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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

- Anda comigo, Aristo. Partamos para a independência feliz.

E partiram, Aristo e a fada, para uma região fantástica e surpreendente.

Céu vasto, de transparência inexprimível. As alvas nuvens, por uma superfluidade de asseio iam, como esponjas, esfregando, uma a uma, as safiras limpas do céu. Cobria-se a terra de pedraria, poeira cintilante de gemas; erguiam-se taludes de facetado cristal. Estranha vegetação brotava. Perfeita floresta de ourivesaria. Troncos de ouro lavrado e folhagem soldada a fogo. Através dos ramos reluzentes, a viração ia e vinha, fria do contato metálico da selva, sem que o mais débil galho tremesse, sem que a mínima flor vacilasse no hastil. Às vezes, a um sopro mais forte, soltava-se um ramúsculo com um estalido seco de agulha partida, ou uma flor desarmava-se, e as pétalas caíam, produzindo o barulho de moedinhas pelo chão. Nenhum outro rumor, nem um perfume, nem uma vida, em toda a paisagem, imóvel e rutilante.

Desaparecera a fada com o rosto em risos e o vestido celeste, que descansavam a vista da crueza das cintilações.

Brilhava no ar, terrivelmente, a claridade verde dos reflexos combinados das safiras do céu e do ouro da floresta.

Horas passadas, Aristo teve fome; exacerbou-lhe a sede a secura cáustica do ambiente. Descobriu pomos no arvoredo, inchados de maturidade, e gotas de orvalho no cálice das flores. Mas, quando quis trincar os pomos, quebravam-se-lhe os dentes contra a rija resistência da casca dourada, e bebendo orvalho, puríssimos diamantes aliás, foram-lhe as arestas da pedra, ensangüentar o esôfago.

- Maldição! maldição! Que me trouxeram ao inferno da pureza e da inflexibilidade!

A fada, aparecendo:

- Eu sou, pobre Aristo, a fada Ironia. Guiei-te à pátria inexorável do teu orgulho.

Raul Pompéia

CORRESPONDÊNCIAS ÍNTIMAS

I

Meu caro X

Estou casado!

Com certeza não acreditas. Casar-se é aposentar-se, casar-se é acorrentar-se. Pois eu, o teu amigo Z, o mais ativo empregado dos negócios da pândega, o mais ardente camarada da vida de liberdades, renunciei heroicamente a todas as pompas do Satanaz, que, tu não ignoras, tanto aprecio e... aposentei-me, acorrentei-me, casei-me!...

Refreia por momentos a tua impaciência, que saberás em pouco como foi que me resolvi, ou melhor, que me resolveram a tomar no mundo uma posição tão definida e, por isso mesmo, tão incômoda.

E a minha é duplamente incômoda. Imagina. Eu sou quem sou... Tenho de passar a ser quem não sou. Não será fácil, bem sabes. A menina não traz dinheiro... E pretende ser, entretanto, assim uma espécie de princesa de Golconda.

E eu que me agüente no balanço, quer dizer, no casamento.

Felizmente, parece não ser ciumenta a minha metade.

É porque a pobrezinha deposita em mim uma confiança cega. Também é o que faltava... Ciumenta, sem dinheiro... Abóboras!...

Tu ainda não te casaste, meu feliz X... Eu, a cavalo no minguante prateado da minha lua-demel, estou aqui, do meu céu estrelado, a invejar-te a sorte. Imagina o que não é o casamento... O casamento, digo mal, o casamento, sem dinheiro.

O dinheiro é um bálsamo dourado que cura tudo, até as feridas domésticas. Os laços de Himeneu feitos de ouro são elásticos bastantes para não manietarem um gênio como o que possuo. O teu Z, com uma esposinha rica continuaria a ser o teu Z só com algumas dívidas de menos. Eu dar-lhe-ia até licença de ter ciúmes. Sim; que o ciúme das moças ricas raras vezes é profundo.

As meninas ricas aprenderam nos romances a arte de ser esposa. Sabem ter o coração no peito, como uma flor na jarra. Dispõem dele à vontade e são felizes. Podem dá-lo ao marido no começo. Depois, com o tempo, libertam-no e o deixam voar, tão solto que nem Cupido no Olimpo. A vida do lar deve ser então um bosque divino, verdejante, respirando chilros de passarinho e murmúrios alegres. A mulher não tem ciúmes, o marido não tem peias. Um paraíso.

Mas falte o dinheiro...

E este é o meu caso...

A minha pequena não tem ciúmes; mas eu prevejo que as há de ter. Não sei o que será...

Por minha parte, não estou contente. O meu casamento pegou-me pela gola... Não admito.

Olha, meu caro X, talvez haja no tálamo uma coisa a sorrir-te sedutora: a lua-de-mel. Não te iludas, menino. A lua-de-mel é uma mentira inventada por um poeta que tinha filhas casadeiras.

No firmamento nupcial só há uma noite de plenilúnio. A minha lua-de-mel, que apenas começou, já está acabada... ora avalia... com uma esposa sem... dinheiro!

Adiciona a tudo isso o gosto que tem minha mulher de andar garridamente enfeitada, não esqueças que não passo de um quartanista que tem mesada fornecida pelo velho, proprietário de um pequeno sítio, e terás feito uma idéia de quão risonho é o futuro do meu lar...

Queres que diga tudo?... Ainda não fiz chegar ao meu velho a notícia!...

Tenho resmungado bastante. Agora vê a causa do meu cavaco.

(continua...)

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