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#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

— Se você fosse mais moço, aconselharia até, porque se projetam grandes obras, no Rio; mas, já tendo passado dos cinqüenta, é fazer o que parecer melhor a você. Em todo o caso, vou pedir ao Coronel Carvalho uma recomendação.

Durante esse longo lapso de tempo que vivera fora da família, recebera vagas notícias de seus pais e irmãos. Sabia que os pais tinham morrido e quase todos os irmãos; e que o único que lhe restava era remador da Capitania do Porto e mantinha a irmã solteira, a única que tivera. Moravam lá para a Saúde.

Meneses embarcou contente; ia afinal realizar a sua vocação. Até agora, não a tinha encontrado; mas, desde que vira aquelas máquinas e maquinismos, sentira outra coisa dentro de si. Não deixou, entretanto, de levar a mala dos ferros de dentista e a carta de recomendação.

No dia seguinte, depois de uma noite insípida no hotel, foi, indagando daqui, informando-se dali, até à Capitania do Porto.

Perguntou pelo remador seu irmão e, sem dificuldades, lhe informaram que, em breve, ele viria. Não esperou muito. Um homenzarrão forte, tostado, com um vestuário de marinheiro, chegou-se ao porteiro e perguntou:

— Quem é que me procura?

O porteiro apontou Meneses, sentado a um banco, e disse:

— É aquele senhor ali.

O irmão não deu muitos passos em sua direção; Meneses ergueu-se logo, correu-lhe ao encontro, perguntando:

— Você não me conhece mais?

— Não, senhor.

— Sou o seu irmão Juca.

Abraçaram-se muito, e o irmão Leopoldo foi dizer ao porteiro quem era e o que havia.

— Há trinta anos! — exclamou o porteiro. — Você devia ser muito criança — hein, Leopoldo?

O marinheiro respondeu:

— Devia ter cinco anos.

— É verdade — informou Meneses.

Leopoldo foi arranjar licença para acompanhar o irmão que não via há trinta anos; e Meneses ficou a conversar com o porteiro sobre coisas da roça.

— Ah! Então o Senhor é engenheiro?

— Sim, mas mecânico. Trabalho, porém, com o nível e com o trânsito. — Agora, deve haver muito trabalho para engenheiro; vão-se fazer grandes obras... Aproveite, doutor!

— Trago aqui uma carta para o Deputado Sepúlveda. Tem influência?

— Muita! É o pensamento da política mineira... Não lhe deixe a aba do fraque, doutor!

A conversa foi interrompida pela chegada de Leopoldo, que obtivera a licença. Pelo caminho, porém, contou a Meneses como todos morreram; como ele se empregara na Capitania e casara a irmã com um colega, o Pedro Rocha, rapaz bom, bem comportado, do qual tinha um sobrinho, Edmundo, com seis anos, e com o qual morava, na rua do Livramento.

Chegando à casa do cunhado e do irmão, a sua irmã Etelvina, que ele deixara com sete ou oito anos, não o reconheceu; e, em breve, tendo-lhe chegado o marido, foi uma festa de que só não participou o sobrinho de seis anos, sempre de nariz sujo e vestes rotas, arredio e agarrado às saias da mãe, mas sem querer tornar a bênção ao tio.

A irmã logo convidou o irmão mais velho a ficar com eles. Havia um barracão no quintal, que, bem reparado, podia servir para Leopoldo, e o quarto deste ficaria para o Juca. Enquanto não estivesse em estado, ele teria a paciência de dormir com Leopoldo. Meneses aceitou o alvitre, dizendo:

— Se eu tenho que gastar em outra parte...

Logo foi interrompido por todos:

— Oh! Não, não Juca!

— Não é esse motivo! — fez o cunhado.

— Não seja essa a dúvida, mano Juca.

Meneses ficou muito agradecido e acrescentou:

— Mesmo porque quero que um de vocês consiga meios e modos de falar ao doutor Sarmento Sepúlveda, na Câmara. Tenho uma carta para ele.

O cunhado logo exclamou:

— O quê! É um bicho.

(continua...)

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