Por Raul Pompéia (1888)
Aristarco, a uma janela, bem certo da inviolabilidade pessoal, ao peitoril, desenvolvia uma energia sem limites, mandando pegar o homem da faca. Os inspetores do recreio tinham azulado. Os rapazes berravam como loucos.
Inesperadamente reaparece o Silvino, muito branco, com as suíças mais pretas, pelo contraste do medo.
“Esperem! esperem!” dizia convulso, como quem traz na algibeira um expediente salvador. “Esperem!”
Exatamente no meio do pátio abriu as imensas pernas de Rodes magro, e levou à boca um apito.
Infelizmente, com a força do sopro engasgou-se o assobio, depois de dois chilros falhos.
Cercado pelos criados que o perseguiam com trancas e cacetes, o homem da faca, cuja intenção era escapulir para o jardim, encostou-se a uma parede. “Deixemme passar, que mato mais um”, rosnava, com a fisionomia faiscante. “Caminho para mim!” repetia, agitando o ferro num frêmito de cascavéis.
Alguns moços destemidos tinham-se avizinhado e completavam o imprudente cerco.
“Abre!” rugiu praguejando o criminoso acuado. E, de um salto de fera, arremessou-se contra os sitiantes, brandindo a faca.
Com a milagrosa destreza do instinto de conservação, cada um safou-se como pôde; o perseguido passou como um tiro. “Fugiu!” clamavam de todos os lados.
Quando o vimos cair de braços.
Alguém se precipitara inesperadamente ao seu encontro e, escorando-o com o joelho e empolgando-o pelo gasnete, com o punho o fizera rodar por terra.
Era o Bento Alves!... com uma das mãos, o bravo colega oprimia a cara ao sujeito contra o solo, ralando-a na areia, com a outra, por um prodígio de vigor, imobilizava-lhe o braço armado. Com o esquerdo livre, o criminoso firmava, tentando erguer-se. Esmagava-o a pressão de um monólito.
Quando foram em auxilio, já o Bento Alves desarmara o adversário, coagindo por meio da tenaz dos dedos com que lhe ferrava o congote.
De toda parte, aclamavam-no herói. À janela, de longe, Aristarco, entusiasmado, esquecia o divino aprumo e bracejava como um moinho de vento, sem conseguir dar voz à emoção.
Bento Alves retirou-se com a faca em troféu, deixando o criminoso sob uma pilha de valentes da última hora e criados que o sufocavam.
Quando o pobre-diabo pôde tomar pé, manietado, amarrado de mil maneiras por cintas de couro, como as múmias no envoltório de tiras, acercou-se dele o Silvino e o agrediu covardemente com sermão de moral.
Era criminoso, dizia-se. De que crime? Dentro de alguns momentos o colégio inteiro o sabia.
O homem da faca era um dos jardineiros do Ateneu. Durante o jantar enfrentara-se de razões com um criado da casa de Aristarco e o matara. Havia algum tempo que disputavam os dois a primazia no coração de Ângela uma terrível pendência. O criado de Aristarco julgava-se na legítima posse desse escrínio de afetos, pela convivência ao lado da bela, consorciados maritalmente na intimidade dos alguidares, onde as mãos se confundiam como as louças ou na sociedade afetuosa do serviço dos aposentos do diretor e da senhora, permutando entre si dichotes açucarados, à flagelação dos tapetes.
O jardineiro, patrício da camareira, dava por si a razão de nacionalidade, o fato de haverem chegado à América na mesma turma de imigrantes e uma autuação completa de juramentos idôneos da sedutora.
Levados a tal aperto os nós da paixão não se desatam; cortam-se. O jardineiro cortou. Por mor azedume da situação, dizem que Ângela de parte a parte estimulava os adversários declarando a cada um por sua vez preferi-lo exclusivamente.
Confiado o assassino aos urbanos, tornou-se a vitima o objeto das atenções.
Era este um rapagão de trinta anos, pardo e simpático. O assassino era mais escuro, espécie de andaluz de touradas, baixo, sólido, grosso como um cepo de açougue.
Apenas desapareceu o criminoso, o colégio inteiro assaltou a escada, desejosos de ver o assassinado À porta do refeitório, porém, Aristarco despachou: “não têm que ver!” Ao mesmo tempo a sineta importuna badalava chamando à forma. O Professor Bataillard, de branco, no cinturão vermelho, apareceu ao lado do diretor. Os rapazes morderam-se de raiva. E não houve nunca no mundo dois superiores mais odiados.
Mas a teia da disciplina tinha malhas de maior largura. Alguns rapazes acharam meio de se esgueirar até à copa, e eu também com eles.
Desde muito, andava querendo ver um cadáver, espetáculo real, de mãos contraídas, revirados beiços. As cartas iconográficas de parede deixavam-me impassível, com as estampas teóricas de cérebros a descoberto, globos oculares exorbitados, ventres golpeados em abas, mostrando vísceras, figuras humanas de pé, descansando a um quadril, movendo a supinação num jeito de complacência passiva, esfolados para que lhes víssemos as veias, modelos vivos da ciência em pose de suplício, constância de brâmane, como à espera que houvéssemos aprendido de cor a circunvolução do sangue, para vestir de novo a pele e os músculos deslocados. Não me bastava.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.