Por Coelho Neto (1890)
"Observavam um rito antigo, de muita severidade, que impunha, como principal sacrifício, o jejum, de quando em quando, para moderar os ímpetos da carne." E o romancista, com argumentos sutis, mostrou ao negro como a carne (sobretudo a fresca) conduz ao pecado e ao crime quando não é sofreada prudentemente. Falou dos ascetas, citou Gringoire e Santo Antão, Murger e S. Paulo, o eremita Elias e o Dr. Tanner e o negro, convencido, admirava aquelas almas temperadas de fé e de resignação que resistiam, com tanto fervor, às exigências da matéria. Anselmo tinha surdas revoltas vendo que, em todas as casas, as chaminés fumegavam.
— Mas que tens tu com o fumo dos lares? — perguntou Ruy Vaz.
— Detesto-o!
— És o único. Os poetas celebram a espiral que sobe dos telhados como uma prece demandando a altura.
— Sim, os poetas celebram quando têm o estômago saciado. Põe-me aqui um poeta faminto a olhar todos esses tubos que falam de ensopados, de omeletes, de frituras e de bifes com batatas, e hei de ver a estrofe que lhe sai dos lábios. Há de sair uma invectiva... Isso tantalisa! Saber a gente que em todas essas casas come-se, que em todas elas há almoço e jantar...
— E dores e remorsos e angústias.
— Ora! Infamíssima criatura! — murmurou entre dentes, pensando em Dona
Ana. À noite, porém, já desanimados, dispunham-se a fazer uma desgraça quando o Toledo apareceu com um embrulhinho oloroso, oferecendo timidamente aos companheiros.
— Que é? — perguntou Ruy Vaz lançando um olhar de desprezo ao presente.
— Fígado frito.
— Ora! Fígado frito... Sem pão, aposto?
— Com farinha.
— A farinha faz mal, está provado. Enfim... Queres, Anselmo?
— Eu não sei se o fígado me faz bem: tenho uma hepatite...
— Ora, dentada de cão cura-se com o pêlo do mesmo cão.
— Similia similibus curantur, ajuntou o Toledo.
— É exato. E empanturraram-se. Tarde, João de Deus apareceu estafado e abarrotado: lavara uma casa na vizinhança e comera uma feijoada completa. Teve horríveis pesadelos no corredor — sonhou com um esqueleto, fardado e de mitra, equilibrando-se em uma bola que ia e vinha, pesada e ansiante, sobre o seu estômago. Acordou arquejando e o Toledo diagnosticou um ameaço de congestão, fazendo com que o negro saísse ao mirante com um dedo na goela para aliviar-se. João de Deus urrava e, de manhã, com uma enxaqueca feroz, teve de levar uma carta de Anselmo a um fabricante de águas gasosas que respondeu com muita lamúria, referindo-se às dificuldades da vida e à concorrência das águas estrangeiras que inundavam o mercado, comprometendo-lhe a fonte de renda. Estava a liquidar, concluía, desejando venturas ao estudante. Todas as venturas e nem uma xícara de café ao menos! Foi então que decidiu sair atrás do Acaso. Mas era domingo, o Acaso não aparecia e, se o Toledo, sempre cuidadoso, não houvesse recorrido a um primo, homem que tinha cozinha em casa, levando um bom pedaço de assado e quatro almôndegas num papel pardo, esse triste dia talvez houvesse sido último da vida de Anselmo, que já se dispusera a estourar o crânio, se tivesse um revólver... a estourar o crânio, talvez não, mas a vender o revólver com certeza.
CAPÍTULO VI
E assim passaram lentas duas semanas avaras. Todos os dias, como oração matinal, injuriavam Crebillon que lhes havia mentido e pediam a cólera dos céus para Dona Ana, a inflexível, depois reuniam-se em conselho discutindo meios de conseguir almoço e, como era mais difícil arranjá-lo para todos, tomava cada qual o seu destino, despedindo-se à porta da rua, com tremuras na voz e os olhos úmidos. Toledo, porque tinha o primo, dirigia-se logo para Santa Teresa subindo a montanha penosamente, ao sol, certo, porém, de que ia regalar o estômago com os acepipes do parente, que tinha orgulho em possuir um cozinheiro perito e magníficos charutos. Ruy Vaz seguia a pé para as Laranjeiras e, tonificado pelo bom ar da manhã, saudável e aperitivo, empurrava o pesadíssimo portão do palacete do visconde de Montenegro.
Era um sombrio prédio entre velhíssimas árvores copadas, cujos ramos altos faziam uma abóbada impenetrável ao sol. As paredes, pintadas de um verde amarelado, pareciam cobertas de limo. Os canteiros esquecidos estavam invadidos pelo mato, as aléias eram úmidas e tinham placas lutulentas, de um aveludado fino.
Velho negros, encolhidos pelos cantos, cochilavam preguiçosamente e, dia e noite, como em Scylla, era um uivar dolorido e longo, porque o visconde, grande amador de montarias, quando descia da sua fazenda, em Pinheiros, para passar no Rio os curtos invernos, trazia as suas trelas famosas que davam trabalho a dois negros e a um veterinário, sempre bêbedo e armado de lanceta, contra o qual os animais investiam, apavorados, quando o viam aparecer cambaleando.
Dois cavalos de sangue, altos e esgalgados, passeavam pelas aléias levados por um moço de estrebaria que os preparava, havia anos, para disputarem o grande prêmio, posto que o fidalgo já estivesse resolvido a metê-los nos varais do carro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.