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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Atirou uma cusparada a um canto e entrou no banheiro. Ao jorro d'água sentiu um choque violento e recuou espantado, com a mão sobre o coração. "Não bebo mais!" exclamou, como num juramento e, curvado, meteu-se sob o chuveiro.

CAPÍTULO IX

Quando saiu encontrou a sala de jantar vazia, já todos os trastes haviam sido retirados; ficou a olhar, distraído, até que Felícia apareceu com o café. Tomou-o a pequenos goles, com repugnância, sentindo-o muito quente, a escaldar-lhe o estômago. Ouvindo os passos arrastados da mãe teve um estremecimento e pousou a xícara na janela, receoso que lhe caísse da mão trêmula. A velha mantinha o seu ar de bondade, e, como se nada houvesse acontecido, disse-lhe:

— Estive guardando a tua roupa. E os livros?

Àquela meiguice, toda de perdão, ainda mais se lhe agravou o vexame.

— Podem ir na cesta.

— Os homens ainda têm uma barrica; se queres...?

— Pois sim. Já estão no meu quarto?

— Não, estão ainda na sala. Deixei fora o terno azul e a tua roupa branca está no quarto de Violante. É melhor que te vistas já para mandarmos o resto nas carroças.

— Sim, senhora.

Foi para o quarto da irmã. Se houvesse voltado o rosto teria visto o ar enternecido com que a velha o acompanhava. Encontrou toda a sua roupa no chão, sobre um jornal, e, vestindo-se, ouvia os passos da velha no quarto contíguo.

Quando saiu já Dona Júlia, com a sua capota de vidriIhos e o seu vestido de merinó, dava ordens à Felícia. Iam indo para as carroças as tinas, os arames em que secavam as roupas, as galinhas, amarradas pelos pés, a gaiola do gaturamo, que esvoaçava assustado e, num saco, no canto da casa, o gato miava desesperadamente, rebolcando-se. Dona Júlia calçando as mitaines cerzidas, disse, d'olhos baixos, tímida:

— Olha, meu filho, eu vou dizer adeus a esta gente aqui do lado, não custa. Não sei que parece sairmos assim. Descansa que ninguém nos visita. Esta gente é boa... Lá os outros... que Deus lhes acrescente.

— Mamãe pode ir, eu não vou. É tudo a mesma súcia.

— Pois sim. Então, até já.

— Mas não se demore: precisamos seguir para que os homens não fiquem à nossa espera.

— Sim. É só um adeus.

Paulo, de mãos enfiadas nos bolsos, passeando ao longo da sala vazia, enquanto os homens retiravam os móveis do seu quarto, pensava em Ritinha: a mulata obsediava-o. Foi ao quintal e deu com Felícia agachada, desenterrando um pé de arruda.

— Vais levar isso, Felícia?

— Então, nhonhô? Arruda é muito bom. A gente deve ter sempre em casa um pé de arruda para uma dor. E, com a planta na mão, ergueu-se e foi acomodá-la em um vaso de barro.

— Vê lá! não esqueças por aí alguma coisa. Olhe os homens. Varre a casa e seque logo. Tomas o bonde na Estrada e segues. Sabes onde é? — Então, nhonhô? Uai!

Dona Júlia apareceu à porta da rua.

— Vamos, Paulo.

O estudante tomou o chapéu e saiu. Uma das carroças já estava cheia, com a grande mesa suspensa ao fundo, toda enleada em cordas; duas outras esperavam. A vizinhança estava agitada: mulheres às janelas, crianças às portas, olhando. Paulo segredou:

— Vamos para o outro passeio, mamãe; e atravessaram a rua.

Uma mulher gorda, esborrachando à janela o seio espapaçado, disse: "Seja feliz!" "Obrigada", agradeceu Dona Júlia. "Lembranças a Violante... E não se esqueça da gente. Apareça."

Paulo sentia o sangue subir-lhe às faces como se o estivessem injuriando. Das janelas acenavam adeuses, Dona Júlia correspondia; ele, d'olhos baixos, mal tocava no chapéu, muito cosido à mãe, brincando com a bengala. Quando voltaram a esquina sentiu um grande alívio. A velha caminhava lentamente, deslumbrada com aquele esplendor, ela que, tão raramente, deixava a sombra da sua casa, vendo o sol apenas no quintalejo ou no trecho da rua.

Os pesados caminhões, que entravam para os armazéns da Estrada, causavam-lhe medo. Detinha-se de instante a instante agarrando-se ao braço do filho, e diante da estação, atropelada pelos que transitavam, entre carros e tílburis, ficou estonteada, sem saber dirigir-se e foi necessário que Paulo lhe desse o braço levando-a para a calçada onde deviam esperar o bonde da Lapa.

Sentia a vista perturbada com a vida tumultuosa da praça; a claridade intensa ofuscava-a, os ouvidos zuniam-lhe. "Que barulho, minha Nossa Senhora!" Junto a um quiosque, vários homens descalços, em mangas de camisa, discutiam e, como um pequeno, a correr, esbarrasse com ela, Paulo revoltou-se; a velha, porém, serenou-o.

— Deixa, é uma criança; não foi por querer.

O bonde apareceu. Entraram e ela, antes de sentar-se, voltou-se para o lado da casa que deixara, suspirando. Estou só pensando em Violante... e, depois dum silêncio, perguntou baixinho: Soubeste ontem alguma coisa?

— Mamede disse-me que está na pista do cocheiro.

— Que cocheiro?

— Do carro em que ela fugiu.

— Foi de carro!?

— Naturalmente.

Calaram-se. O bonde fez uma parada perto da Rua do Núncio. para a Muda.

— E se prendessem o cocheiro? Ele deve saber onde ela está. — Mamede vai ver.

(continua...)

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