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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Depois desta manifestação do seu saber matemático, o futuro chefe da seção precipitou o seu discurso, rematou-o, dizendo:

“ Nas ligeiras palavras que disse, procurei esboçar o retrato deste homem, não de perfil nem de frente; mas, como Pelino Guedes , em obra conhecida, de fronte voltada para o céu, tentei retratar esse gigante político, que traduz perfeitamente a ação de um passado que se afirma no presente, como refletirá sobre o futuro, quando o historiador tiver que tratar de todo esse período da nossa vida

republicana. Saudemo-lo, senhores! Ele é O MAIS DIGNO!”

Houve palmas, vivas e Numa abraçou-o, dizendo-lhe ao ouvido:

— Estiveste muito filosófico.

Foram oferecidos em seguida mimos e Clódia, filha do Dr. Henocanti, ofertou um ramo de flores, com doces e capitosas palavras.

Quitério tirou a cabeça de dentro do tórax e ficou estático diante da sedosa alvura da moça, da sua elegância, do seu langor, da sua atração fortemente sensual.

— Quem é?

Não lhe responderam; Neves Cogominho falou com grande simplicidade, não sem comoção e, por fim, entusiasmado com o entusiasmo dos outros, agradeceu a homenagem com períodos repassados de sentimento.

Aos circunstantes foram oferecidos “chopps” e servidos em uma sala interior. Quase houve briga, quase houve bofetadas. As mãos passavam por cima das cabeças, por entre os corpos, por debaixo dos braços de outrem; e os copeiros não sabiam como servir toda aquela gente sequiosa.

Canto Ribeiro e Inácio Costa, vendo que a coisa podia degenerar em conflito, pois já havia uma disputa em um canto, gritaram:

— Vamos, rapazes! Os bondes vão partir!

Foram-se e, na sala, encostado ao balcão improvisado de “buffet”, ficou unicamente Barba-de-Bode.

Encostou-se e disse com gloriosa satisfação:

— Sim, agora posso beber. Não sou desses “avançadores” que só vêm às festas para beber.

Em seguida, voltou-se para o copeiro e fez familiarmente:

— Ó amigo! Dá-me uma “joça” dessas!

Sorveu o copo quase inteiramente de um trago, e foi cheio de loquacidade que pronunciou:

— Vocês sabem, eu cá sou de casa. Não preciso de manifestações para entrar... O homem é meu amigo... Todos esses tipos são engrossadores.

Bebeu o resto que estava no copo, e pediu:

— Mais um “chopp”.

E continuou loquaz e jovial, jovialidade e loquacidade a que não era estranho o álcool que já bebera durante o dia todo. Continuou:

— Eu cá sou amigo... Não sou um dia de um, um dia de outro. Mais um “chopp”.

Bebeu e emendou:

— Vocês viram o que se deu com o Dr. Macieira... Ele está aí e não me deixa mentir... Quando o “velho” lhe andava fazendo fosquinhas, quem é que o procurava? Um ou outro. Eu cá não, sempre estive a seu lado. Mais um “chopp”.

Os copeiros serviram e ele aduziu sentenciosamente:

— Esses homens são adulados, quando estão por cima; mas, logo que rosna qualquer coisa, tudo foge. É isto. Vamos beber!

Falando e bebendo, Lucrécio sorveu bem uma dezena de copos de cerveja; mas, quando ia ultrapassá-los, passou pela sala o Dr. Macieira. Barba-de-Bode correu-lhe ao encontro:

— V. Exa. dá licença?

— Que é que você quer, homem? Já bebeste como o diabo, hein?

— Alguma coisa. Queria agora beber à saúde de V. Exa. — Deixa isso para mais tarde. Agora...

Lucrécio deitou sobre o poderoso político um súplice olhar de desgosto e Macieira não achou mau dar uma demonstração de tolerante bondade pelos humildes. Disse com bonomia:

— Bem! Vá lá!

— Sr. senador Macieira — começou Lucrécio. — Neste momento solene...

E parou como se buscasse palavras, termos, imagens. Esteve um instante calado, com a boca fortemente fechada: houve um imperceptível movimento nos músculos da garganta, movimento de quem tenta engolir alguma coisa. Por esse tempo, começaram a vir da sala convivas, damas e cavalheiros, curiosos de travar conhecimento com a eloqüência de Lucrécio.

Ao ver tanta gente à sua roda, animou-se e continuou: — Sr. Senador — mas não pode acabar. Veio-lhe um forte vômito e, antes que pudesse correr à janela, despejou-o ali mesmo, borrifando o peitilho do famoso senador e a barra das saias daquelas grandes damas. Lançou, lançou tudo o que tinha no estômago.

O triste final do discurso causou hilaridade, mas houve quem se indignasse. Entre estas pessoas quem mais se indignou foi o Dr. Chaveco. Logo que soube, correu à sala do “buffet”.

— Tá bebo... Chama aí um poliça... Mete ele no xadrex.

Houve um grande esforço por parte dos presentes para que não fizesse prender o Lucrécio.

— Mas sô chefe! O homem bebe... que faço então? Neves Cogominho, Macieira, Numa, Souza, Pieterzoon, Costale e todas as senhoras interessaram-se, conseguindo dissuadi-lo de efetuar a diligência. Lucrécio foi levado para um dos quartos dos criados; e o Dr. Chaveco, apanhando o chapéu e a bengala, sem castão nem ponteira, despediu-se:

— Tá bão.... Inté manhã!

(continua...)

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