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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

Quando o relógio que fazia parte dos adornos do dormitório da moça tilintou meia-noite no tímpano oculto por trás de uma requebrada Psique, toda risonha da sua nudez lustrosa de bronze, nessa hora de caminhadas românticas à cata do ideal vedado, surgiu o duque de Bragantina à porta do ninho de Conceição.

Vinha trêmulo de sensualidade. Penetrou no seu pomar de luxúria, medroso como um menino perdido no bosque. Os perfumes do ambiente embriagaram-no.

A luz lasciva da lamparina não iluminava coisa alguma distintamente. Todos os objetos pareciam feitos de nuvem. A meia-sombra, carregada pelo azul-escuro do papel das paredes, aumentava as proporções do lugar, emprestando-lhe uns ares de imensidade.

Envolvido naquele mundo de coisas fantásticas, impregnado, até o âmago dos pulmões de cheiros inebriantes, o duque julgava-se como que suspenso numa alvorada... O seu olhar ia direto a um ponto e absorvia-se todo, sem deixar um relance para sentir a realidade...

Ela estava a dormir... Os lençóis cercavam-na como um ninho de édredon.

Além de pequenina, ela encolhia-se com uma timidez infantil. Cabia toda num beijo. A respiração, compassada pelo tique-tique do relógio de bronze, fugia-lhe tranqüilamente pelas narinas, soando no meio do silêncio da noite como o adejo afastado de um beija-flor. Através da cambraia da camisa que a cobria como uma lâmina transparente de neve sentia-se passar o fogo de um vulcão de puberdade. Pela gola rendada saía até a raiz dos pequenos seios, um busto fidiano de mármore cor-de-rosa, animado pela circulação ardente que formigava-lhe nos veios.

À beira daquele abismo de juventude e sedução, o duque cambaleava de vertigem...

Cada passo que dava era um arrependimento e uma vontade de fugir. A posição inocente da mocinha adormecida causava-lhe terror. Não era seu hábito porém tanta candura fazia-lhe medo. Era pavorosa aquela virgindade.

Mas cada vacilação de fidalgo era um recuo de maré crescendo. Fugia da virgindade, e a sedução arrastava-o. Marchava para a frente como um soldado covarde, aguilhoado pela disciplina. A atração do precipício era irresistível.

O duque chegou até a cama. Inclinou-se para a frente, eriçado como uma hiena. Era terrível aquele velho, inflamado de voracidade. Todo ele estremecia como se houvesse lavas a ferverem-lhe no íntimo. A violência da respiração arquejante ouvia-se-lhe como o chiar interrompido da válvula de uma caldeira. As narinas abriam-se-lhe e baixavam, recolhendo todas as emanações cálidas que subiam do leito...

Contemplou assim, por momentos, a moça adormecida.

Em seguida ajoelhou-se na pele de onça, estendida como um tapete aos pé da cama, pousou os cotovelos no chão, cruzou as mãos e sobre elas deitou as barbas. Era cruel para consigo mesmo. Queria prolongar, isto é, multiplicar a própria ansiedade.

Os cabelos soltos da moça esparramavam-se abundantes pelos travesseiros emoldurando-lhe em ébano o rosto níveo, vagamente risonho.

Este rosto estava voltado para fora, na beirinha do leito, quase pendente, assim como um fruto que vai cair de maduro. Juntinho deste semblante, castamente fechado como certas flores que se contraem durante a noite, estava a fisionomia esbraseada do ardente fidalgo. Era já um delícia incalculável para o duque a respiração morna daquele sono.

Entretanto, uma pessoa que penetrara no quarto muito antes do duque e, sentada num dos ângulos da sala, vira-o chegar, sem que o duque desse pela sua presença, levantou-se da cadeira que ocupava e aproximou-se silenciosamente dele.

O êxtase do fidalgo não o deixou perceber a pessoa que fizera ficar de pé por trás dele.

No momento em que o duque, sem mais poder conter-se, levantava-se do tapete, sentiu um peso sobre os ombros e tornou a cair de joelhos.

— Não te levantes — ordenou-se uma voz meio contida, mas ferozmente enérgica.

Aterrado, o sr. de Bragantina levantou a cabeça... Era a duquesa!

— Não te levantes — dizia ela nervosamente. — Pede perdão a tua filha.

— Minha filha! — gaguejou o duque, fulminado pela aparição da mulher.

— Sim, tua filha, desgraçado!... a mãe acaba de morrer miseravelmente, viúva de um dos teus lacaios...

Daí a sete dias, dava-se liberdade a Manuel de Pavia e aos indivíduos suspeitos do crime.

A língua do boato murmurava que, no dia seguinte ao da descoberta do crime, o duque se levantara acabrunhado como um doente; que recebera a visita do dr. Louro Trigueiro; que começara-se a dizer então que as jóias tinham sido encontradas.

Era o caso, que o chefe de polícia, visitando Pavia na casa de detenção, ameaçara-o com a energia do duque, que o reduziria à última miséria, se não revelasse o lugar onde estavam depositadas as jóias. O criminoso, exigindo garantias de impunidade, confessou tudo e declarou que o tesouro da coroa estava enterrado num lugar que ele mostraria... Senhor destas disposições de Pavia, dr.

Trigueiro correu a comunicá-las ao duque.

(continua...)

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