Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

E era do mal livrar-se. Começava por um jogo de virtude. Enxugava em ar de seriedade os lábios úmidos; as pálpebras, de longas pestanas, baixavam sobre os olhos, sobre o rosto, viseira impenetrável do pudor. Convidava à adoração colhendo aos ombros o manto da candura, refugiando-se na indiferença hierática das vestais. Depois, uma pontinha de ingênuo sorrir, olhos fechados ainda; gradação de infantilidade que substituía à vestal uma criança esquiva e tímida, rindo, voltando a cara. Os olhos, por fim, aventuravam-se de relance, uma temeridade de noiva possível, nada mais, volvendo ao retraimento cismador. Depois, a contemplação confiada; romance inteiro, linha por linha, de uma virgindade. Até que súbito, meu castíssimo Barreto! aquela virtude, aquela meiguice, aquela esquiva candura, aquela nubilidade melancólica, aquela fisionomia honesta, pesarosa talvez de ser amável, fendia-se em dois batentes de porta mágica e rodava em explosão o sabbat das lascívias.

Os olhos riam, destilando uma lágrima de desejo; as narinas ofegavam, adejavam trêmulas por intervalos, com a vivacidade espasmódica do amor das aves; os lábios, animados de convulsões tetânicas, balbuciavam desafios, prometendo submissão de cadela e a doçura dos sonhos orientais. Dominava então pela oferta abusiva, de repente; abatia-se à derradeira humilhação, para atrair de baixo, como as vertigens. Ali estava, por terra, a prostituição da vestal, o himeneu da donzela, a deturpação da inocente, três servilismos reclamando um dono; apetite, apetite para esta orgia rara sem convivas!

Não escolhia amores. Era de todos como os elementos; como os elementos, sem remorso das desordens e depredações. Franqueava-se à concorrência. Havia lugar para todos à sombra dos cabelos castanhos, que lhe podiam vestir as copiosas formas, fartos, perpetuamente secos, que ela sacudia a correr como uma poeira de feno.

Aquele modo de olhar, passando, de Ângela! clarificou-me a imaginação das sombras de terror em que me enleava o alvoroço do acontecimento da tarde e a vista horrível, do cadáver.

Depois da façanha, Bento Alves, o herói, sumiu-se; comentavam-lhe demais a bravura. Nem aos exercícios do campo compareceu.

Bento Alves era um misterioso. Misteriosos são no colégio os que não andam a atravancar o espaço com as gatimanhas das suas expansões. Freqüentava as aulas superiores; sem que fosse um estudante de rumoroso mérito, fazia-se respeitar dos mestres e condiscípulos. Sisudo como certos rapazes de inteligência menor que se arreceiam do ridículo, não somente pela sisudez impunha-se ao respeito. Consideravam-no principalmente pela nomeada de hercúleo. Os fortes constituem realmente uma fidalguia de privilégios no internato. No tumulto da existência em comum, fundem-se as distinções de classe na democracia do coleguismo: as cambiantes de fortuna apagam-se no figurino geral das blusas pardas. Os títulos de superioridade prevalecem primitivamente no critério semibárbaro dos verdes anos; o punho válido chega a fazer vantagem sobre a própria vantagem do favoritismo.

Alves não alardeava de forte; evitava disputas, não jogava o pulso, preferia exercitar-se à ginástica sem espectadores. Às vezes, por ginástica sem espectadores. Às vezes, por brinquedo, cingia o braço a um colega entre o polegar e o médio e fechava-lhe sob a manga um bracelete roxo dolorido. Aqueles que se sujeitavam ao formidável ensaio de tatuagem por compressão, acercavam-se, Daí por diante, de Bento Alves com os escrúpulos da mais reservada prudência.

Entretanto era mole, da preguiça monumental dos animais pujantes. Veloz, detestava a carreira; alegre, fugia aos folguedos. Gostava do seu sossego; desviava os incômodos da convivência distribuída, transbordante dos estimados. Não se falava dele no Ateneu. Limitavam-se a temê-lo em silêncio.

Depois da valorosa façanha a que o tinha levado a casualidade, teve de verse herói à força. Um desespero. Se algum companheiro caia na tolice de dizer-lhe alguma coisa relativamente ao crime do jardineiro, Bento Alves rasgava a conversa com um monossílabo de impaciência, encrespando-se como um javali. Apesar de tudo foi o pobre modesto percutido, laminado sobre a bigorna da notoriedade.

Felizmente o barulho da entrada para o Ateneu de um moço célebre veio modificar a odiosa voga.

Acabava de matricular-se Nearco da Fonseca, pernambucano de ilustre estirpe.

Apresentou-se com o pai, vulto político em galarim no tempo. Era um mancebo de dezessete anos, rosto cavado, cabelos abundantes, de talento não comum, olhar vivo, moroso de importância, nariz adunco, avançado, seco, quase translúcido como um nariz de vidro. Franzino como a infância desvalida, magro como uma preleção de osteologia, surpreendeu-nos, entre outras, uma recomendação a seu respeito, pelo próprio diretor às barbas do pai: — Nearco da Fonseca era um grande ginasta!

Talentoso que fosse, concebíamos, se por nada mais, ao menos pela cabeleira... Mas um ginasta aquele espectro da necessidade!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3334353637...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →