Por Coelho Neto (1890)
Nesse casarão, que tinha a gravidade claustral de um mosteiro antigo, dormindo um sono pacato à sombra quieta do arvoredo, vivia o visconde durante os meses chamados de inverno. Casto e sóbrio desde que, na Alemanha, ganhara certo mal que o trazia constantemente pelos consultórios e sempre a bradar contra as mulheres, observava rigorosa dieta, não indo além da canja, do frango e de um regrado copo de Bourgogne. Era um asceta elegante.
Para que o não vencesse a sedução demoníaca, atordoava-se à mesa, que era lauta e franca. Não queria ouvir rumor de saias; as próprias negras, que passavam como fugitivas sombras pelos imensos corredores reboantes, colhiam cuidadosamente os vestidos para que nem roçassem nas tábuas enceradas. O fidalgo detestava a mulher, tinha horror ao feminino, à sua mesa só homens apareciam e tantos que, dois expeditos copeiros, alípedes e solícitos, eram constantemente reclamados de um extremo a outro e acudiam com as imensas travessas e com as terrinas incomensuráveis. Não raro um conviva desconhecido fartava-se e saía sem ter trocado uma palavra, sem mesmo saber a qual daqueles homens, que chalravam e devoravam, devia a fineza de tão delicado almoço e o visconde, achando aquilo patriarcal, ficava satisfeito, ria, chupando, com ares saciados, a asa loura do frango.
Ah achava Ruy Vaz conforto e fartura. Entrava de fronte alta e os convivas acatavam-no, porque o visconde o considerava, não o dispensando à mesa, querendo-o sempre perto para as tremendas discussões.
O visconde era lido em Cantu e discutia, com ardor, a história, tendo grande simpatia pelos tiranos. Luiz XI era o seu homem. À mesa a sua opinião era como um oráculo. Luiz XI era o homem da mesa e como, entre os comensais, havia um dotado de excelente voz de barítono, não raro o nome do rei carola era retumbantemente apregoado em uma ária escrita expressamente por um músico misterioso para o possante cantor. Só Ruy Vaz condenava o companheiro fiel de mestre Jacques Coictier. O visconde rugia, espumava; o casarão retumbava e os criados, tremendo, juntavam-se à porta, curiosos daquela desusada cena.
Purpúreo, brandindo a carcaça do frango, o fidalgo citava opiniões e Ruy Vaz invocava autores. Às vezes tornava-se necessária a intervenção de amigos para que os dois homens chegassem a um acordo, ficando, porém, o visconde na sua frase: que Luiz XI era o seu homem e insistindo Ruy Vaz em dizer que ele não passava de um grandíssimo patife.
E o visconde adorava o romancista, justamente porque nele encontrava um adversário. Sucedia-lhe com as opiniões o que a Polícrates sucedia com a fortuna — nunca era contrariado, como o tirano nunca teve desejo que não fosse satisfeito. E o fidalgo revoltava-se, tinha cóleras surdas, não podia sacudir a poeira que pousado sobre a sua erudição, tinha de roer em silêncio o seu frango.
— Homero foi uma besta! — exclamava o visconde; e a mesa em coro: "Uma veneranda besta!"
— Shakespeare foi um plagiário! — e o uníssono dos quarenta talheres: "Foi sim, senhor!"
Era horrível. Ruy Vaz indignava-se:
— Besta! Homero...? Besta é quem o chama. E travava-se a rezinga, mas o visconde sentia-se aliviado, aquilo fazia-lhe bem. Ruy Vaz era um homem bem diferente do barítono. Ah! O barítono...! Certa vez, depois do jantar, sentindo-se o visconde indisposto, chamou-o e disse-lhe:
— Ó coisa, dá umas voltas aí pelo parque, correndo, para ver se faço a minha digestão, que está hoje morosa. Contava o fidalgo com um protesto enérgico, mas desiludiu-se vendo o cantor atirar-se, pelo parque, às pernadas, como um gamo, bufando, perseguido pelos cães. E o visconde, triste quando o viu roxo e gotejando como um chuveiro, chamou-o:
— Obrigado, meu amigo. Sempre me fez bem essa corrida. Hás de fazer agora o mesmo todos os dias depois das refeições. Os médicos recomendaram-me exercícios. E o barítono, esfalfado, ofereceu-se para fazer mais algumas voltas se S. Exa. quisesse.
Ruy Vaz, não — era um amigo leal e um adversário teimoso como convinha.
Anselmo, esse, sem amigos influentes, lançado no grande desconhecido, passeava com orgulho a sua fome. Enquanto o estômago se lhe contraía, em rodas literárias, no fundo obscuro dos cafés, discutia os dramas de Shakespeare, os poemas de Byron, a prosa sonora e rútila de Flaubert, a fina argúcia de Balzac e o sentimentalismo de Musset.
Em torno dele andavam os caixeiros conduzindo pratos que exalavam suavemente e ele, lançando os olhos para as mesas próximas, só via gente comer e aquelas mandíbulas pareciam trincar-lhe o coração. Eram tenros churrascos, entrecostos com batatas; era o rim, era a costeleta, eram ovos e o generoso vinho que passava com um grugulejo por aquelas voracíssimas goelas... Ah! Como ele continha os ímpetos sanguinários! Engolia em seco e continuava:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.