Por Lima Barreto (1911)
Aquele chefe de polícia era bem um chefe de polícia do tempo. Ingênuo e submisso, por necessidade de submissão agradecida, procurava onde aplicar suas terríveis funções. Queria de qualquer modo mostrar energia e provar ao protetor que estava atento, que velava pela sua segurança e respeitabilidade.
As visitas tinham voltado à sala de visitas; e, na sala do “buffet”, a um canto, ficaram ainda a tia de Cogominho e algumas outras senhoras. O Dr. Chaveco entrou de novo, batendo com a bengala no assoalho, ao jeito do banho de um pastor bíblico:
— D. Romana — disse ele — me esqueceu uma coisa...
— Que foi, Doutor?
— A modo que não levei uns rebuçado pros meninos.
— Pois não, Doutor.
— Tem artéa, siá Dona? O Juca tá cum tosse.
— Não, Doutor. Quer de amendoim? — Serve, Dona.
Sentou-se a uma cadeira, enquanto a velha senhora tratava de preparar o embrulho de balas. Bogoloff, que viera tomar um copo de cerveja, acercou-se do chefe e indagou, ao vê-lo com chapéu e bengala:
— Já vai, Doutor?
— Já moço; Drumo c’os pintos. É mais bom pra saúde.
— Mas, no seu cargo, nem sempre é possível, Doutor.
— Quá, moço! Tenho os auxiliá que faz minha vez.
Chaveco consertou melhor o busto e indagou convictamente:
— Cá dê o malandro?
— Que malandro, Doutor? — fez Bogoloff.
— Aquele que se embriagou-se.
— Não é malandro, Doutor. É amigo da casa. Um rapaz generoso...
— Como se chama?
— Lucrécio.
— De quê?
— Barba-de-Bode.
Riu-se gostosamente e disse com toda a sua simplicidade roceira:
— Bem posto... O cabra tem mesmo barba de bode!
D. Romana voltou com o embrulho; Chaveco agradeceu, levantou-se, despediu-se e disse para Bogoloff:
— Qué i cô nós, moço? Não paga nada. Intomove tá na porta.
O Dr. Bogoloff não podia deixar de aceitar o convite. Lançara-se nas altas camadas, esperava tirar dela os melhores proveitos e o momento era azado para estreitar os conhecimentos com aquela alta autoridade que tão obsequiosa se mostrava.
— Aceito, Doutor.
— Bamo
Juntos atravessaram as salas e, em breve, estavam na rua, onde um luxuoso automóvel esperava entre a fila de muitos outros. Sem esperar que o ajudante abrisse a portinhola, Chaveco a foi abrindo e convidou:
— Trepe moço!
Logo que o russo entrou e o chefe também, o motorista perguntou-lhe o destino do carro:
— Pra onde vosmecê qué i, moço?
O automóvel rodou e os passageiros, depois de bem se colocarem nos assentos puseram-se a conversar. O chefe de polícia perguntou:
— Como é seu nome, moço?
O russo disse-o e o chefe encheu-se de admiração infantil:
— Ué! gentes! Que nome! é de santo?
O doutor russo explicou-lhe que era ou podia ser, mas o doutor Chaveco em pequenas risadas, mantinha a sua dúvida.
Afogada no luar, a cidade oferecia um aspecto de paz serena e tranqüilidade satisfeita. Pelas ruas, não havia ninguém e aquelas casas inteiramente fechadas, mudas, tranqüilas, enchiam os dois passageiros de uma suave satisfação. Era como se esquecêssemos que, dentro elas, havia muita angústia, muito tormento, muita paixão e ódio. Verificando isso, tinha-se vontade de que todos nós, toda a humanidade, viesse a dormir assim, pelo séculos em fora...
O doutor Chaveco cochilava na almofada e Bogoloff lembrou-se da terrível polícia russa, contemplando aquele inofensivo chefe, aquele doce homem, simples, em que havia tanto de criança. Como era que naquelas mãos estavam tão terríveis poderes e como era que aquela bondade nativa não se fazia sentir em todas as rodas do mecanismo policial?
Recordou-se também do azedume com que as autoridades policiais o trataram quando aportou ao Rio. Já começavam a desembarcar os passageiros de terceira classe, quando um empregado de bordo veio chamá-lo. Prontamente seguiu-o e achou-se em presença de um homem agaloado, que lhe perguntou:
— Como se chama?
O intérprete que estava a seu lado traduziu e Bogoloff respondeu:
— Gregory Petrovich Bogoloff.
O homem da polícia marítima pediu então que lhe escrevesse o nome no papel. Esteve olhando as letras, e por fim, indagou:
— Qual é a sua profissão?
Com o auxílio do intérprete, Bogoloff pode responder:
— Sou professor.
O homem pareceu não se conformar com a resposta; olhou o imigrante muito e perguntou abruptamente:
— Você não é “cáften”?
Logo que Bogoloff percebeu o sentido, ficou indignado e disse:
— Por quê?
O homem da polícia replicou muito ingenuamente:
— Estes nomes em “itch”, em “off”, em “sky”, quase todos são de “cáftens”. Não falha!
Disse-lhe o russo então que não era, nem nunca tinha sido, mas o homem não acreditou e insistiu:
— Se você não é “cáften”, é anarquista.
Houve muito trabalho por parte do adventício para tirar a autoridade da sua singular idéia:
— Estes nomes em “itch”, em “off”, em “sky”, polacos e russos, quando não são “cáftens” são de anarquistas.
Mostrou Bogoloff os documentos; e, afinal, depois de muita hesitação por parte da autoridade pode pisar a terra aonde viera procurar liberdade e sossego, mais que fortuna e felicidade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.