se bem e melhor namora. Uma mezinha de truz. Há cinco meses, quando mudei-me para defronte da casa dela, a menina sorriu-me. De então para cá, este sorriso fez progresso. Começou-se a dizer pela cidade, que eu e a mezinha Campos éramos namorados.

As galinhas são esplêndidas.

Raça francesa, gordas, convidativas. Habitam um galinheiro bem gradeado de sarrafos e encostado ao muro que dá para a república donde partia a nossa expedição.

Não tivemos, pois, muito que fazer para nos vermos meio das sedutoras aves. As galinhas dormiam num quartinho, onde reinava um forte cheiro de estrume e muita escuridão. Barafustamos ousadamente, acendendo uma vela. A gente do poleiro bradou: alerta! Foi um cacarejo assustador... Arrebentávamos de rir.

De repente, ouvimos gradar lá fora:

- Quem está aí?...

Deviam ser duas da madrugada. Hora de sono. Entretanto, era evidente que tínhamos sido pressentidos.

Sauve qui peut!

A vela apagou-se. Os meus companheiros sumiram-se. Senti que trancavam por fora a porta que nos dera entrada e a mesma voz que pouco antes tínhamos ouvido:

- Fique trancado, que eu vou chamar meu senhor.

E fiquei eu com as galinhas.

Procurei, então, os meus camaradas de pândega, tateando nas trevas. Os meus dedos, só encontravam penas. Dei por fim um encontrão no poleiro de taquaras, fazendo que muitas aves caíssem gritando e batendo ruidosamente as asas. Algumas roçaram-me pelo rosto...

E nada de achar os companheiros. Os patifes me haviam abandonado!

Avalia, meu caro X, quanto me custava de arrependimentos a tal patuscada. Ia simplesmente passar por uma vergonha atroz. Apanhado como ladrão de galinhas pelo pai da namorada! A mezinha o que diria de tudo?...

Devia escapar-me! Escapar-me a todo o preço!

Dei uma volta pelo quartinho apalpando as paredes com essa energia angustiosa do prisioneiro que imagina que o deus ex machina dos condenados lhe vai rasgar uma saída através da muralha do cárcere.

Nada achei. As paredes eram inflexíveis como um tirano.

Até que afinal senti sob a pressão dos dedos alguma coisa que parecia tábua. Verifiquei. Estava em uma porta. Fiz força para abri-la. A porta cedeu dificultosamente, como se estivesse calçada. Consegui apenas fazer uma estreita abertura.

Em camisa e ceroulas, como me achava, coberto apenas por um prussiano de viagem, não tive dificuldade, insinuando-me como um gato naquela abertura. Passei.

Além da porta só havia escuro. Não saíra eu, portanto, por onde entrara. Em todo o caso, não me achava mais naquele cubículo infecto, donde me ia tirar o ridículo de uma família inteira.

Caminhei atrevidamente. Sempre na treva e sempre em frente. Levava-me a aventura.

Em certo momento, os meus cuidadosos passos pisaram um soalho. Ao mesmo tempo, percebi que falavam no galinheiro.

Eu acabava de entrar na casa do meu vizinho Campos. Não te posso explicar bem como o fiz. Naturalmente um feliz desencontro me entregara às portas de um corredor que por dentro levava ao galinheiro, das quais uma fora deixada aberta pelos meus perseguidores que me haviam querido cortar a retirada por fora... e a outra se achava simplesmente escorada.

O fato é que internei-me pela casa... Comprometia-me furiosamente; mas era possível que encontrasse uma porta ou uma janela por onde me esgueirasse para a rua.

Fui entrando... Não te conto as cabeçadas que dei, nem os móveis que pus fora do lugar. Não te falo da maneira porque palpitava-me o coração, ao passo que eu me perdia numa casa onde nunca entrara, ouvindo atrás de mim vozes ameaçadoras. Foi uma via dolorosa em que caí mais de três vezes e só achei o cireneu do meu medo...

(continua...)

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