Por Raul Pompéia (1888)
Nos grandes armários havia melhor: peças anatômicas de massa, sangrando verniz vermelho, legitima hemorragia; corações enormes, latejantes, úmidos à vista, mas que se destampavam como terrinas; olhos de ciclope, arrancados, que pareciam viver ainda estranhamente a vida solitária e inútil da visão; mas olhos que se abriam como formas de projéteis de entrudo Mas eu queria a realidade. a morte ao vivo.
Lembrava-me de ter visto um anjinho, entre velas no caixão agaloado, simples carinha amarelenta, sombreada de azul em nódoas dispersas, em mãos crispadas numa fita, cobrindo-se de flores a imobilidade do último sono. Vira ainda uma velha, na essa elevada, uma opulenta velha que morrera sem herdeiros. Ao redor, choravam muito as tochas pranto de cera cor de mel, inconsoláveis, espichando compridas chamas, que pareciam subir ao teto com um filete de fumo. Distinguiam-se bem os dois pés para dentro, em botinas de pano; e o nariz pronunciando-se sob o lenço de rendas.
Isto não era ter visto cadáver. Eu queria o cadáver flagrante, despido dos artifícios de armação e religiosidade, que fazem do defunto simples pretexto para um cerimonial de aparato. O que me convinha era o galho por terra, ao capricho da queda, decepado da árvore da existência, tal qual.
O cadáver do criado estava em condições; com a vantagem do adereço dramático do sangue e do crime, como nos teatros.
Encaminhava-me, pois, para a cozinha e sentia palpitações fortes, abalandome certo modo de agradável pavor. A cozinha do Ateneu, além dos alojamentos da copa, era espaçosa como um salão. Às paredes cintilava o trem completo de cobre areado, em linha as peças redondas como uma galeria de broquéis. No centro uma comprida mesa servia de refeitório à criadagem.
Naquela ocasião havia muita gente perto da mesa. Vi pelas costas pessoas alheias ao estabelecimento. Disseram-me que estava presente a autoridade e tratava de remover o morto. Aquela gente toda devia ser, de costas, a autoridade policial, feição do poder público que eu não discriminava ainda bem, mas já considerava. Caído ao soalho, vi o cadáver sobre uma esteira de sangue.
Guardava ainda a contorção esquerda da agonia; à boca fervia-lhe um crivo de espuma rosada; trajava colete fechado, calças de casimira grossa. Os ferimentos não se viam. Os olhos estavam-lhe inteiramente abertos e de tal maneira virados que me fizeram estremecer.
Alguns minutos depois de minha entrada, chegaram dois sujeitos com uma rede. Os copeiros ajudaram a apanhar o corpo; os homens da rede o levaram.
Impressionou-me para sempre o desfalecimento flácido dos membros, quando levantaram o cadáver, a moleza da cabeça, rodando nos ombros, com um movimento próprio dos que padecem intolerável angústia, e um choque súbito para trás que me gelou o sangue, empinando-se o queixo e o nó da garganta, rasgandose a boca, brusco, como se o ferido vomitasse um resto tenaz da vida.
Após a rede, pela escada da cozinha, saíram todos; eu fiquei. Examinava ainda o chão alagado de sangue quando alguém, passando, afagou-me os cabelos: era Ângela!
— Morió, disse, indicando o sangue, arregalando as sobrancelhas, e desapareceu com o andar de bamboleio.
Primeira vez que reparei que era bonita a canarina. Sim, senhor! E para o demônio culpado de tão horrível, incidente fui de uma benevolência tal de opinião que me nasceram remorsos.
Ângela tinha cerca de vinte anos; parecia mais velha pelo desenvolvimento das proporções. Grande, carnuda, sangüínea e fogosa, era um desses exemplares excessivos do sexo que parecem conformados expressamente para esposas da multidão — protestos revolucionários contra o monopólio do tálamo.
Atirada de modos, como o ditirambo do amor efêmero; vazia como as estátuas ocas; sem sentimentos, material e estúpida, possuía, entretanto, um segredo satânico de graduar os largos olhos de sépia e ouro, animar expressões no rosto que dir-se-ia viver-lhe na face uma alma de superfície, possante, capaz dos altos martírios da ternura e de interpretar os poemas trágicos da dedicação.
Gostava de arregaçar as mangas para mostrar os braços, luxo de alvura, braços perfeitos de princesa, que davam que pensar ao espanador humilde no serviço da manhã. Exposta às soalheiras, revestia-se a cor branca do rosto de um moreno cálido, tom fugitivo de magnólias fanadas, invulnerável aos rigores de ar livre, como deve ter sido outrora a epiderme de Ceres. Ferissem-lhe a tez os dardos corrosivos da insolação, vinha-lhe apenas ao rosto um rubor mais belo, e não lhe tirava mais o sol à mocidade da carne do que à própria terra, sob a calcinação dos ardores: uma primavera de rosas.
Consciente da formosura, Ângela abusava.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.