Por Coelho Neto (1890)
... Quando foi representado o drama Romeu e Julieta, Shakespeare... E o estômago a pensar em costeletas enquanto o espírito rememorava episódios da vida acidentada do poeta de Stratford. Consolava-se com certo desvanecimento lembrando-se de quantos, no começo da vida literária, haviam sofrido as mesmas
torturas e em climas ásperos, tiritando, tarantulamente, à neve. Ele ao menos, tinha a benignidade do clima paradisíaco, sem invernias que o encarangassem ou congelassem, como acontecera aos soldados de Napoleão na Rússia, e tinha a esperança de vencer grandes prélios literários, impondo-se à Pátria e ao mundo com os períodos da sua pena.
Datam dessas duas famintas semanas os primeiros cantos do "deslumbrante" poema em prosa: Guanabara, mito da criação do mundo americano segundo a tresloucada imaginação de Anselmo.
Num domingo, à tarde, reunindo os companheiros no mirante, o autor procedeu à leitura do poema magnífico, estrondoso de adjetivos. Lins comparou-o à Teogonia de Hesíodo, Duarte colocou-o a par da Divina Comédia. Ruy Vaz, entretanto, desafinou no coro encomiástico, emitindo um juízo severo, que foi a condenação da obra-prima.
Quando Anselmo terminou a leitura, o romancista, acendendo um cigarro, ponderou:
— Acho o teu poema por demais cerebrino; não é propriamente uma concepção, é um delírio intelectual ou antes: não é o produto de uma emoção estética, é a resultante mórbida de uma superexcitação. Em palavras mais claras: o teu protagonista, esse Anhangá merencório, subiu do abismo do teu estômago. Um bife com petits pois bastava para fazer desse revoltado o mais pacífico dos anjos. O cérebro, meu amigo, é escravo do estômago. Do nada só pode sair o nada, disse o velho Lear a Cordélia. A crítica, mais tarde, quando analisar o teu poema, se tiveres fome bastante para o concluir, há de dizer, com azedume, que eras um pessimista da casta biliosa dos Schopenhauers, sem perceber que a tua filosofia sinistra não veio de uma interpretação sistemática, Senão de uma fome implacável e desesperada. Lê Epicuro e aprende os segredos do bem viver. O teu poema tem belezas, mas atordoa.
— Achas que não presta?
— Não, acho-o superabundante: tem a desconexão de um delírio — E se eu retocá-lo?
— Come primeiro. Antes de tomar o buril procura um talher; em vez do pó de diamante, atira-te à farinha seca. Come. Com a digestão tranqüila estou certo de que hás de ver as agudas arestas do teu poema. Vai a um frege! A inanição alucina.
Não tomes por inspiração o que é apenas desvairo de inanido. Vai a um frege.
— Sim, isso é bom de dizer. Como queres que eu vá a um frege, se nem cigarros tenho?
— Eu tenho, toma; ofereceu o Toledo.
— Grande coisa o talento! — exclamou Anselmo atirando uma baforada ao ar.
— Grande coisa! — repetiu Ruy Vaz.
Toledo arregalou os olhos e meneou com a cabeça.
O céu estava cor de chumbo. Nuvens grossas, pesadas, rolavam com lentidão, amontoando-se; um vento morno soprava e, como se não bastasse aos pulmões, tinha-se uma sensação abafada de asfixia como se aquela abóbada viesse caindo pouco a pouco, sufocando, oprimindo.
Nuvens de poeira encobriam a cidade sob um véu denso. Pombos voavam atordoados, fugindo à tormenta próxima. Os silvos das locomotivas vibravam com maior intensidade. E surdos, longínquos, ameaçadores, trovões roncavam.
A Tijuca estava nublada, nuvens fluíam em névoa tênue como fumo esgarçado e a montanha ia aos poucos desaparecendo como se o céu houvesse baixado sobre ela.
Coriscos zebravam a densidão do espaço e escurecia rapidamente em crepúsculo sinistro. O ar tornava-se mais pesado, rarefazia-se, posto que, de ponto em ponto, em revoluteio, uma tromba de poeira espiralasse.
Vinham, de muito longe, os sons de um sino. Pelos quintais mulheres recolhiam, à pressa, a roupa que espadanava nas cordas. A cidade foi desaparecendo encoberta por uma bruma pesada que vinha avançando rápida. Toledo, com os olhos alongados, estendendo a mão, anunciou:
— Aí vem a chuva.
Ouvia-se como um ruflo e, quase no mesmo instante, grossas gotas bateram nos telhados secos, depois a chuva caiu a jorros, com rumor e um cheiro forte de terra ardente subiu.
Os rapazes precipitaram-se para a sala borrilados e um formidável trovão estrondou reboando longamente. Rajadas violentas batiam nos vidros, invadindo a sala. O vento rugia.
Toledo, mais cuidadoso, correu a descer as vidraças da sala da frente e a tempo porque já andavam papéis voando.
Dona Ana, em baixo, bradava à Leonor, que limpava o ralo do quintal para que as águas não empoçassem e a escuridão fez-se mais densa, alumiada, de quando em quando, pelos lívidos relâmpagos.
As gárgulas jorravam com ímpeto, a rua começava a encher-se quando Anselmo, encostando o rosto aos vidros empanados pela chuva, pôs-se a pensar na terrível noite que lhe estava reservada. Como havia de ficar sem uma xícara de café, ao menos, e adoentado, febril, sentindo tamanha fraqueza que as pernas tremiamlhe e um suor viscoso ressumbrava-lhe das mãos?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.